{"id":294,"date":"2021-06-25T07:00:50","date_gmt":"2021-06-25T10:00:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=294"},"modified":"2021-06-25T07:24:29","modified_gmt":"2021-06-25T10:24:29","slug":"por-que-falamos-cuidadoras-no-feminino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2021\/06\/25\/por-que-falamos-cuidadoras-no-feminino\/","title":{"rendered":"Por Que Falamos Cuidadoras,  no Feminino?"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Outro dia recebemos o questionamento de um cuidador familiar\u00a0 preocupado porque falamos apenas no feminino e nos referimos \u00e0s cuidadoras.<\/p>\n<p>Depois de 41 publica\u00e7\u00f5es e do aumento de leitoras e leitores para uma m\u00e9dia\u00a0 de mil pessoas, acreditamos que \u00e9 preciso lembrar porque escrevemos no feminino, enquanto o\u00a0 restante do Brasil\u00a0 escreve no masculino.<\/p>\n<p>Escrevemos no feminino para chamar aten\u00e7\u00e3o sobre a atividade de cuidado no Brasil. Segundo o IBGE, \u00e9 uma atividade essencialmente desempenhada por mulheres. 96% dos casos. Como se fosse pouco, desse percentual, 82% s\u00e3o mulheres cuidadoras familiares, que trabalham de forma invis\u00edvel e sem remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Algumas pessoas poderiam pensar que faz parte de um \u201cdom\u201d, que nascemos para cuidar. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Como comentamos no texto <a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2021\/03\/08\/nascemos-para-cuidar\/\">Nascemos Para Cuidar?<\/a>, fomos historicamente educadas para cuidar, desde um tempo em que mulheres eram proibidas de ir \u00e0 escola, de sentar em bancos universit\u00e1rios ou mesmo trabalhar. Eram obrigadas a ficar em casa, relegadas ao mundo dom\u00e9stico, cuidando dos filhos e parentes, com poucas possibilidades de educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 a d\u00e9cada de 60 do s\u00e9culo\u00a0 XX, ou seja, 60 anos atr\u00e1s, as mulheres precisavam de autoriza\u00e7\u00e3o do marido ou do pai para estudar e trabalhar. Precisavam de autoriza\u00e7\u00e3o para viajar (para ir e tamb\u00e9m para voltar). Com isso,\u00a0 a possibilidade de conhecer o mundo e se sustentar dependia da boa vontade masculina.<\/p>\n<p>O mundo p\u00fablico estava e ainda \u00e9 reservado aos homens. E era um esc\u00e2ndalo cada vez que as mulheres tentavam romper essa bolha masculina.\u00a0 Ainda hoje,\u00a0 atuando no mercado e com a mesma forma\u00e7\u00e3o, as mulheres brancas ganham 20 a 30% menos que os homens. Entre as mulheres negras, essa diferen\u00e7a chega a 42%.<\/p>\n<p>Os livros de ci\u00eancia ou fic\u00e7\u00e3o e a academia eram espa\u00e7os masculinos. Homens escreviam para homens e falavam sobre homens e sobre as mulheres. Foram eles que tornaram a palavra homem universal como forma de identificar o ser humano. E, mais uma vez, as mulheres se tornaram um ap\u00eandice do homem.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que at\u00e9 hoje, 2021, muitas mulheres escrevam <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-43592400\">obras de fic\u00e7\u00e3o<\/a> com pseud\u00f4nimos masculinos. Os\u00a0 originais \u2013 avaliados majoritariamente por editores homens \u2013 t\u00eam mais chance de rejei\u00e7\u00e3o quando assinados por mulheres.<\/p>\n<p>O caso conhecido mais recente foi o da escritora J. K .Rowlling, autora de Harry Potter, com mais de 500 milh\u00f5es de c\u00f3pias vendidas. Ela, que \u00e9 a autora de um dos 15 livros de fic\u00e7\u00e3o mais vendidos do mundo, s\u00f3 conseguiu ser publicada com seu nome escondido, abreviado.<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 apenas 4% de homens cuidadores no Brasil.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 uma mera coincid\u00eancia. Eles n\u00e3o foram educados para o cuidado. N\u00e3o foram educados para cuidar de uma casa, para cozinhar ou cuidar de familiares idosos ou doentes. Foram educados a receber. A serem cuidados.<\/p>\n<p>Os pais, com o aval das m\u00e3es, desdenhavam &#8211; e muitas vezes ainda desdenham \u2013 de meninos, adolescentes e homens que demonstram interesse em cuidar. Como se atividades dom\u00e9sticas relacionadas ao feminino fossem algo feio. Como se eles corressem o risco de se \u201cafeminar\u201d, por aprender a sobreviver, a cuidar de si e a cuidar dos outros desde cedo.<\/p>\n<p>Um bom exemplo de como o preconceito pode vir inclusive de mulheres \u00e9 o relato do psic\u00f3logo\u00a0<a href=\"https:\/\/fb.watch\/6kNJy9bPza\/\">Bruno Camargo<\/a>, cuidador familiar, ao site ter.a.pia. Bruno contou que algumas mulheres quando viam ele cuidando da m\u00e3e perguntavam se ele n\u00e3o\u00a0 estava cansado e se n\u00e3o havia nenhuma mulher para ajud\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Se Bruno fosse Bruna, a maior parte das pessoas pensariam que \u00e9 \u201cnormal\u201d e at\u00e9 obriga\u00e7\u00e3o cuidar. Essas mesmas pessoas ainda se surpreendem ao verem homens cuidando.<\/p>\n<p>Precisamos, sim, de mais homens cuidando. E sem terceirizar o cuidado para esposa e filhas.<\/p>\n<p>E precisamos de mais pais, m\u00e3es, av\u00f4s e av\u00f3s estimulando os meninos ao cuidado. Meninos que brincam de bonecas e de casinha n\u00e3o v\u00e3o se tornar homossexuais. V\u00e3o aprender desde cedo a cuidarem de beb\u00eas e a serem bons pais. A cuidar da casa\u00a0 e da alimenta\u00e7\u00e3o sem considerar isso uma ajuda, um favor. E, principalmente,\u00a0 v\u00e3o aprender a serem solid\u00e1rios com suas companheiras e demais familiares.<\/p>\n<p>Enquanto isso n\u00e3o acontece, convidamos os filhos cuidadores a participarem desta ampla campanha de reconhecimento do trabalho invis\u00edvel e sem remunera\u00e7\u00e3o das mulheres cuidadoras familiares. E a aceitarem amorosamente, pela primeira vez na vida, a serem inclu\u00eddos\u00a0 no feminino. Uma singela homenagem a aquela que lhe deu a vida.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; Outro dia recebemos o questionamento de um cuidador familiar\u00a0 preocupado porque falamos apenas no feminino e nos referimos \u00e0s cuidadoras. 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