{"id":675,"date":"2021-12-13T07:00:52","date_gmt":"2021-12-13T10:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=675"},"modified":"2021-12-10T07:23:59","modified_gmt":"2021-12-10T10:23:59","slug":"a-dificil-tarefa-da-despedida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2021\/12\/13\/a-dificil-tarefa-da-despedida\/","title":{"rendered":"A Dif\u00edcil Tarefa da Despedida"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Nunca \u00e9 f\u00e1cil dizer adeus, seja para um par rom\u00e2ntico, seja para um familiar.<\/p>\n<p>S\u00e3o dores profundas para mortes distintas. A primeira, do amor rom\u00e2ntico, \u00e9 uma morte simb\u00f3lica, que se concretiza no caso de separa\u00e7\u00e3o.\u00a0Mesmo que seja a gente que decida seguir outro caminho.<\/p>\n<p>\u00c9 a dor do que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9; do que poderia ter sido e n\u00e3o foi. \u00c9 a dor do luto pelo fim da rela\u00e7\u00e3o. Pelo fim do sonho.<\/p>\n<p>Essa dor merece respeito. E tempo.<\/p>\n<p>A dor de dizer adeus para um familiar querido \u00e9\u00a0 diferente. Se for a m\u00e3e ou o pai (biol\u00f3gicos ou adotivos), \u00e9 uma dor lacerante que faz perder o rumo, ainda que temporariamente.\u00a0Mesmo no caso de familiares com dem\u00eancias, cuja dor e sofrimento prolongados merecem descanso de ambas partes. De quem \u00e9 cuidado e de quem cuida.<\/p>\n<p>A ideia do &#8220;nunca mais&#8221; \u00e9\u00a0 uma das quest\u00f5es mais dif\u00edceis de lidar. Em qualquer idade, cidade, estado,\u00a0 pa\u00eds, l\u00edngua ou religi\u00e3o. Independe de n\u00edvel cultural ou educativo. A dor perpassa todas as classes sociais.\u00a0 Nunca mais \u00e9 nunca mais e ponto.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel aceitar a imperman\u00eancia e a finitude depois de algum tempo. Mesmo que, no campo do desejo, l\u00e1 no fundo, os pais nunca ficariam doentes. De prefer\u00eancia, congelariam no tempo vivendo sua vida de forma independente.<\/p>\n<p>Nesse espa\u00e7o do desejo e da imagina\u00e7\u00e3o, podemos seguir sendo filhas e filhos. Seguimos sendo cuidados, sem inverter &#8220;a ordem&#8221; do cuidado.<\/p>\n<p>A morte exige\u00a0 demandas legais.\u00a0Essas demandas\u00a0 exigem presen\u00e7a de quem fica. S\u00e3o assinaturas, idas a cart\u00f3rios, gest\u00e3o funer\u00e1ria, vel\u00f3rios, enterros ou crema\u00e7\u00e3o. Em alguns casos, invent\u00e1rios e partilhas que podem se arrastar anos.<\/p>\n<p>Esse &#8220;tempo funer\u00e1rio&#8221;\u00a0 n\u00e3o nos d\u00e1 o tempo necess\u00e1rio pra compreens\u00e3o da realidade e para despedidas.<\/p>\n<p>Muitas gente liga o &#8220;piloto autom\u00e1tico&#8221; e segue em frente, o que por um tempo pode ajudar a anestesiar a dor.<\/p>\n<p>Esse estado de anestesia pode,\u00a0 inclusive, barrar o choro. Por um tempo. Um dia um rio de l\u00e1grimas percorre nosso rosto e corpo inundando a alma. Expondo a ferida aberta que estava escondida sob o manto da racionalidade.<\/p>\n<p>Aceitar a morte e a finitude n\u00e3o \u00e9 algo f\u00e1cil e n\u00e3o chega automaticamente.\u00a0O nosso lado adulto (racional) sabe da import\u00e2ncia do descanso para a pessoa enferma. Tem condi\u00e7\u00f5es de reconhecer que era o melhor que poderia ter acontecido para algu\u00e9m que est\u00e1 perdido, doente e sem mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas dentro de n\u00f3s h\u00e1 uma crian\u00e7a que \u00e9 toda sentimento. \u00c9 essa crian\u00e7a que grita e esperneia de dor. E que quer espa\u00e7o para\u00a0 chorar o abandono.<\/p>\n<p>O fim do corpo \u00e9 tamb\u00e9m o fim do cuidado, embora esse cuidado por parte de pai ou da\u00a0 m\u00e3e j\u00e1 n\u00e3o existisse realmente h\u00e1 anos. Estava ( e est\u00e1) presente apenas no campo da mem\u00f3ria afetiva.<\/p>\n<p>Saber de tudo isso nem sempre diminui a saudade. Ou a sensa\u00e7\u00e3o de orfandade, de perda das refer\u00eancias familiares,\u00a0 ainda que elas sigam sim dentro de n\u00f3s por toda a vida.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, n\u00e3o d\u00e1 mais pra telefonar pra contar pra m\u00e3e em primeira m\u00e3o o que aconteceu no dia. N\u00e3o d\u00e1 mais para ouvir\u00a0 um conselho, risada ou repreens\u00e3o. Nem toques ou abra\u00e7os. N\u00e3o d\u00e1 mais pra contar para o pai algo que consideramos\u00a0 importante no trabalho ou na vida. Nem da pra trazer de volta o irm\u00e3o, mais novo, do meio ou mais velho.<\/p>\n<p>Aceitar a partida \u00e9 um processo demorado.<\/p>\n<p><strong>Perdas no Natal<\/strong><\/p>\n<p>No per\u00edodo de Natal \u00e9 particularmente delicado perder um familiar.\u00a0Deveria ser um\u00a0 momento feliz, de encontros e reencontros familiares. Mas pode ser atingido pela dor.<\/p>\n<p>Como lidar com a perda?\u00a0 N\u00e3o h\u00e1 f\u00f3rmulas prontas.\u00a0Dar tempo ao tempo \u00e9 um primeiro passo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se esconder da dor, nem se deixar afogar pela tristeza \u00e9 outro passo. E buscar ajuda profissional, caso necess\u00e1rio.\u00a0A escuta atenta\u00a0 e continuada pode ajudar a compreender a dimens\u00e3o da perda, ampliada em tempos de pandemia.<\/p>\n<p>Apesar da tristeza, nossos entre queridos\u00a0 v\u00e3o viver dentro de n\u00f3s enquanto estivermos vivos.\u00a0E v\u00e3o reviver cada vez que lembremos de um <em>causo<\/em>, de uma hist\u00f3ria engra\u00e7ada, dif\u00edcil ou triste. Mas principalmente v\u00e3o reviver cada vez que algu\u00e9m escutar, gostar\u00a0 e multiplicar essas hist\u00f3rias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; Nunca \u00e9 f\u00e1cil dizer adeus, seja para um par rom\u00e2ntico, seja para um familiar. S\u00e3o dores profundas para mortes distintas. 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