{"id":3554,"date":"2025-10-17T10:37:19","date_gmt":"2025-10-17T13:37:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=3554"},"modified":"2026-06-03T00:26:47","modified_gmt":"2026-06-03T03:26:47","slug":"as-mulheres-e-o-mundo-7x0","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2025\/10\/17\/as-mulheres-e-o-mundo-7x0\/","title":{"rendered":"As Mulheres e o Mundo 7&#215;0"},"content":{"rendered":"<p>Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Esta semana estive na Faculdade de Ci\u00eancias da Sa\u00fade da UnB para falar sobre &#8220;Quem Cuida de Quem Cuida?&#8221; no curso de forma\u00e7\u00e3o de cuidadoras e cuidadores. Das 64 pessoas inscritas, h\u00e1 dois homens.<\/p>\n<p>&#8220;Quem Cuida de Quem Cuida?&#8221; \u00e9 a pergunta que gerou h\u00e1 quase seis anos o Coletivo Filhas da M\u00e3e. Somos um movimento social que apoia cuidadoras fam\u00edliares de pessoas com dem\u00eancias e estimula o envelhecimento saud\u00e1vel, ativo e participativo.<\/p>\n<p>As mulheres s\u00e3o a m\u00e3o de obra gratuita que move e sustenta o Brasil, como lembram os movimentos de mulheres e os dados comprovam.<\/p>\n<p>Elas tamb\u00e9m sustentam financeira, f\u00edsica e emocionalmente as fam\u00edlias. 49,3% das mulheres s\u00e3o chefes de fam\u00edlia no pa\u00eds. E esse percentual cresce entre mulheres idosas que sustentam a fam\u00edlia, inclusive netos, pessoas doentes e at\u00e9 bisnetos.<\/p>\n<p>No que diz respeito ao cuidado n\u00e3o remunerado, segundo a Secretaria Nacional de Cuidados (2024), 86% \u00e9 realizado por mulheres de todas as idades, inclusive com 60 anos ou mais. N\u00e3o paramos de cuidar a vida inteira, inclusive quando fazemos voluntariado, outra for\u00e7a invis\u00edvel e gratuita no Brasil.<\/p>\n<p>Quanto mais fragilidade social, mais cedo elas come\u00e7am a cuidar da casa e de familiares. L\u00e1 pelos 09, 10 anos as meninas j\u00e1 est\u00e3o &#8220;ajudando&#8221; a cuidar dos irm\u00e3os mais novos, fazendo comida e limpando a casa.<\/p>\n<p>Esse ciclo de sobrecarga e viol\u00eancia estrutural inclui uma omiss\u00e3o hist\u00f3rica do Estado. Faltam creches, centros de conviv\u00eancia intergeracionais, centros dia, projetos para pessoas com defici\u00eancia e institui\u00e7\u00f5es de Longa perman\u00eancia para Pessoas Idosas (ILPIS) p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Sem institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de apoio, mais cedo meninas e adolescentes das periferias, das zonas rurais, quilombolas, ribeirinhas e de cidades distantes s\u00e3o obrigadas a abandonar ou postergar os estudos, sonhos e projetos.<\/p>\n<p>Mesmo com forma\u00e7\u00e3o, elas chegam ao mercado de trabalho ganhando menos. Menos ainda se forem mulheres negras ou pardas. Ainda assim, sustentam o pa\u00eds e formam redes de apoio a outras mulheres que vivem em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria.<\/p>\n<p>Se o trabalho de cuidado de pessoas da fam\u00edlia e o cuidado dom\u00e9stico fosse remunerado com 01 sal\u00e1rio m\u00ednimo, ele representaria 13% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.\u00a0De acordo com estudo da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (2023), isso significa algo em torno de 273 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Mas segue sendo trabalho gratuito e invis\u00edvel realizado por mulheres.<\/p>\n<p>Mulheres que cuidam fam\u00edliares com d\u00eamencias, na maioria dos casos precisam parar de trabalhar e\/ou estudar ou reduzir as horas de trabalho remunerado. Isso pode durar at\u00e9 25 anos. Mulheres que cuidam fam\u00edliares com defici\u00eancia, com a longevidade, podem cuidar por 50 anos. Meio s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Elas cuidam sem remunera\u00e7\u00e3o e sem direito \u00e0 aposentadoria, embora os anos desse trabalho sem remunera\u00e7\u00e3o sobrecarregue f\u00edsica e mentalmente e adoe\u00e7a as mulheres.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 invis\u00edvel o trabalho das cuidadoras profissionais, seja de pessoas (crian\u00e7as, pessoas doentes ou com defici\u00eancia, pessoas idosas), seja o cuidado dom\u00e9stico. S\u00e3o cerca de 6 milh\u00f5es de mulheres, a maioria negras ou pardas, que trabalham de forma precarizada.<\/p>\n<p>Conforme dados do Observat\u00f3rio das Mulheres (2025), 77% das mulheres realizam o trabalho de cuidado dom\u00e9stico remunerado no pa\u00eds sem carteira assinada e sem direitos sociais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, elas trabalham em escala 7&#215;0, todos os dias da semana, sem descanso. Diferente dos homens, que reivindicam fim da escala 6&#215;1, elas n\u00e3o t\u00eam um dia para descansar. O domingo \u00e9 dia de limpar a casa, lavar roupa, dar aten\u00e7\u00e3o para fam\u00edlia e preparar comida para a semana. E na segunda, come\u00e7ar tudo outra vez.<\/p>\n<p>Em meio a essa realidade, movimentos sociais de todo o pa\u00eds, entre eles o Coletivo Filhas da M\u00e3e, participaram desde 2023 da constru\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2023-2026\/2024\/lei\/L15069.htm\">Pol\u00edtica Nacional de Cuidados<\/a> (PNaC), Lei .15069, de dezembro de 2024.\u00a0Trata-se de uma Lei in\u00e9dita que contou com a mobiliza\u00e7\u00e3o e o trabalho transversal de 20 minist\u00e9rios.<\/p>\n<p>A PNaC reconhece o cuidado sem remunera\u00e7\u00e3o como trabalho e cor-responsabiliza os homens dentro das fam\u00edlias para uma justa divis\u00e3o do cuidado familiar ou do cuidado dom\u00e9stico. E corresponsabiliza a sociedade, as empresas e o Estado na constru\u00e7\u00e3o de uma Sociedade do Cuidado.<\/p>\n<p>Enquanto isso estamos esperando a implementa\u00e7\u00e3o do Plano Nacional de Cuidados que deveria ter sido apresentado \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em setembro. Que chegue com metas claras e or\u00e7amento e financiamento suficiente para tirar o Brasil da Sociedade da Viol\u00eancia em que vivemos.<\/p>\n<p>PS:\u00a0 Dias 16 e 17 Celinha Neves e eu estamos participando do I Semin\u00e1rio Internacional de Pol\u00edticas P\u00fablicas em Dem\u00eancia na Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana de Sa\u00fade (OPAS) realizado pela ABRAZ. O Semin\u00e1rio traz uma proposta de Plano Nacional de Dem\u00eancias que contou com contribui\u00e7\u00f5es do Coletivo\u00a0Filhas\u00a0da\u00a0M\u00e3e. J\u00e1 Nat\u00e1lia Duarte coordenou a 2a. Oficina de Escrita Criativa de 2025 em parceria com a Biblioteca Demonstrativa de Bras\u00edlia (BDB).<\/p>\n<p>PS: Neste domingo, dia 19, tem a 3a. Trilha Urbana <strong>&#8220;Os Caminhos de Athos Bulc\u00e3o na Asa Sul&#8221;<\/strong>, que ser\u00e1 conduzida pelo jornalista Vitor Borisow. A trilha aberta tem parceria com o Grupo Caminhadas de Bras\u00edlia. Encontro \u00e0s 8h30 em frente ao Sesi Lab (localizado ao lado da Biblioteca Nacional). <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/reel\/DP3fymAAJDd\/?igsh=OXhmZWVhN3ZhN3Rx\">Saiba mais aqui\u00a0<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; Esta semana estive na Faculdade de Ci\u00eancias da Sa\u00fade da UnB para falar sobre &#8220;Quem Cuida de Quem Cuida?&#8221; no curso de forma\u00e7\u00e3o de cuidadoras e cuidadores. 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