{"id":75,"date":"2021-03-15T07:00:12","date_gmt":"2021-03-15T10:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=75"},"modified":"2021-03-15T00:15:41","modified_gmt":"2021-03-15T03:15:41","slug":"modos-de-cuidar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2021\/03\/15\/modos-de-cuidar\/","title":{"rendered":"Modos de Cuidar"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/strong><\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; No Brasil, as mulheres constituem 96% \u00a0do trabalho de cuidado, segundo o IBGE (2019). Por isso n\u00e3o estranhe se desobedecemos\u00a0 a l\u00edngua formal\u00a0 &#8211; elaborada no tempo em que as mulheres tinham pouca representa\u00e7\u00e3o e voz &#8211; quando as palavras apareciam majoritariamente no masculino.<\/p>\n<p>Falamos no feminino. N\u00e3o apenas porque somos maioria. Mas porque trabalhamos 24 horas por dia, sete dias na semana, em total anonimato e invisibilidade. Uma tentativa de dar espa\u00e7o e reconhecimento a\u00a0 essas mulheres, um universo do qual fazemos parte.<\/p>\n<p>Embora seja\u00a0 extremamente solit\u00e1rio e com uma carga de responsabilidade raramente compartilhada, o trabalho n\u00e3o remunerado do cuidado pode trazer surpresas, principalmente quando nos articulamos e nos unimos, agora virtualmente.<\/p>\n<p>Muitas de n\u00f3s contamos com a ajuda de amigas, parentes \u00a0e vizinhas para tornar suport\u00e1vel o trabalho de cuidar. Participamos de grupos e passamos depois a multiplicar essa rede de solidariedade. A exemplo do Coletivo Filhas da M\u00e3e, criado no final de 2019, e coordenado por um grupo de mulheres cuidadoras\u00a0 e ex-cuidadoras familiares.<\/p>\n<p>S\u00e3o diversos os perfis e rela\u00e7\u00f5es de trabalho\u00a0 em nosso pa\u00eds. A come\u00e7ar pelas cuidadoras familiares, um mundo\u00a0 que se amplia a medida em que a sociedade envelhece.<\/p>\n<p>De acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT, 2019) o trabalho de cuidar pode ser remunerado ou n\u00e3o.\u00a0 Mas no Brasil, o cuidado familiar \u00e9 essencialmente gratuito.<\/p>\n<p>A OIT considera dois tipos de atividades de cuidado. As diretas, que envolvem cuidar e alimentar uma crian\u00e7a,\u00a0\u00a0 uma pessoa enferma\u00a0 ou um\u00a0 idoso (ou todos ao mesmo tempo). E atividades indiretas, como limpar, lavar,\u00a0 fazer compras e organizar a casa. Tarefas realizadas por mulheres e, dependendo da classe social,\u00a0 trabalho gratuito que come\u00e7a para as meninas, por volta dos 14, 15 anos .<\/p>\n<p>Existem tamb\u00e9m as cuidadoras profissionais, cuja profiss\u00e3o aprovada no Congresso em 2019, foi vetada pelo governo Bolsonaro. A maioria\u00a0 trabalha na informalidade (sem carteira assinada), recebendo por plant\u00f5es incompat\u00edveis com a \u00a0legisla\u00e7\u00e3o trabalhista. Ou carteira assinada como dom\u00e9stica. Ou ainda, de forma mais prec\u00e1ria, terceirizadas por empresas que recebem parte do sal\u00e1rio pela intermedia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em pa\u00edses como o Brasil, Argentina, Col\u00f4mbia e Uruguai, o trabalho remunerado de cuidado de crian\u00e7as e idosos \u00e9 realizado por trabalhadoras dom\u00e9sticas, mensalistas ou diaristas, segundo a soci\u00f3loga Nadya Guimar\u00e3es, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>Nem todas s\u00e3o capacitadas para desempenhar as fun\u00e7\u00f5es. Muitas dessas profissionais j\u00e1 foram cuidadoras familiares e aproveitam a experi\u00eancia pessoal\u00a0 para atuar como cuidadora remunerada.<\/p>\n<p>No pa\u00eds existe um d\u00e9ficit de cuidadoras profissionais e isso tamb\u00e9m ocorre no Distrito Federal. No total h\u00e1 1,5 milh\u00e3o\u00a0 de cuidadoras domiciliares remuneradas e ainda assim \u00a0\u00a0a busca por essas profissionais aumentou 275% entre 2012 e 2019. Tampouco isso aconteceu por acaso:\u00a0 o pa\u00eds \u2013 embora n\u00e3o reconhe\u00e7a &#8211;\u00a0 est\u00e1 envelhecendo rapidamente.<\/p>\n<p>Existem, no entanto,\u00a0 categorias de cuidado pouco conhecidas.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 a de \u00a0cuidadores sociais, majoritariamente feminina. S\u00e3o contratadas por algumas prefeituras\u00a0 e podem ter \u00a0forma\u00e7\u00e3o de n\u00edvel m\u00e9dio ou fundamental.\u00a0 Atendem enfermos ou idosos em secretarias ou institui\u00e7\u00f5es. A atividade \u00e9 reconhecida pelo Minist\u00e9rio do Trabalho, mesmo sem reconhecimento formal como profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Outra categoria \u00e9 a cuidadora informal, \u00a0atividade\u00a0 desempenhada \u00a0por amigas e vizinhas, de forma gratuita.<\/p>\n<p>Elas \u00a0ficam\u00a0 atentas \u00e0s necessidades de pessoas idosas ou enfermas, como aquelas que t\u00eam dem\u00eancias, entre elas o Alzheimer. Ou que tenham outras doen\u00e7as, como o c\u00e2ncer. Acompanham nas consultas m\u00e9dicas e em exames, telefonam para familiares que moram longe, fazem compras, preparam refei\u00e7\u00f5es, checam a medica\u00e7\u00e3o e at\u00e9 pagam pelos rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>No \u00a0Coletivo Filhas da M\u00e3e temos pelo menos cinco casos de pessoas que cuidam \u2013 em diferentes n\u00edveis \u2013 de suas amigas, ainda que a pandemia tenha reduzido as atividades a telefonemas, mensagens de Whats App e contato por \u00a0\u00e1udio e v\u00eddeo.<\/p>\n<p>Outro perfil de cuidador,\u00a0 neste caso indireto, \u00a0\u00e9 o porteiro do pr\u00e9dio, acostumado a \u201cficar de olho\u201d nos moradores que vivem sozinhos, em especial,\u00a0 os idosos. Em 2010, uma pesquisa da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), inclusive no Brasil, \u00a0\u00a0identificou a import\u00e2ncia do papel desses profissionais na qualidade de vida dos mais velhos.<\/p>\n<p>Em um pa\u00eds sem pol\u00edticas p\u00fablicas de cuidado, quer seja para crian\u00e7as,\u00a0 enfermos e \u00a0idosos, \u00a0muito menos para apoiar as cuidadoras, o que existe s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias de amigos, vizinhos, institui\u00e7\u00f5es religiosas,\u00a0 porteiros e, principalmente, grupos de apoio, revelando a import\u00e2ncia da comunidade no cuidado e no est\u00edmulo ao autocuidado.<\/p>\n<p>E voc\u00ea, que tipo de cuidado\u00a0 voc\u00ea presta ou recebe?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; No Brasil, as mulheres constituem 96% \u00a0do trabalho de cuidado, segundo o IBGE (2019). 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