{"id":564,"date":"2021-10-29T07:00:21","date_gmt":"2021-10-29T10:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=564"},"modified":"2021-10-29T06:15:53","modified_gmt":"2021-10-29T09:15:53","slug":"564","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2021\/10\/29\/564\/","title":{"rendered":"Ser\u00e1 Que H\u00e1 Algo Errado Comigo?"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia \u2013\u00a0 No final do m\u00eas da pessoa idosa, lembramos a\u00a0situa\u00e7\u00e3o das cuidadoras que j\u00e1 passaram dos 60 anos e come\u00e7am a apresentar esquecimentos e d\u00e9ficit cognitivo.<\/p>\n<p>Isso pode ocorrer durante ou depois de passar anos cuidando pessoas na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Depois de anos de estresse constante, de sobrecarga f\u00edsica e mental. De duplas e triplas jornadas para dar conta de atender uma ou mais\u00a0 pessoa\u00a0 doente e demais membros da fam\u00edlia, particularmente filhos e filhas.<\/p>\n<p>Este talvez seja o maior fantasma de quem cuidou ou cuida de um familiar.<\/p>\n<p>Depois de todo sofrimento\u00a0 por perder diariamente uma pessoa querida e a frustra\u00e7\u00e3o por n\u00e3o poder salv\u00e1-la, cuidadoras ou ex-cuidadoras correm o risco de\u00a0 \u201cherdar\u201d a doen\u00e7a. Ou seja, tamb\u00e9m apresentar um quadro de dem\u00eancia.<\/p>\n<p>S\u00e3o noites de medo e solid\u00e3o. De pesadelos e sil\u00eancios. De d\u00favidas e incertezas.<\/p>\n<p>De tentativas de contar os receios para outras pessoas da fam\u00edlia ou para amigas, sem que estas aceitem ou reconhe\u00e7am as dificuldades crescentes.<\/p>\n<p>Em geral, as pessoas diminuem os receios. E se negam a falar sobre essa possibilidade.<\/p>\n<p>Por amor (e medo),\u00a0 diminuem as dificuldades, como se os esquecimentos fossem normais. \u201cCoisas da idade\u201d.<\/p>\n<p>Mas os sinais n\u00e3o param de se manifestar.<\/p>\n<p>\u00c9 a panela esquecida no fogo. N\u00e3o saber como preparar uma comida que fazia h\u00e1 anos. Esquecer nomes ou datas. Ou os dois. Combinar algo com as amigas e esquecer.<\/p>\n<p>Com as medica\u00e7\u00f5es, acontecem diferentes situa\u00e7\u00f5es. Esquecer de comprar ou tomar os medicamentos. Ter d\u00favida se j\u00e1\u00a0 tomou. Ou ter v\u00e1rias agendas e anota\u00e7\u00f5es para garantir que n\u00e3o vai se esquecer e se perder no meio delas.<\/p>\n<p>Quando isso acontece, \u00e9 preciso ajuda especializada. Ainda que\u00a0 m\u00e9dicos e especialistas tamb\u00e9m sejam amigos. \u00c9 preciso fazer exames e ver as mudan\u00e7as que est\u00e3o ocorrendo nos \u00faltimos tempos enquanto ainda h\u00e1 tempo.<\/p>\n<p>Quando ocorre, \u00e9 essencial ter uma rede de apoio para garantir acolhimento. \u00c0s vezes a ajuda vem de pessoas\u00a0 que n\u00e3o\u00a0 convivem todos os dias.<\/p>\n<p>Pode ser muito duro para pessoas mais \u00a0pr\u00f3ximas aceitarem que a superm\u00e3e, supertia,\u00a0 superav\u00f3,\u00a0 superamiga,\u00a0 supercolega ou superprofissional, j\u00e1 n\u00e3o ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de ser a mesma de antes.<\/p>\n<p>Buscar a ajuda de psic\u00f3logos ou psicanalistas \u00e9 essencial, caso ainda n\u00e3o tenha come\u00e7ado tratamento.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 preciso coragem de lidar com o novo momento. Com a dor, com a frustra\u00e7\u00e3o e com a raiva.<\/p>\n<p>Raiva que pode virar contra a pr\u00f3pria pessoa ou contra os outros na forma de irrita\u00e7\u00e3o, reatividade, agressividade.\u00a0 Um turbilh\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es frente a um desafio que pode ser ainda maior. Ainda mais quando a pessoa compreende o que podem significar os sinais.<\/p>\n<p>Para ter certeza do que realmente est\u00e1 ocorrendo, \u00e9 preciso ir a um especialista em dem\u00eancias\u00a0 (geriatra, cardiologista ou psiquiatra) ou um m\u00e9dico que acompanhe a fam\u00edlia h\u00e1 alguns anos.<\/p>\n<p>Ou\u00a0 buscar servi\u00e7os gratuitos, como o Centro de Medicina do Idoso do Hospital Universit\u00e1rio de Bras\u00edlia (HUB).<\/p>\n<p>L\u00e1 o bom atendimento\u00a0 p\u00fablico pode se misturar \u00e0 vergonha de ter alunas e alunos escutando sobre o caso enquanto a pessoa passa pela avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e cognitiva, que envolve a linguagem, o racioc\u00ednio e a mem\u00f3ria. E incluem exerc\u00edcios cansativos, combinados com o medo de errar. Tudo ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>\u00c9 importante pedir ajuda. E (tentar) mudar os h\u00e1bitos. Entre eles, alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, com mais frutas, legumes e verduras e menos a\u00e7\u00facar, gorduras e frituras. Mais sucos e\u00a0 menos refrigerantes.<\/p>\n<p>\u00c9 indicado fazer exames para garantir um sono melhor. E, se necess\u00e1rio, usar equipamentos\u00a0 que ajudem o oxig\u00eanio a circular sem dificuldade no c\u00e9rebro. Dormir mais cedo e acordar mais cedo. Aproveitar para sair a caminhar ou fazer exerc\u00edcios, fortalecendo a musculatura.<\/p>\n<p>\u00c9 importante seguir tentando convencer a fam\u00edlia e amigos que algo est\u00e1 ocorrendo, mesmo que se neguem a escutar.<\/p>\n<p>As redes de apoio podem ajudar. Mesmo frente ao pior dos pesadelos,\u00a0 \u00e9 preciso acreditar que\u00a0 n\u00e3o se est\u00e1 s\u00f3. A vida segue.<\/p>\n<p>Ps: Para quem nos l\u00ea a primeira vez: usamos o termo cuidadoras no feminino porque, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE),\u00a0 a atividade de cuidado \u00e9 majoritariamente feminina. As mulheres representam 96% da atividade no Brasil, sendo 82% cuidadoras familiares, que trabalham diariamente de forma invis\u00edvel e sem remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia \u2013\u00a0 No final do m\u00eas da pessoa idosa, lembramos a\u00a0situa\u00e7\u00e3o das cuidadoras que j\u00e1 passaram dos 60 anos e come\u00e7am a apresentar esquecimentos e d\u00e9ficit cognitivo. Isso pode ocorrer durante ou depois de passar anos cuidando pessoas na fam\u00edlia. Depois de anos de estresse constante, de sobrecarga f\u00edsica e mental. 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