{"id":3620,"date":"2025-11-14T18:27:52","date_gmt":"2025-11-14T21:27:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=3620"},"modified":"2025-11-14T20:00:51","modified_gmt":"2025-11-14T23:00:51","slug":"a-transicao-ecologica-e-ocuidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2025\/11\/14\/a-transicao-ecologica-e-ocuidado\/","title":{"rendered":"A Transi\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica e o Cuidado"},"content":{"rendered":"<p>Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia \u2013 No Brasil, as aten\u00e7\u00f5es seguem voltadas para a COP 30, a Confer\u00eancia anual da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica que est\u00e1 acontecendo em Bel\u00e9m do Par\u00e1. Mas a boa not\u00edcia de hoje chegou da Inglaterra.<\/p>\n<p>A Justi\u00e7a inglesa considerou a\u00a0 BHP, uma das acionistas da empresa Samarco, respons\u00e1vel direta pelo rompimento da barragem de Fund\u00e3o, em Mariana, cidade hist\u00f3rica de Minas Gerais. Esse \u00a0\u00e9 o maior desastre \u00a0socioambiental j\u00e1 registrado no Brasil.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria ocorre 10 anos ap\u00f3s o desastre socioambiental que poderia ter sido evitado, mas n\u00e3o foi. A decis\u00e3o condenou a mineradora anglo-australiana, algo que n\u00e3o tinha acontecido na justi\u00e7a brasileira.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o tem cerca de 620 mil autoras e autores, incluindo pessoas, comunidades, munic\u00edpios, igrejas e empresas, que reivindicam aproximadamente R$ 230 bilh\u00f5es em indeniza\u00e7\u00f5es. O valor das indeniza\u00e7\u00f5es ser\u00e1 determinado em 2026.<\/p>\n<p>No entanto, \u00a0\u00a0para o povo Krenak, que mora ao lado do Rio Doce, a indeniza\u00e7\u00e3o traz um sentimento misto: alegria e tristeza ao mesmo tempo. Segundo Irerew\u00e1 Krenak, embora a vit\u00f3ria seja importante, pois foi feita justi\u00e7a e repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, o dinheiro \u00a0n\u00e3o traz de volta o seu <em>Uat\u00fa<\/em> (rio, na l\u00edngua Itok). O Rio Doce foi contaminado pela lama da barragem e n\u00e3o pode mais ser utilizado impedindo a conviv\u00eancia di\u00e1ria do povo Krenak com seu <em>Uat\u00fa<\/em>.<\/p>\n<p>A empresa BHP foi considerada respons\u00e1vel objetiva. Isto \u00e9, vai ter que responder pelos danos ambientais e sociais causados pelo rompimento da barragem. Al\u00e9m disso, foi apontada neglig\u00eancia grave, pois a mineradora ignorou alertas t\u00e9cnicos, n\u00e3o realizou estudos essenciais e permitiu que a barragem continuasse sendo elevada mesmo diante dos vis\u00edveis sinais de risco.<\/p>\n<p>Vivemos tempos de emerg\u00eancia clim\u00e1tica e \u00e9 imposs\u00edvel pensar a sobreviv\u00eancia e a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o sem igualdade de g\u00eanero, sem o fim da viol\u00eancia contra os povos origin\u00e1rios, sem a defesa de todos os biomas e sem levar em conta o r\u00e1pido envelhecimento do Brasil, que est\u00e1 mudando o perfil da popula\u00e7\u00e3o. Nem sem projetos limpos, que saiam da l\u00f3gica poluidora do petr\u00f3leo e da minera\u00e7\u00e3o. Muito menos sem justi\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica vai al\u00e9m de um projeto t\u00e9cnico, energ\u00e9tico. Se trata de um projeto humano, como escreveu recentemente Chris Zelglia. E pensar nos humanos exige pensar em cuidado, seja ele, o espa\u00e7o dado ao autocuidado em termos de tempo, o cuidado \u00a0comunit\u00e1rio e o \u00a0cuidado coletivo que envolve toda popula\u00e7\u00e3o. E pensar tamb\u00e9m em igualdade de g\u00eanero, ra\u00e7a, territ\u00f3rio, classe social e idade.<\/p>\n<p>Isso significa trazer o cuidado como tema central da vida cotidiana, incluindo \u00a0pol\u00edticas p\u00fablicas transversais e \u00a0financiamento permanente para reparar essa constante viol\u00eancia \u00e0s mulheres. Pensar a transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e a\u00a0 justi\u00e7a clim\u00e1tica, sem pol\u00edticas de cuidado, sem o direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o como cuidado coletivo e sem metas claras tamb\u00e9m no Plano Nacional de Cuidados, \u00e9 s\u00f3 maquiar a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais do que nunca \u00e9 preciso colocar no centro do debate a sobrecarga f\u00edsica mental das mulheres cuidadoras que trabalham 7X7, sem descanso. Em casa, elas cuidam de pessoas e s\u00e3o cuidadoras dom\u00e9sticas. E, com a desigualdade social,\u00a0 muitas vezes n\u00e3o tem acesso a infraesturura urbana, como esgoto e locais livres de polui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso tirar da invisibilidade o trabalho gratuito de cuidado feito pelas mulheres e a precariedade de quem cuida profissionalmente, em especial as mulheres negras e pardas. E urge considerar o apagamento social e familiar das mulheres idosas<\/p>\n<p>Qualquer projeto de transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica que n\u00e3o leve em conta quest\u00f5es de inclus\u00e3o, igualdade de g\u00eanero, justi\u00e7a clim\u00e1tica e repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e que n\u00e3o seja solid\u00e1rio com a dor e necessidades de outros povos e comunidades, dificilmente ter\u00e1 sucesso.<\/p>\n<p>PS: Est\u00e1 dispon\u00edvel no Youtube o debate realizado nesta sexta-feira em Bel\u00e9m, na COP 30, sobre Cuidado, G\u00eanero e Clima,<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro Bras\u00edlia \u2013 No Brasil, as aten\u00e7\u00f5es seguem voltadas para a COP 30, a Confer\u00eancia anual da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica que est\u00e1 acontecendo em Bel\u00e9m do Par\u00e1. Mas a boa not\u00edcia de hoje chegou da Inglaterra. 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