{"id":62,"date":"2021-03-10T07:00:01","date_gmt":"2021-03-10T10:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=62"},"modified":"2021-03-09T23:13:24","modified_gmt":"2021-03-10T02:13:24","slug":"quantas-raivas-acumuladas-existem-no-cuidar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2021\/03\/10\/quantas-raivas-acumuladas-existem-no-cuidar\/","title":{"rendered":"Quantas raivas acumuladas existem no cuidar?"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp;\u00a0 Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Em geral s\u00f3 falamos do amor que sentimos pelos familiares\u00a0 que cuidamos, idosos e\/ou enfermos. Contamos a parte boa da hist\u00f3ria. Floreamos.<\/p>\n<p>Falamos (e escrevemos) sobre como \u00e9 lindo cuidar. Mandamos fotos, v\u00eddeos e \u00e1udios mesmo que no final do dia estejamos exaustas e seja dif\u00edcil dormir e descansar.<\/p>\n<p>Lemos em jornais, revistas, livros ou na internet que o cuidado \u00e9 um ato amoroso. Que \u00e9 uma &#8220;obriga\u00e7\u00e3o amorosa&#8221;.<\/p>\n<p>Escutamos (e repetimos) frases do tipo &#8220;quem ama, cuida&#8221;. Enquanto isso, sublimamos a dor, a raiva e a vontade de gritar em diferentes momentos do dia.<\/p>\n<p>Isso pode ocorrer enquanto vestimos e carregamos nos bra\u00e7os um familiar doente (em geral maior e mais pesado). Enquanto damos banho e eles tentam fugir do chuveiro. Enquanto tentamos fazer com que comam e n\u00e3o escondam e\/ou joguem os rem\u00e9dios fora.<\/p>\n<p>Tentamos nos acostumar a repetir as mesmas frases e dar as mesmas respostas v\u00e1rias vezes ao dia. Como um disco que n\u00e3o para de se repetir continuamente.<\/p>\n<p>A cada minuto engolimos o sentimento de impot\u00eancia que o cuidado\u00a0 familiar de pessoas com dem\u00eancias e Alzheimer \u2013 a mais conhecida das dem\u00eancias &#8211; \u00a0pode trazer.<\/p>\n<p>Vestimos a capa e a espada para mais uma maratona di\u00e1ria contra uma doen\u00e7a que n\u00e3o fomos preparadas a enfrentar.<\/p>\n<p>Escondemos o desespero \u2013 ainda que ele escape em forma de respostas r\u00edspidas, palavr\u00f5es ou mesmo gritos proferidos contra familiares mais pr\u00f3ximos. E esses familiares nem sempre compreendem porque estamos &#8220;t\u00e3o&#8221; agitadas, nervosas ou ansiosas.<\/p>\n<p>Em geral, choramos pelos cantos, escondidas, sem entender direito a tristeza e o des\u00e2nimo que \u00a0vai entrando pelas bordas e nos consumindo aos poucos. Ou sem compreender por que nos atiramos na geladeira em busca de compensa\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias (haja comidinhas, chocolates e docinhos!).<\/p>\n<p>N\u00e3o fomos educadas e \u00a0educados para perder a conta gotas nossos familiares enfermos. Um pouco todos os dias, sem despedidas e reconhecimento.<\/p>\n<p>Nem fomos preparadas e preparados para deixar de ser filhas e filhos, esposas, maridos. Netas e netos da noite para o dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o somos s\u00f3 adultos. Dentro de n\u00f3s h\u00e1 uma crian\u00e7a que fica gritando por aten\u00e7\u00e3o. Que manda sinais de dor, medo, tristeza e raiva. Que sente\u00a0 raiva por n\u00e3o ter como escapar, por n\u00e3o ter para onde fugir. E vive uma imensa solid\u00e3o que consome parte dos dias.<\/p>\n<p>Essa mistura de emo\u00e7\u00f5es \u00a0gera culpa (como vamos sentir raiva se &#8220;dever\u00edamos &#8221; ser s\u00f3 amor?). Uma culpa que muitas vezes jogamos pra debaixo do tapete sem entender essa montanha russa de sentimentos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sentir ou deixar de sentir raiva. Mas, sim, como lidamos com esse sentimento. E \u00e9 aqui que entra o autocuidado.<\/p>\n<p>Uma forma de autocuidado poss\u00edvel \u00e9 buscar ajuda para entender essas emo\u00e7\u00f5es,\u00a0 buscar se conhecer melhor e tentar lidar melhor com elas, sem transbordar ou se desesperar. Isso pode ser feito conversando semanalmente com profissionais especializados na escuta.<\/p>\n<p>Pode ser feito encontrando um espa\u00e7o para falar e ser acolhida, ainda que isso ocorra de forma on-line em tempos de pandemia. Pode ser feito tamb\u00e9m de forma coletiva\u00a0 em grupos de apoio, rodas de cuidado e autocuidado e de forma mais profunda, em an\u00e1lise em grupo.<\/p>\n<p>PS: caso voc\u00ea n\u00e3o possa pagar um profissional especializado, o SUS oferece equipes profissionais e terapias integrativas que contribuem para a sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>PS 2: \u00e9 \u00a0recomend\u00e1vel tamb\u00e9m que voc\u00ea fa\u00e7a exerc\u00edcios f\u00edsicos regularmente, o que ajuda a circular a energia.<\/p>\n<p>PS3: j\u00e1 pensou tamb\u00e9m na raiva e no medo acumulado pela falta de vacinas, hospitais e leitos?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp;\u00a0 Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; Em geral s\u00f3 falamos do amor que sentimos pelos familiares\u00a0 que cuidamos, idosos e\/ou enfermos. Contamos a parte boa da hist\u00f3ria. Floreamos. Falamos (e escrevemos) sobre como \u00e9 lindo cuidar. 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