{"id":3395,"date":"2025-08-15T10:05:19","date_gmt":"2025-08-15T13:05:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=3395"},"modified":"2025-08-15T11:38:45","modified_gmt":"2025-08-15T14:38:45","slug":"para-todas-as-marias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2025\/08\/15\/para-todas-as-marias\/","title":{"rendered":"Para Todas as Marias"},"content":{"rendered":"<p>Cosette Castro &amp; Maria M.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Enquanto pensamos em pol\u00edticas p\u00fablicas para o envelhecimento saud\u00e1vel e ativo, em pol\u00edticas de cuidado para todas as idades e em diferentes formas de estimular a sa\u00fade f\u00edsica e mental de quem cuida um familiar enfermo, a realidade crua e dura bate na porta.<\/p>\n<p>Eu atendo, escuto, acolho. E, quando poss\u00edvel, compartilho no Blog.<\/p>\n<p>O relato de hoje \u00e9 de uma cuidadora 24 horas. \u00c9 m\u00e3e solo, professora da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, que h\u00e1 nove dias (sim, nove dias) enfrenta a falta de \u00e1gua em seu bairro na periferia de uma cidade tur\u00edstica do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Maria foi o nome fict\u00edcio dado para proteg\u00ea-la de qualquer risco. Mas essa jovem mulher de 38 anos poderia ter o nome de todas n\u00f3s. Ela representa todas as Marias invis\u00edveis do Brasil.<\/p>\n<p>Ela mora na \u00e1rea rural de um bairro perif\u00e9rico em Angra dos Reis (RJ). No interior do interior. Maria, a primeira pessoa a se formar na universidade em sua fam\u00edlia, vive longe da regi\u00e3o tur\u00edstica, do centro hist\u00f3rico charmoso e das badaladas praias que costumamos ver pela televis\u00e3o. Ou visitar.<\/p>\n<p>At\u00e9 poucos dias antes da crise da \u00e1gua, ela tamb\u00e9m cuidava dos pais idosos em sua casa depois que a m\u00e3e ficou doente e foi hospitalizada. Com a crise da \u00e1gua, os pais voltaram para casa, em outra cidade. Sem a filha \u00fanica cuidadora.<\/p>\n<p>Com a palavra, Maria que sonha em fazer o Enem dos Concursos, \u00e9 poetisa e contista. Ela escreve nos \u00f4nibus e quando d\u00e1.<\/p>\n<p>Maria &#8211; &#8220;Oito dias. Fim da necessidade b\u00e1sica.<\/p>\n<p>S\u00e3o seis horas da manh\u00e3. Os olhos despertam junto ao desespero.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio ecoa dentro da caixa-d\u2019\u00e1gua suspensa no sobrado da comunidade perif\u00e9rica da cidade dos Reis. Ela sempre foi dos Reis. E eu, sem coroa, sem trono, estou na d\u00favida se sou s\u00fadita ou boba da corte.<\/p>\n<p>S\u00f3 tenho uma certeza: s\u00e3o seis horas e uma jornada de dez horas me espera.<\/p>\n<p>Estou a caminho. Mochila, marmita, cart\u00e3o cidad\u00e3o, pronta-entrega de calcinhas, entrega de cosm\u00e9ticos. Sem higiene b\u00e1sica. Foi assim entrei no \u00f4nibus com minha <em>legging, all star<\/em>, casaco suficiente para o frio \u00famido do Rio de Janeiro: uma mistura de professora com sacoleira.<\/p>\n<p>Bati meu ponto, dei bom dia para as merendeiras (elas s\u00e3o as primeiras a chegar na creche). Mergulhei de cabe\u00e7a no trabalho, nas brincadeiras, nas fofocas e desabafos com as colegas. Eu n\u00e3o queria pensar na falta d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>Mas minha amiga, que tem carro, chegou com meu saco de roupas sujas na m\u00e3o e disse: &#8216;Trouxe suas roupas pra voc\u00ea lavar aqui no trabalho&#8217;. P.q.P! Que humilha\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>(Olhamos uma pra outra e ca\u00edmos na gargalhada.)<\/p>\n<p>\u00c9 o que mais tenho feito nos \u00faltimos dias: ando rindo dos meus pr\u00f3prios problemas, fazendo piada com o caos, anestesiando a dor com brincadeira.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia de uma professora, m\u00e3e solo, perif\u00e9rica, moradora de uma comunidade abandonada pelo poder p\u00fablico, que h\u00e1 mais de uma semana n\u00e3o apresenta solu\u00e7\u00e3o para o fornecimento do essencial: \u00c1GUA.<\/p>\n<p>Estou impossibilitada de fazer comida, lavar lou\u00e7a, tomar banho, escovar os dentes, lavar roupas, limpar a casa. Impossibilitada de dar descarga nos meus dejetos. Eu mesma me sinto um dejeto dessa cidade. Depositada no esgoto do descaso.<\/p>\n<p>O que fazer? Fugir! Sim, eu planejo fugir: da cidade e da realidade, do jeito que for poss\u00edvel. Pego filho, mochilas, 60 km de estrada em um \u00f4nibus e volto para a casa dos meus pais.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e est\u00e1 doente. Eu que estava cuidando dela. Hoje sou acolhida com feij\u00e3o fresco, vaca atolada e dois abra\u00e7os com cheiro de cigarro.<\/p>\n<p>Aqui tem \u00e1gua. Aqui tem dignidade. Aqui tenho lar.<\/p>\n<p>Por um fim de semana eu finjo que sou digna, enquanto rezo para que esse caos acabe antes que acabe comigo.<\/p>\n<p>At\u00e9 que a segunda-feira venha me exigindo novas estrat\u00e9gias de guerra.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o quero mais ser guerreira. S\u00f3 quero um pouco de paz, dignidade e \u00e1gua&#8221;.<\/p>\n<p>PS: Esse domingo estaremos caminhando no Parque das Gar\u00e7as, situado no final do Lago Norte. \u00c9 uma caminhada leve junto a orla do Lago. Encontro 8h45. Sa\u00edda; 9h, na entrada do Parque. Lembre de levar algo para o lanche compartilhado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro &amp; Maria M. 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