{"id":2672,"date":"2024-10-18T10:55:30","date_gmt":"2024-10-18T13:55:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=2672"},"modified":"2024-10-18T14:21:51","modified_gmt":"2024-10-18T17:21:51","slug":"sobre-gente-entre-enchentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2024\/10\/18\/sobre-gente-entre-enchentes\/","title":{"rendered":"Sobre Gente Entre\u00a0 Enchentes"},"content":{"rendered":"<p>Cosette Castro &amp; Daniela Stein<\/p>\n<p>Bras\u00edlia \u2013 H\u00e1 seis meses, no final de abril, as institui\u00e7\u00f5es que trabalham com clima anunciaram o risco de enchentes no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Os alertas n\u00e3o foram suficientes para que a Prefeitura de Porto Alegre e o governo do Estado tomassem medidas a tempo para proteger a popula\u00e7\u00e3o. Sequer a Defesa Civil foi organizada e acionada a tempo.<\/p>\n<p>Em maio, o Brasil assistiu estarrecido a maior enchente do Estado, considerada um dos piores desastres clim\u00e1ticos do pa\u00eds. As enchentes atingiram mais de 2, 4 milh\u00f5es de pessoas, quase 500 mil precisaram deixar suas casas e houve 183 mortes.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias de curto, m\u00e9dio e longo prazo para toda popula\u00e7\u00e3o seguem presentes e se manifestam de forma f\u00edsica e emocional. A cada chuva e temporal, volta o medo. Um medo que se tornou coletivo.<\/p>\n<p>Nesta edi\u00e7\u00e3o convidamos Daniela Stein, geront\u00f3loga e educadora f\u00edsica ga\u00facha para dar seu depoimento sobre o tema.<\/p>\n<p>Daniela Stein \u2013 \u201cFui convidada para escrever sobre a enchente hist\u00f3rica que abateu o Rio Grande do Sul h\u00e1 quase seis meses. Fiquei dias pensando sobre o tema e voltei no tempo.<\/p>\n<p>H\u00e1 10 anos, em 2014, tivemos na grande Porto Alegre, cidades extremamente afetadas e inundadas em v\u00e1rios pontos, entre elas Canoas, Novo Hamburgo, Alvorada e toda ilha dos Marinheiros e da Pintada.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, observando a realidade e o desamparo das pessoas, meu marido e eu montamos um mutir\u00e3o. Com outros parceiros, organizamos a log\u00edstica e durante dois meses fomos, de carro, ajudar quem tinha perdido tudo. Foi uma aventura solid\u00e1ria, mas n\u00e3o pod\u00edamos ficar parados, olhando a situa\u00e7\u00e3o de pessoas que, sem condi\u00e7\u00f5es, abandonavam suas casas. Elas conseguiam sair s\u00f3 de barco, quando havia. E nem sempre a ajuda chegava em suas casas.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia sempre d\u00e1 sinais. Sempre. O descaso oficial, as perdas, o desespero das pessoas j\u00e1 eram uma previa anunciada do que aconteceria em 2016 e, infelizmente, da cat\u00e1strofe que o Brasil todo assistiu em 2024.<\/p>\n<p>Com as medidas para desastres naturais deixadas de lado, foram as pessoas an\u00f4nimas, atrav\u00e9s de personagens como Scooby, Guegos e Pablos, que reagiram rapidamente. Foram elas e eles, e tamb\u00e9m os movimentos sociais, que fizeram o que deveria ser feito (e n\u00e3o foi) pela popula\u00e7\u00e3o que mais precisava. Fomos n\u00f3s, popula\u00e7\u00e3o, que solidariamente buscamos agir e solucionar rapidamente.<\/p>\n<p>Precisamos falar e escrever sobre uma sociedade que necessita acordar enquanto civiliza\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel pela prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente, o mesmo que tamb\u00e9m nos protege.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos normalizar as cat\u00e1strofes e assistir de casa como se fosse um <em>reality show<\/em>. \u00c9 dram\u00e1tico. N\u00e3o \u00e9 o Show da Vida.<\/p>\n<p>O que assistimos foram vidas que perderam tudo sendo violentadas mais uma vez, agora pela aus\u00eancia de agilidade, de a\u00e7\u00f5es que se perdiam pela burocracia. Vimos a popula\u00e7\u00e3o que foi afetada, de A a Z, massacrada durante e ap\u00f3s as enchentes.<\/p>\n<p>Nossas reservas, em toda a sua condi\u00e7\u00e3o, foram testadas em limites nunca vividos. Essas reservas incluem quest\u00f5es pessoais, f\u00edsicas, emocionais, financeiras. E tamb\u00e9m coletiva, sobre os limites do que pod\u00edamos fazer.<\/p>\n<p>Quanto mais vai ser preciso para reverter a trag\u00e9dia anunciada e transformar as enchentes em s\u00edmbolo de gente que n\u00e3o aceita inundar sua dignidade para ter direitos de verdade?<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia poderia ser evitada? Sim. E a maioria dos especialistas tamb\u00e9m dizem que sim.<\/p>\n<p>Em n\u00edvel pessoal e coletivo ainda sofremos as consequ\u00eancias. \u00a0E nem estou me referindo ao meio ambiente ou \u00e0s quest\u00f5es econ\u00f4micas.\u00a0 Me refiro \u00e0s pessoas. O estresse e as perdas s\u00e3o intang\u00edveis.<\/p>\n<p>\u00c9 constrangedor ver a dor da nossa gente e sentir impot\u00eancia, sabendo que ainda h\u00e1 muito a ser feito e saber as consequ\u00eancias das enchentes que ser\u00e3o sentidas a m\u00e9dio prazo.<\/p>\n<p>Mas sigo resiliente e acredito em nossa brava gente. Avante\u00a0RS&#8230; Avante.\u201d<\/p>\n<p>No Coletivo Filhas da M\u00e3e ouvimos relatos, acompanhamos as informa\u00e7\u00f5es da m\u00eddia e dos <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/639913-chuvas-extremas-no-rs-falta-de-planejamento-agrava-tragedia\">especialistas<\/a>. Eles apontam que a tragedia ambiental poderia ter sido evitada. N\u00e3o foi e as consequ\u00eancias s\u00e3o vis\u00edveis.<\/p>\n<p>A cada chuva forte\u00a0 em Porto Alegre v\u00e1rios bairros ainda ficam alagados. J\u00e1 as demais cidades\u00a0 ga\u00fachas est\u00e3o se recuperando aos poucos com a ajuda de\u00a0<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2024-09\/governo-federal-destinou-r-987-bi-para-apoiar-rio-grande-do-sul\">98,7 bilh\u00f5es<\/a> a a\u00e7\u00f5es emergenciais e recursos para reconstru\u00e7\u00e3o de infraestrutura e de apoio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e empres\u00e1rios enviadas pelo governo Lula.<\/p>\n<p>No n\u00edvel individual, no entanto, \u00e9 preciso refor\u00e7ar a sa\u00fade mental da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso cuidado coletivo. Muitas pessoas seguem precisando de acolhimento, pois apresentam sinais de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico. Tem gente que n\u00e3o dorme depois de ouvir barulho de sirene, de helic\u00f3ptero. Tem quem ainda tenha crises de choro. Outras pessoas, independente da idade, come\u00e7am a tremer com barulho de trov\u00f5es ou amea\u00e7a de chuva. At\u00e9 quando?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro &amp; Daniela Stein Bras\u00edlia \u2013 H\u00e1 seis meses, no final de abril, as institui\u00e7\u00f5es que trabalham com clima anunciaram o risco de enchentes no Rio Grande do Sul. Os alertas n\u00e3o foram suficientes para que a Prefeitura de Porto Alegre e o governo do Estado tomassem medidas a tempo para proteger a popula\u00e7\u00e3o. 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