{"id":403,"date":"2021-08-23T07:00:04","date_gmt":"2021-08-23T10:00:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=403"},"modified":"2021-08-23T11:51:48","modified_gmt":"2021-08-23T14:51:48","slug":"as-primeiras-ferias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2021\/08\/23\/as-primeiras-ferias\/","title":{"rendered":"As Primeiras F\u00e9rias\u00a0"},"content":{"rendered":"<div dir=\"auto\">\n<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Hoje quem escreve \u00e9 a Cosette, contando sobre as primeiras f\u00e9rias ap\u00f3s o falecimento da sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8220;Os primeiros dias das primeiras f\u00e9rias sem minha\u00a0 m\u00e3e foram como andar\u00a0 pela metade.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha como mostrar pra ela como estava me divertindo. Como o por-do-sol\u00a0 \u00e9 bonito. Ou como as pessoas estavam mais preocupadas em fotografar do que desfrutar do ambiente.<\/p>\n<p>Dava vontade de pegar o celular e contar, mas n\u00e3o tinha como telefonar, mandar email ou mensagem pelo Whats App. Nem marcar o nome dela no Facebook.<\/p>\n<p>Mesmo que minha m\u00e3e ainda estivesse viva, ela\u00a0 n\u00e3o entenderia nada disso.\u00a0Nem de tecnologia, nem de celular,\u00a0 nem de aplicativos, nem de teclados e muito menos dos conte\u00fados.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e foi aos poucos, por isso o luto \u00e9 um luto de v\u00e1rios anos. \u00c9 dor acumulada. E foi sendo abafada porque era preciso cuidar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m estou em luto coletivo pelos conhecidos, colegas e vizinhos que n\u00e3o sobreviveram ao Covid-19. E respeito a longa lista dos an\u00f4nimos que j\u00e1 se foram.<\/p>\n<p>Se passaram sete meses e\u00a0 somente agora sinto que estou saindo da anestesia.\u00a0 Ainda assim, em alguns momentos, ela seria a\u00a0 pessoa ideal\u00a0 pra contar pequenos detalhes, pra fazer algumas\u00a0 observa\u00e7\u00f5es enquanto vejo as pessoas passarem. Passearem.<\/p>\n<p>Ela seria uma das pessoas para\u00a0 quem ligaria pra fazer brincadeiras e goza\u00e7\u00e3o. Ou para compartilhar pequenas lembran\u00e7as, de algo que passamos juntas, ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto tiro f\u00e9rias depois de tr\u00eas anos e meio e visito o mar depois de quatro anos e meio, me pego pensando como foi poss\u00edvel passar tanto tempo longe.<\/p>\n<p>Tanto tempo sem sentir o p\u00e9 enterrando na areia, o vento\u00a0 marinho batendo na cara e enredando os cabelos. A descontra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o precisar pentear. O cheiro de maresia. O sal do mar limpando as narinas.<\/p>\n<p>A descontra\u00e7\u00e3o cedeu lugar \u00e0 rotina e ao cuidado.\u00a0 O material de higiene, a alimenta\u00e7\u00e3o, as dietas de tubo. A esperan\u00e7a que voltasse a comer. O pre\u00e7o das fraldas, os rem\u00e9dios, que n\u00e3o paravam de aumentar. O dinheiro\u00a0 curto. O estado de alerta constante.<\/p>\n<p>Antes, durante quase 10 anos, eu respirava cuidado.\u00a0 Agora, depois de sete meses,\u00a0 estou respirando mar. Um pouco de chuva, muita umidade. Dias bonitos.<\/p>\n<p>Estou reaprendendo a andar sozinha, enquanto dou espa\u00e7o pro luto, essa tristeza profunda\u00a0 que, vira e mexe,\u00a0 ainda me leva a chorar.<\/p>\n<\/div>\n<div dir=\"auto\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-404 aligncenter\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2021\/08\/p\u00e9s-no-mar-e1629682166908-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"249\" height=\"332\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2021\/08\/p\u00e9s-no-mar-e1629682166908-225x300.jpg 225w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2021\/08\/p\u00e9s-no-mar-e1629682166908-768x1024.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2021\/08\/p\u00e9s-no-mar-e1629682166908-1440x1920.jpg 1440w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2021\/08\/p\u00e9s-no-mar-e1629682166908-800x1067.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2021\/08\/p\u00e9s-no-mar-e1629682166908-550x733.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-content\/uploads\/sites\/60\/2021\/08\/p\u00e9s-no-mar-e1629682166908-230x307.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 249px) 100vw, 249px\" \/><\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div dir=\"auto\">\n<p>\u00a0N\u00e3o foi por acaso que machuquei o p\u00e9 poucos dias antes de viajar. Concretizei no corpo o que sentia dentro: capenga, sentindo que faltava algo\/algu\u00e9m.<\/p>\n<p>As vezes para recome\u00e7ar, \u00e9\u00a0 preciso chorar. E comer. Dormir. Ler. Caminhar, se poss\u00edvel no mar. Coisas simples.<\/p>\n<p>Enquanto os dias de mar passam, leio o \u00faltimo livro do clube do livro TAG : <a href=\"https:\/\/24.sapo.pt\/vida\/artigos\/pre-publicacao-de-os-cem-anos-de-lenni-e-margot-celebrar-a-vida-e-virar-as-costas-a-morte\">&#8220;Os Cem Anos de Lenni e Margot&#8221;<\/a>.<\/p>\n<p>A obra,\u00a0 da escritora inglesa Marianne Cronin, conta hist\u00f3rias de amor, vida, perdas. E me ajuda nestes dias\u00a0 de mar, de\u00a0 despedidas, individual e coletiva e de recupera\u00e7\u00e3o. Nada \u00e9 por acaso&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro &nbsp; Bras\u00edlia &#8211; Hoje quem escreve \u00e9 a Cosette, contando sobre as primeiras f\u00e9rias ap\u00f3s o falecimento da sua m\u00e3e. &#8220;Os primeiros dias das primeiras f\u00e9rias sem minha\u00a0 m\u00e3e foram como andar\u00a0 pela metade. N\u00e3o tinha como mostrar pra ela como estava me divertindo. Como o por-do-sol\u00a0 \u00e9 bonito. 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