{"id":4051,"date":"2026-06-01T14:53:58","date_gmt":"2026-06-01T17:53:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=4051"},"modified":"2026-06-02T08:06:20","modified_gmt":"2026-06-02T11:06:20","slug":"o-ultimo-azul-e-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2026\/06\/01\/o-ultimo-azul-e-aqui\/","title":{"rendered":"O \u00daltimo Azul \u00e9 Aqui"},"content":{"rendered":"<p>Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; A distopia do filme\u00a0 brasileiro &#8220;O \u00daltimo Azul&#8221;, de\u00a0Gabriel Mascaro, saiu das telas e bateu na porta da realidade. Parece brincadeira, mas n\u00e3o \u00e9. Basta ver o que aconteceu no bairro da Lapa, no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, h\u00e1 poucos dias.<\/p>\n<p>No filme de 2025,\u00a0 as pessoas idosas de 75 anos eram retiradas do conv\u00edvio social e levadas compulsoriamente em uma carrocinha (similar aquelas de cachorro de antigamente) para um lugar incerto e n\u00e3o sabido. Teoricamente exilados em uma &#8220;col\u00f4nia&#8221; onde viveriam felizes para sempre separados da sociedade e das pessoas mais jovens. Sem serem vistas nem &#8220;dar trabalho&#8221;. Desta distopia, \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar uma compara\u00e7\u00e3o com a realidade lapiana.<\/p>\n<p>Para quem ainda n\u00e3o conhece o esc\u00e2ndalo do Caso Lapa, vale a pena contextualizar. No bairo Lapa, zona Oeste da capital paulista, h\u00e1 40 Institui\u00e7\u00f5es de Longa Parman\u00eancia para Pessoas Idosas (ILPIs), nome dado aos antigos asilos. Alguns vizinhos, entre eles v\u00e1rios com 50, 60 anos ou mais, solicitaram \u00e0 Prefeitura\u00a0 de S\u00e3o Paulo, e foi rapidamente acatado, a retirada das ILPIs porque elas &#8220;desvalorizam o im\u00f3vel&#8221; e incomodam a vizinhan\u00e7a com a chegada de ambul\u00e2ncias ou carros funer\u00e1rios.<\/p>\n<p>Os ve\u00edculos anunciam a fragilidade humana e concretizam a morte, algo que as pessoas t\u00eam medo e costumam negar diariamente. <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/watch\/?v=1166979136501381\">Saiba mais aqui.<\/a><\/p>\n<p>Para al\u00e9m da den\u00fancia na prefeitura, aceita pelo Prefeito Ricardo Nunes, alguns vizinhos passaram a colocar caixas de som com m\u00fasica alta voltada para as ILPIs, interrompendo a rotina das pessoas idosas, muitas delas doentes. Como se n\u00e3o bastasse,\u00a0 eles mant\u00e9m atitudes r\u00edspidas e intimidadoras em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas que visitam seus familiares, assim como contra funcion\u00e1rios que trabalham nessas institui\u00e7\u00f5es. Uma das atitudes \u00e9\u00a0 filmar as pessoas que entram e saem das ILPIs, interpelando algumas delas.<\/p>\n<p>Em resposta \u00e0 viol\u00eancia contra as pessoas idosas na capital paulista, cidade onde 17% da popula\u00e7\u00e3o tem mais de 60 anos, profissionais de diferentes \u00e1reas, pesquisadoras e pesquisadores sobre envelhecimento e movimentos sociais do Brasil se uniram para denunciar o preconceito por idade. H\u00e1 v\u00e1rias maneiras de nominar o mesmo preconceito: idadismo, etarismo, ageismo ou velhofobia.<\/p>\n<p>Mais do que um problema de desvaloriza\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel,\u00a0 o que revela esse movimento para retirar as ILPIs e as pessoas idosas, muitas delas sem familiares ou casas para onde voltar, \u00e9 o desejo de n\u00e3o olhar para a velhice (sua ou dos outros). O preconceito n\u00e3o se restringe aos vizinhos. Muitas vezes, o isolamento e o apagamento social das pessoas 60+ acontece dentro das fam\u00edlias, especialmente quando a pessoa idosa tem fragilidade f\u00edsica ou cognitiva.<\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo da Lapa revela a ponta do iceberg em um pa\u00eds com 36 milh\u00f5es de pessoas idosas (IBGE, 2026), em r\u00e1pido processo de envelhecimento, onde crescem, paralelamente,\u00a0 movimentos em defesa da eterna juventude. Entre eles, aqueles voltados para o\u00a0 &#8220;congelamento da idade&#8221;,\u00a0 como se isso fosse poss\u00edvel a medio e longo prazo. Na lista entram os procedimentos est\u00e9ticos, a amplia\u00e7\u00e3o do mercado de profissionais de sa\u00fade voltados para essa \u00e1rea, assim como a hiper utiliza\u00e7\u00e3o e multiplica\u00e7\u00e3o de academias.<\/p>\n<p>Com a redu\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias e novos formatos familiares, \u00e9 preciso aumentar o n\u00famero de ILPIs p\u00fablicas no Brasil, assim como melhorar e qualificar as existentes, entre elas as filantr\u00f3picas e privadas.<\/p>\n<p>A amplia\u00e7\u00e3o das ILPIs p\u00fablicas \u00e9 uma das a\u00e7\u00f5es priorit\u00e1rias de 2026 do Plano Nacional de Cuidados. Em um pa\u00eds com tantas desigualdades, a maioria das fam\u00edlias n\u00e3o t\u00eam or\u00e7amento para sustentar servi\u00e7os privados. E sem ILPIs p\u00fablicas, o trabalho de cuidado\u00a0 gratuito das pessoas idosas da fam\u00edlia (mais uma vez) recai sobre as mulheres.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ainda estimular outras alternativas de vida coletiva, como casas comunit\u00e1rias para pessoas 60+,\u00a0 Rep\u00fablicas sem custo, programa Minha Casa Minha Vida 60+ estimulando atividades e conviv\u00eancia entre diferentes gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assine o abaixo-assinado contra o preconceito sobre pessoas idosas. O idadismo machuca. O etarismo doi. E pode at\u00e9 matar. <a href=\"https:\/\/c.org\/qVnx9dtvBF\">Link para assinatura aqui.<\/a><\/p>\n<p>Junho, m\u00eas de conscientiza\u00e7\u00e3o sobre a viol\u00eancia contra as pessoas idosas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; A distopia do filme\u00a0 brasileiro &#8220;O \u00daltimo Azul&#8221;, de\u00a0Gabriel Mascaro, saiu das telas e bateu na porta da realidade. Parece brincadeira, mas n\u00e3o \u00e9. Basta ver o que aconteceu no bairro da Lapa, no munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, h\u00e1 poucos dias. 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