{"id":750,"date":"2022-01-21T07:00:31","date_gmt":"2022-01-21T10:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=750"},"modified":"2022-01-21T07:36:48","modified_gmt":"2022-01-21T10:36:48","slug":"queremos-envelhecer-como-elza-soares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2022\/01\/21\/queremos-envelhecer-como-elza-soares\/","title":{"rendered":"Queremos Envelhecer Como Elza Soares"},"content":{"rendered":"<hr \/>\n<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia- O Brasil est\u00e1 em luto. Ontem faleceu a Elza Soares, aos 91 anos. Faleceu como desejava, em casa.<\/p>\n<p>Morreu em 20 de janeiro, no mesmo dia de Garrincha, seu grande amor. E no mesmo dia de S. Sebasti\u00e3o, padroeiro do Rio de Janeiro, cidade que a viu nascer em 1930, quando come\u00e7ava a era Vargas no Brasil.<\/p>\n<p>Este \u00e9 mais do que um luto individual, de f\u00e3s. \u00c9 um luto coletivo.<\/p>\n<p>Elza Soares deixou f\u00e3s por onde passou.<\/p>\n<p>Entre os que gostam de samba e de jazz, entre pessoas de todas as idades. Foi uma cantora intergeracional. Agradava os av\u00f3s, filhos e filhas e tamb\u00e9m os netos e netas jovens e adolescentes.<\/p>\n<p>Deixou f\u00e3s tamb\u00e9m em todas as classes sociais, em diferentes l\u00ednguas e pa\u00edses. N\u00e3o por acaso foi eleita pela R\u00e1dio BBC, de Londres, a cantora do mil\u00eanio, considerada a artista que representava os anos 2000 com sua voz arrepiante.<\/p>\n<p>Tinha f\u00e3s entre quem gosta de m\u00fasica eletr\u00f4nica, de hip hop e de funk. Foi uma artista camale\u00f4nica. Se atualizava, transformava e vivia de acordo com o seu tempo.\u00a0 Uma mulher brasileira no Planeta Fome, t\u00edtulo do \u00faltimo \u00e1lbum, lan\u00e7ado em 2019.<\/p>\n<p>Elza representou todas as mulheres, que tamb\u00e9m se encontram em luto coletivo. Mulheres a\u00a0quem Elza defendia e denunciava os diferentes tipos de viol\u00eancias (f\u00edsica, psicol\u00f3gica, sexual, moral, patrimonial, financeira) e os assassinatos. Viol\u00eancias que ela tamb\u00e9m vivenciou no decorrer da vida, mas teve coragem de denunciar, se tornando refer\u00eancia para as novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 um luto coletivo de ra\u00e7a, a ra\u00e7a negra, violada h\u00e1 s\u00e9culos, massacrada e dolorida. Elza cantava a resist\u00eancia com sua voz rasgada de raiva, dor e vida. &#8220;Racismo \u00e9 crime e precisa ser denunciado&#8221;. Inclusive em forma de can\u00e7\u00e3o. Este foi o caso da m\u00fasica <em>Carne<\/em>, lan\u00e7ada em 2002.<\/p>\n<p>A cantora, que sentiu a pobreza e o\u00a0 preconceito na pele, era um \u00edcone da comunidade LGBTQIA+. Em seu \u00faltimo disco,\u00a0 a m\u00fasica <em>N\u00e3o Recomendado <\/em>conta o horror e a persegui\u00e7\u00e3o que sofrem. Em suas entrevistas, costumava dizer &#8220;falo pelas mulheres, pelos negros e pelos gays&#8221;.\u00a0 E usava sua fama contra a viol\u00eancia e a homofobia.<\/p>\n<p>Foram 34 discos lan\u00e7ados por uma jovem que passava fome e mal tinha o que vestir em 1960. Com uma voz incompar\u00e1vel, Elza Soares passeava por diferentes ritmos com esplendor. E tamb\u00e9m com\u00a0 empatia e preocupa\u00e7\u00e3o pelas popula\u00e7\u00f5es fragilizadas.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da defesa e cuidado com os outros, Elza Soares defendeu seus direitos e praticou o autocuidado com muita garra.<\/p>\n<p>Trocou o cabelo alisado pelo cabelo afro. Assumiu perucas louras, douradas, rosas e azuis com ousadia e naturalidade. Fez quantas pl\u00e1sticas pode pagar e deu espa\u00e7o para o amor, independente da idade.<\/p>\n<p>Uma vez disse em um show que se matava de trabalhar para ter grana, mas n\u00e3o podia comer o que conseguia pagar para n\u00e3o perder o corpinho. Ao falar de si, falava da ditadura da est\u00e9tica e da moda. Uma moda que transgrediu ao exibir modelos exuberantes.<\/p>\n<p>Em 2019, um ano antes da pandemia por Covid-19, Elza Soares foi enredo da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, no Rio de Janeiro. Os 89 anos de idade n\u00e3o assustaram nem diminu\u00edram a vitalidade da artista que desfilou como destaque no \u00faltimo carro aleg\u00f3rico.<\/p>\n<p>Elza Soares foi\u00a0 uma mulher a frente do seu tempo, mesmo na velhice. Desconstruiu a figura da vovozinha pacata, cuja vida se encaminhava para o final. Ou que a vida se resumia aos netinhos.\u00a0 A artista seguiu refletindo, vivendo, trabalhando\u00a0 e produzindo arte, at\u00e9 o final. Tinha agenda lotada de shows at\u00e9 o final de 2022 mostrando que o envelhecimento \u00e9 apenas uma outra fase da vida.<\/p>\n<p>Em entrevista para a Folha de S\u00e3o Paulo, Elza disse: &#8221; Meu nome \u00e9 agora. Eu acredito que para fazer o bem tem que fazer o bem hoje. N\u00e3o da pra deixar para amanh\u00e3 o que pode fazer hoje. Fa\u00e7a j\u00e1. Eu fa\u00e7o o meu bem agora, n\u00e3o deixo para depois. Eu n\u00e3o sei o que ser\u00e1 de mim depois.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00f3s, do Coletivo Filhas da M\u00e3e, acreditamos no envelhecimento ativo, criativo e com dignidade. Elza Soares mostrou at\u00e9 os 91 anos que isso \u00e9 poss\u00edvel e pode ser uma experi\u00eancia extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em tempo: LGBTQIA+ \u00e9 a sigla de l\u00e9sbicas, gays, bissexuais, transexuais\/ travestis, queers, intersexos e assexuais. Ou seja, de pessoas que n\u00e3o entendem a heterossexualidade como \u00fanico espa\u00e7o poss\u00edvel de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia- O Brasil est\u00e1 em luto. Ontem faleceu a Elza Soares, aos 91 anos. Faleceu como desejava, em casa. Morreu em 20 de janeiro, no mesmo dia de Garrincha, seu grande amor. E no mesmo dia de S. 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