{"id":3744,"date":"2026-01-12T20:59:41","date_gmt":"2026-01-12T23:59:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=3744"},"modified":"2026-01-13T10:09:16","modified_gmt":"2026-01-13T13:09:16","slug":"a-vida-entre-pequenas-e-grandes-violencias-cotidianas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2026\/01\/12\/a-vida-entre-pequenas-e-grandes-violencias-cotidianas\/","title":{"rendered":"A Vida Entre Pequenas e Grandes Viol\u00eancias Cotidianas"},"content":{"rendered":"<p>Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia \u2013 O machismo estrutural\u00a0\u00a0naturalizado entre homens, mesmo os progressistas,\u00a0 ainda me surpreende. E entristece.<\/p>\n<p>Exemplos n\u00e3o faltam. Imagine uma sala com 96 mulheres e quatro homens. Come\u00e7o a falar no feminino.\u00a0\u00a0Um deles questiona: \u201ccomo assim uma fala no feminino?\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos mais no tempo em que as regras gramaticais eram elaboradas apenas por homens. Mas s\u00e3o essas regras, onde s\u00f3 os homens aparecem, que ainda seguem valendo.<\/p>\n<p>Elas foram escritas por homens em um tempo em que as mulheres eram proibidas de estudar, inclusive nas universidades, de fazer cursos,\u00a0 como o de Belas Artes, ou de terem vidas independentes. Sequer podiam ser juristas e participar da academia.<\/p>\n<p>As leis e as normas lingu\u00edsticas foram estabelecidas por homens. E no Brasil eles, homens brancos, seguem sendo maioria nos tribunais e nos espa\u00e7os de poder. Pode parecer natural, mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Vivemos em uma sociedade pensada por homens que seguem privilegiando os homens. Est\u00e1 mais do que na hora de subverter a l\u00edngua portuguesa para incluir as mulheres, assim como regras que s\u00f3 privilegiam um grupo social. Esta na hora das mulheres se candidatarem e serem eleitas. De propor novas leis, pois n\u00e3o somos ap\u00eandices.<\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que as mulheres est\u00e3o se candidatando e se elegendo e muitos homens est\u00e3o se somando \u00e0s mulheres e \u00e0 diversidade de g\u00eaneros para transformar nossa l\u00edngua e nossa sociedade. Inclusive muitos deles se juntaram \u00e0 chamada do Presidente Lula contra a viol\u00eancia e o feminic\u00eddio e tamb\u00e9m \u00e0 campanha de v\u00eddeo\u00a0 &#8220;Homens que Ap\u00f3iam e Defendem as Mulheres&#8221;, realizada pelo Coletivo Filhas da M\u00e3e.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XXI \u00e9 urgente falar no feminino para resgatar e homenagear as mulheres que foram caladas e apagadas antes de n\u00f3s. E para resgatar aquelas que ainda vivem sob o manto do apagamento e do medo.<\/p>\n<p>As mulheres j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais educadas exclusivamente para serem cuidadoras familiares. Nos damos as m\u00e3os, criamos redes de apoio, reivindicamos m\u00faltiplas forma\u00e7\u00f5es e outros espa\u00e7os de atua\u00e7\u00e3o, inclusive a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Entretanto, a maior parte do trabalho de cuidado segue sendo invisibilizado, feminino e n\u00e3o remunerado.\u00a0O cuidado familiar, independente de quem se cuida,\u00a0\u00a0segue sendo considerado um \u201cn\u00e3o trabalho\u201d (Castro, 2021). Apesar de consumir entre 12 e 14h do dia de quem cuida. Todos os dias.<\/p>\n<p>Ser\u00e3o necess\u00e1rias muitas campanhas p\u00fablicas para desnaturalizar essa situa\u00e7\u00e3o entre homens e tamb\u00e9m entre as mulheres. E para incentivar pedagogicamente a corresponsabilidade masculina no cuidado dom\u00e9stico e familiar.<\/p>\n<p>No Coletivo Filhas da M\u00e3e falamos e escrevemos no feminino h\u00e1 06 anos. Desde dezembro de 2019 quando criamos uma rede de apoio para acolher quem cuida. A pergunta que nos uniu foi \u201cquem cuida de quem cuida?\u201d<\/p>\n<p>O cuidado de pessoas idosas, crian\u00e7as e adolescentes, pessoas enfermas e pessoas com defici\u00eancia \u00e9 uma quest\u00e3o presente em todos os lares, sendo mais pesado para as fam\u00edlias de baixa renda. E desde dezembro de 2024 passou a ser parte da Pol\u00edtica Nacional de Cuidados. A realidade de quem cuida tamb\u00e9m \u00e9 prioridade na PNC.<\/p>\n<p>N\u00f3s, mulheres, independente da idade, cuidamos em todos os cantos e recantos do pa\u00eds. Somos mais de 90% de quem realiza cuidado dom\u00e9stico e cuida de um ou mais familiares sem remunera\u00e7\u00e3o (sem contar as vizinhas e amigas cuidadoras que sequer entram nos dados oficiais). O apagamento do trabalho de cuidado e sua gratuidade s\u00e3o formas de microviol\u00eancias cotidianas.<\/p>\n<p>Essas microviol\u00eancias cotidianas, aliadas \u00e0 viol\u00eancia dom\u00e9stica e ao risco da viol\u00eancia extrema que \u00e9 o feminic\u00eddio, fazem com que as mulheres de todas as idades sofram diariamente sobrecargas de medo e estresse.<\/p>\n<p>Para construir uma Sociedade do Cuidado h\u00e1 uma longa caminhada de aprendizado e di\u00e1logo a ser incentivado. Validar as varia\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas que tentam expressar o cuidado de g\u00eanero \u00e9 um bom come\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c9 urgente, por exemplo, regular as plataformas digitais e o seu uso para impedir, como vem ocorrendo com a IA Grok, de Elon Musk, que sejam publicadas imagens sem consentimento de mulheres e crian\u00e7as sem qualquer controle social. Essa \u00e9 uma grande viol\u00eancia contra as mulheres de todas as idades que ocorre atrav\u00e9s da edi\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o de fotos e v\u00eddeos falsificados.<\/p>\n<p>Na constru\u00e7\u00e3o de uma Sociedade do Cuidado, \u00e9 preciso desconstruir essas\u00a0\u00a0micro e grandes viol\u00eancias cotidianas, sejam elas presenciais ou online,\u00a0 estimulando desde a inf\u00e2ncia o respeito aos corpos, em especial o das mulheres.<\/p>\n<p>PS:Este texto foi originalmentre publicado em 2024 e atualizado para esta edi\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro Bras\u00edlia \u2013 O machismo estrutural\u00a0\u00a0naturalizado entre homens, mesmo os progressistas,\u00a0 ainda me surpreende. E entristece. Exemplos n\u00e3o faltam. Imagine uma sala com 96 mulheres e quatro homens. 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