{"id":361,"date":"2021-08-02T07:00:43","date_gmt":"2021-08-02T10:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=361"},"modified":"2022-06-13T16:30:52","modified_gmt":"2022-06-13T19:30:52","slug":"a-demencia-nao-e-um-problema-so-seu-ou-meu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2021\/08\/02\/a-demencia-nao-e-um-problema-so-seu-ou-meu\/","title":{"rendered":"A Dem\u00eancia N\u00e3o \u00c9 Um Problema S\u00f3 Seu Ou Meu"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<br \/>\nBras\u00edlia \u2013 As dem\u00eancias est\u00e3o diretamente relacionadas \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0 economia de cada pa\u00eds. Ainda que n\u00e3o pare\u00e7a. Por isso, neste Blog insistimos na quest\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas de cuidado e tamb\u00e9m sobre economia do cuidado.<br \/>\nMas o que significa isso?<br \/>\nSignifica deixar de tratar as dem\u00eancias como se fossem responsabilidade individual ou de cada fam\u00edlia. Essas doen\u00e7as n\u00e3o ocorrem apenas com a gente. N\u00e3o \u00e9 um problema meu, seu ou nosso. Mas de todo um pa\u00eds, cujos cidad\u00e3os merecem respeito, considera\u00e7\u00e3o. E cuidado.<br \/>\nDoen\u00e7as como as dem\u00eancias s\u00e3o diagnosticadas em pelo menos 8% da popula\u00e7\u00e3o. E devem triplicar nos pr\u00f3ximos 30 anos, segundo a Associa\u00e7\u00e3o Internacional do Alzheimer, AAIC, na sigla em ingl\u00eas.<br \/>\nEste percentual pode ser bem maior no Brasil. N\u00e3o dispomos ainda de pol\u00edticas p\u00fablicas de monitoramento dos casos existentes, como h\u00e1 na Inglaterra, Holanda e Estados Unidos. Tamb\u00e9m nos faltam pesquisas articuladas e quantidade de profissionais especializados em diagn\u00f3stico e tratamento das dem\u00eancias.<br \/>\nAo contr\u00e1rio, temos redu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria nas \u00e1reas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, pesquisa e ci\u00eancia em geral. O descaso \u00e9 t\u00e3o grande que uma das ag\u00eancias nacionais de fomento \u00e0 pesquisa, o CNPq, vem sendo desmontado desde 2019. E no final de julho, sofreu um apag\u00e3o perdendo os registros de todos os pesquisadores no pa\u00eds. Assim como dos bolsistas de pesquisa sob sua responsabilidade no Brasil e no exterior.<br \/>\nO crescimento das dem\u00eancias est\u00e1 diretamente relacionado ao envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o. No Brasil temos 37 milh\u00f5es de idosos. E ainda n\u00e3o contamos com uma pol\u00edtica nacional espec\u00edfica que atue na \u00e1rea de preven\u00e7\u00e3o, diagn\u00f3stico e tratamento para adultos e idosos. N\u00e3o por acaso, aqui no Distrito Federal nos esfor\u00e7amos para aprovar o Projeto de Lei 1265\/2020, que aguarda ser sancionada pelo governador.<br \/>\nO caso brasileiro \u00e9 diferente do Chile, que possu\u00ed pol\u00edticas p\u00fablicas de cuidado desde cedo, voltadas para a preven\u00e7\u00e3o das dem\u00eancias.<br \/>\nAo entrar no sistema de sa\u00fade para uma consulta, cada chileno em idade adulta deve fazer exames considerados b\u00e1sicos para diagnosticar dem\u00eancias, como tomografia computadorizada ou resson\u00e2ncia magn\u00e9tica. A partir da\u00ed, essa pessoa \u00e9 monitorada e acompanhada toda a vida. O que facilita diagnosticar precocemente qualquer altera\u00e7\u00e3o no c\u00e9rebro. Ou seja, no pa\u00eds vizinho o governo n\u00e3o espera as pessoas adoecerem.<br \/>\nA preven\u00e7\u00e3o das dem\u00eancias tamb\u00e9m est\u00e1 relacionada \u00e0 qualidade de vida da inf\u00e2ncia at\u00e9 a velhice, a partir dos 60 anos. E a\u00ed contam v\u00e1rios fatores. Como a educa\u00e7\u00e3o e os h\u00e1bitos alimentares e nutricionais.<br \/>\nN\u00e3o adianta encher o prato de comida sem variedade. A ci\u00eancia j\u00e1 comprovou a necessidade de incluir legumes, verduras, prote\u00ednas e frutas na alimenta\u00e7\u00e3o. E de restringir doces e refrigerantes, amplamente divulgados nos comerciais.<br \/>\nUm prato cheio de alimentos que prov\u00e9m de lavouras com pesticidas tamb\u00e9m compromete a sa\u00fade.<br \/>\nMas dispomos de pouca informa\u00e7\u00e3o oficial sobre as consequencias no organismo.<br \/>\nUm governo preocupado com seus cidad\u00e3os deveria garantir como pol\u00edtica p\u00fablica ao menos tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias a toda popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso estar bem alimentado para estudar, trabalhar e enfrentar os desafios di\u00e1rios.<br \/>\nMas em plena pandemia, temos, oficialmente, 14, 795 milh\u00f5es de brasileiros desempregados. E nenhuma proposta para sair da crise econ\u00f4mica.<br \/>\nSe contarmos com os trabalhadores desalentados \u2013 aqueles que j\u00e1 desistiram de procurar emprego por falta de vagas e oportunidade \u2013 esse n\u00famero chega a 21 milh\u00f5es de pessoas cujas fam\u00edlias n\u00e3o comem todos os dias. Em meio \u00e0 crise, \u00e9 a sociedade civil que se mobiliza para ajudar os mais fragilizados em tempos de frio e fome.<br \/>\nSem se alimentar adequadamente, essas pessoas tendem a adoecer mais, ignorando se t\u00eam hipertens\u00e3o, diabetes ou problemas card\u00edacos. Com isso, superlotam o SUS, frente a um governo que corta recursos do maior sistema de sa\u00fade gratuito do mundo.<br \/>\nEssa popula\u00e7\u00e3o que envelhece com poucas condi\u00e7\u00f5es de cuidado e autocuidado, nem sempre consegue se aposentar ap\u00f3s uma vida de trabalho prec\u00e1rio em meio \u00e0 viol\u00eancia urbana, polui\u00e7\u00e3o, em regi\u00f5es carentes de infraestrutura, utilizando transportes p\u00fablicos superlotados.<br \/>\nS\u00e3o grupos fragilizados que precisam ser levados em considera\u00e7\u00e3o nos estudos e pesquisas sobre dem\u00eancias, como bem lembrou a m\u00e9dica Amy Kind ao encerrar na semana passada a primeira sess\u00e3o plen\u00e1ria da AAIC em 2021.<br \/>\nEmbora as dem\u00eancias sejam \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d no sentido de atingirem todas as classes sociais, na hora de tratar, cuidar e sustentar os pacientes elas refor\u00e7am a desigualdade. Nem todas as fam\u00edlias possuem condi\u00e7\u00f5es de assumir custos que podem comprometer de 70 a 170% do or\u00e7amento familiar, gerando endividamento e empobrecimento.<br \/>\nFalar em economia do cuidado significa considerar a imensa desigualdade social do pa\u00eds. E a desigualdade de g\u00eanero, que ainda coloca nas costas das mulheres a responsabilidade sobre o cuidado familiar, materno, de enfermos e idosos.<br \/>\nTrabalho invis\u00edvel, sem remunera\u00e7\u00e3o, realizado diariamente por 52 por cento da popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQue nenhum governo pode mais ignorar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia \u2013 As dem\u00eancias est\u00e3o diretamente relacionadas \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0 economia de cada pa\u00eds. Ainda que n\u00e3o pare\u00e7a. Por isso, neste Blog insistimos na quest\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas de cuidado e tamb\u00e9m sobre economia do cuidado. 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