{"id":4034,"date":"2026-05-25T08:30:02","date_gmt":"2026-05-25T11:30:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=4034"},"modified":"2026-05-25T10:49:54","modified_gmt":"2026-05-25T13:49:54","slug":"o-encantamento-de-paulo-andrade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2026\/05\/25\/o-encantamento-de-paulo-andrade\/","title":{"rendered":"O Encantamento de Paulo Andrade"},"content":{"rendered":"<p>Cosette Castro &amp;\u00a0 amigos do Paulinho<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Ontem a cidade acordou com uma manh\u00e3 cinza, de chuva e\u00a0\u00a0frio.\u00a0 Foi nesse clima que chegou a not\u00edcia que Paulo Andrade,\u00a0 artista pl\u00e1stico, designer gr\u00e1fico e ilustrador j\u00e1 n\u00e3o estava mais aqui. Encantou, segundo as tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>O texto de hoje resgata um pouco do Paulinho. Ele foi escrito a v\u00e1rias m\u00e3os, entrela\u00e7ando mem\u00f3rias, afeto e diferentes d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Conheci\u00a0a obra de Paulinho Andrade muito antes dele.\u00a0\u00a0Em 2014, vi aquarelas com cenas do metr\u00f4 de Nova Iorque\u00a0\u00a0na casa do psicanalista Fausto Faria. Ele e Fausto se tornaram amigos na\u00a0 efervesc\u00eancia cultural de Bras\u00edlia nos anos 80. E foi o Paulinho que, em uma visita a sua casa ainda em Curitiba, o levou para conhecer outro Paulo, o Leminski e seus hai kais.<\/p>\n<p>Fiquei impactada com a for\u00e7a das ilustra\u00e7\u00f5es, serigrafias, aquarelas, colagens com um tom pol\u00edtico entre o sarc\u00e1stico e o mordaz. Nos conhecemos em 2023, quando ele convidou para que escrevesse um texto para o livro-caixa &#8220;Narciso&#8221;, tema cl\u00e1ssico da Psican\u00e1lise. E a\u00ed come\u00e7ou a amizade.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do Paulinho conheci o arquiteto, pintor e poeta Jos\u00e9 Leme Galv\u00e3o Jr, o Soneca, amigo de d\u00e9cadas.\u00a0\u00a0&#8220;Em 1977 Paulinho ficou amigo do Batata, que j\u00e1 era meu cunhado pelo namoro com a Gra\u00e7a. Todos os amigos dos Nobre Mendes eram de casa e o Paulinho \u00e9 irm\u00e3o natural.<br \/>\nA gente era muito lugarosa e pertencida, de vida muito encontrada nas casas, no Beirute, na u\u00eaneb\u00ea, na Escola Parque, no Galp\u00e3o.<br \/>\nMuito inventados tamb\u00e9m os momentos duradouros no Cabe\u00e7as, \u00dadi Gr\u00fadi, Liga-Tripa, os grupos de teatro&#8230; Paulinho sempre l\u00e1, at\u00e9 quando n\u00e3o tava, tava.<br \/>\nQuando o Batatinha se foi a irmandade se uniu mais. Como agora que se foram N\u00e9io e Paulinho. Se n\u00e3o, a gente se perde na estranheza das perdas.<br \/>\nSeguiram casamentos de amigos, encontros, anivers\u00e1rios nossos e de tantos se achegando, refor\u00e7ando a teia.<br \/>\nDepois, mudan\u00e7as de cidade, o c\u00e2ncer da Andrea, a viuvez e o retorno a Bras\u00edlia. Ficamos mais perto. Almo\u00e7os memor\u00e1veis em casa entre fofocas e gargalhadas.<br \/>\nA pandemia, as vacina\u00e7\u00f5es, o eix\u00e3o de m\u00e1scaras, a opera\u00e7\u00e3o urgente e recupera\u00e7\u00e3o lenta, o c\u00e2ncer da Gra\u00e7a&#8230;\u00a0 As produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas atentas, sofridas, revelando nossa humanidade.<br \/>\nO calv\u00e1rio do Paulinho recrudescia. A cirurgia da h\u00e9rnia, a recupera\u00e7\u00e3o que cobrou um pre\u00e7o alto. Na madrugada de domingo, terminou o calv\u00e1rio.&#8221;<\/p>\n<p>A jornalista mineira M\u00e1rcia Brand\u00e3o conheceu o artista nos anos 80 em Bras\u00edlia. E teve oportunidade de hosped\u00e1-lo em sua casa h\u00e1 03 anos. &#8220;Conheci o Paulinho nas priscas eras dos bares frequentados por jornalistas em Bras\u00edlia. Efervesc\u00eancia. Fui uma das compradoras da s\u00e9rie dele sobre ind\u00edgenas.\u00a0\u00a0Eu tinha o jovem Raoni. A \u00faltima vez que vi Paulinho foi em minha casa mineira, onde ele dormiu por uma noite antes de seguir viagem para a cidade onde nasceu, em Te\u00f3filo Otoni. Como sempre, uma noite de \u00f3timas conversas. Ele me presenteou com o quadro Flores de Ip\u00ea Rosa, da s\u00e9rie sobre Plantas do Cerrado. O quadro est\u00e1 na sala, marcando a presen\u00e7a dele.&#8221;<\/p>\n<p>Como amigas sugerem amigas, a\u00a0\u00a0M\u00e1rcia lembrou da Ana Costa, m\u00e9dica e amiga. &#8220;Conheci Paulinho nos anos 70 na efervesc\u00eancia cultural brasiliense do Galp\u00e3o, Galp\u00e3ozinho, Cabe\u00e7as, Grande Circular e do bar Beirute da Asa Sul que juntava todo mundo. Depois, Bom Demais. Paulinho circulava por todas as partes e era o menino risonho total. Ria boca, ria olhos azuis e, por cima, dono da gargalhada mais escandalosa do Cerrado, mantida e conservada at\u00e9 mesmo nos \u00faltimos dias de seu sofrimento imenso pela doen\u00e7a. Nosso conv\u00edvio \u00e9 um filme de lembran\u00e7as: Bras\u00edlia, Jo\u00e3o Pessoa, Nova Iorque e, de novo, Bras\u00edlia\u2026Nos \u00faltimos muitos anos convivemos mais em divertidos jogos de cartas, tardes de prosa, vinho e longos caf\u00e9s da manh\u00e3 em virtude da vizinhan\u00e7a amiga e solid\u00e1ria que compartilhamos.&#8221;<\/p>\n<p>Nos anos 90 Paulinho era pai e cultivou amigos na escola dos filhos. Ele e a esposa Andrea fizeram parte da Escola Vivendo e Aprendendo, modelo de educa\u00e7\u00e3o transformadora no Distrito Federal. Entre as amigas desse per\u00edodo est\u00e1\u00a0 a pedagoga Luciana Leite que foi se despedir no hospital. &#8220;Nossas filhas eram da mesma turma e nos aproximamos. Nossas fam\u00edlias ficaram amigas. Sempre admirei o Paulinho e a Andrea. Ele estava sempre presente. Voltamos a nos aproximar anos depois. Sempre admirei sua arte e sua vis\u00e3o pol\u00edtica&#8221;.<\/p>\n<p>Quem fecha o texto de hoje \u00e9 a jornalista e escritora Madalena Rodrigues. &#8220;Paulinho. Eu o chamo do mesmo modo carinhoso como me tratava e a todos. Transpirava arte, desenho, pintura, apertava os olhos quando ria, e a conversa flu\u00eda prazerosa, quando nos encontr\u00e1vamos na feira da Ponta Norte. A doen\u00e7a o maltratava e foi-se intensificando, perversa. At\u00e9 que, em um s\u00e1bado recente, seu abatimento flagrante, no agito da feira lhe perguntei se queria se sentar. Ele suspirou e respondeu de um jeito d\u00fabio, que s\u00f3 depois me perguntei se foi apenas um desabafo ou se seria uma despedida. Balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, cansado, e disse: &#8216;Quero ir embora&#8217;.\u201d<\/p>\n<p>Ele foi. Mas segue entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>PS: Nesta ter\u00e7a-feira, 26, tem <strong>Programa Terceiras Inten\u00e7\u00f5es<\/strong> com a jornalista M\u00f4nica Carvalho. O tema de maio \u00e9 &#8220;Quem Cuida de Quem Cuida?&#8221;. Ao vivo, \u00e0s 19h, no canal do YouTube do Coletivo Filhas da M\u00e3e.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro &amp;\u00a0 amigos do Paulinho Bras\u00edlia &#8211; Ontem a cidade acordou com uma manh\u00e3 cinza, de chuva e\u00a0\u00a0frio.\u00a0 Foi nesse clima que chegou a not\u00edcia que Paulo Andrade,\u00a0 artista pl\u00e1stico, designer gr\u00e1fico e ilustrador j\u00e1 n\u00e3o estava mais aqui. Encantou, segundo as tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. O texto de hoje resgata um pouco do Paulinho. 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