{"id":4253,"date":"2026-10-05T13:17:10","date_gmt":"2026-10-05T16:17:10","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=4253"},"modified":"2026-10-05T13:41:55","modified_gmt":"2026-10-05T16:41:55","slug":"um-brasil-dividido-por-duas-historias-de-cuidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2026\/10\/05\/um-brasil-dividido-por-duas-historias-de-cuidado\/","title":{"rendered":"Um Brasil  Dividido por Duas Hist\u00f3rias de Cuidado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cosette Castro &amp; Nat\u00e1lia Duarte <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bras\u00edlia &#8211; Nesta segunda-feira cinzenta e com chuva, j\u00e1 come\u00e7aram as movimenta\u00e7\u00f5es para o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje quem escreve no Blog \u00e9 a professora e pesquisadora da UnB, Nat\u00e1lia Duarte, que faz parte da coordena\u00e7\u00e3o do Coletivo Filhas da M\u00e3e. Ela convida a refletir sobre os tipos de cuidado existentes no Brasil, desde o ponto de vista de quem necessita cuidados e de quem cuida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nat\u00e1lia Duarte &#8211; &#8220;Por muito tempo, tentamos explicar o Brasil pela lente da polariza\u00e7\u00e3o. Mas talvez seja hora de reconhecer que o que chamamos de \u201cpolariza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 tamb\u00e9m a express\u00e3o de duas vis\u00f5es sobre cuidado que atravessam s\u00e9culos da nossa hist\u00f3ria. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o s\u00e3o apenas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas: s\u00e3o modos de viver, sobreviver e cuidar que se formaram em experi\u00eancias profundas do povo brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira vis\u00e3o nasce da realidade de quem n\u00e3o teve Estado, prote\u00e7\u00e3o ou pol\u00edticas p\u00fablicas que chegassem aos territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Povos ind\u00edgenas sempre cuidaram de si, de suas comunidades e de sua espiritualidade sem apoio externo, resistindo apesar da viol\u00eancia e da neglig\u00eancia oficial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O povo negro, escravizado e depois abandonado \u00e0 pr\u00f3pria sorte, construiu redes de cuidado comunit\u00e1rio, familiar e espiritual para sobreviver. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mulheres, especialmente as mais pobres, sempre foram respons\u00e1veis, sem remunera\u00e7\u00e3o, pelo cuidado de crian\u00e7as, de pessoas idosas, de pessoas com defici\u00eancia, de doentes, vizinhas, parentes e agregados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cuidaram porque era preciso, porque n\u00e3o havia alternativa, porque o trabalho de cuidado era a \u00fanica forma de manter a vida em movimento. E de sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa experi\u00eancia hist\u00f3rica produz uma vis\u00e3o de mundo: o cuidado como responsabilidade individual, da mulher e familiar, sem esperar muito do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para milh\u00f5es de pessoas, essa foi a \u00fanica realidade durante muitos anos e ainda o \u00e9, em algumas situa\u00e7\u00f5es. Muitas dessas pessoas, por exemplo, nunca ouviram falar na Pol\u00edtica Nacional de Cuidados. Por isso, n\u00e3o surpreende que parte da popula\u00e7\u00e3o, onde nem sempre as pol\u00edticas p\u00fablicas chegam, defenda menos Estado, menos impostos, menos pol\u00edticas sociais, mais individualismo e mais conservadorismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 ignor\u00e2ncia: \u00e9 mem\u00f3ria social. \u00c9 a marca de gente que sempre &#8220;foi em frente sem nem ter com quem contar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Outro Lado<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda vis\u00e3o nasce das lutas e da mobiliza\u00e7\u00e3o social. Ao longo do s\u00e9culo XX e especialmente ap\u00f3s a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, que hoje completa 38 anos, foi conquistado o reconhecimento de que cuidar \u00e9 corresponsabilidade coletiva. E isso virou pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Constru\u00edmos o SUS, o Sistema \u00danico da Assist\u00eancia Social (SUAS), a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, o programa Minha Casa Minha Vida e a farm\u00e1cia popular, pol\u00edticas de renda, cultura, esporte, lazer, prote\u00e7\u00e3o do trabalho e programas comunit\u00e1rios. E, mais recentemente, a Pol\u00edtica Nacional de Cuidados. Nada disso caiu do c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 resultado da resist\u00eancia das mulheres, dos movimentos sociais, dos povos tradicionais, das trabalhadoras remuneradas do cuidado e das cuidadoras familiares, sem remunera\u00e7\u00e3o, que sabiam que o cuidado n\u00e3o pode existir apenas no \u00e2mbito privado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Coletivo Filhas da M\u00e3e se insere nessa tradi\u00e7\u00e3o. Defendemos uma Sociedade do Cuidado, onde as fam\u00edlias, em especial os homens, a comunidade, as empresas e o Estado devem  compartilhar a corresponsabilidades do cuidado. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acreditamos  e defendemos as pol\u00edticas p\u00fablicas para toda popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sejam elas as pol\u00edticas p\u00fablicas  de cuidado, as  escolas integrais, a aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria forte, os centros de conviv\u00eancia, os centros dia e os territ\u00f3rios de cuidado. Tamb\u00e9m defendemos o direito ao autocuidado, como expl\u00edcita a Pol\u00edtica Nacional de Cuidados, aprovada em dezembro de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Somos mulheres cuidadoras e sabemos que cuidar \u00e9 afeto, mas tamb\u00e9m \u00e9 trabalho, na maioria das vezes invis\u00edvel e gratuito. Com condi\u00e7\u00f5es dignas e com corresponsabilidade,  o cuidado produz amor, gentileza e bem-viver.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Coletivo Filhas da M\u00e3e seguiremos resistindo e defendendo pol\u00edticas p\u00fablicas. E seguiremos conjugando o verbo esperan\u00e7ar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro &amp; Nat\u00e1lia Duarte Bras\u00edlia &#8211; Nesta segunda-feira cinzenta e com chuva, j\u00e1 come\u00e7aram as movimenta\u00e7\u00f5es para o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es. Hoje quem escreve no Blog \u00e9 a professora e pesquisadora da UnB, Nat\u00e1lia Duarte, que faz parte da coordena\u00e7\u00e3o do Coletivo Filhas da M\u00e3e. 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