{"id":2548,"date":"2024-08-26T11:00:56","date_gmt":"2024-08-26T14:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=2548"},"modified":"2024-10-02T10:35:24","modified_gmt":"2024-10-02T13:35:24","slug":"o-urbanismo-sustentavel-e-a-sociedade-do-cuidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2024\/08\/26\/o-urbanismo-sustentavel-e-a-sociedade-do-cuidado\/","title":{"rendered":"O Urbanismo Sustent\u00e1vel e a Sociedade do Cuidado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\">Cosette Castro &amp; Jos\u00e9 Leme Galv\u00e3o Jr.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia \u2013 Temos escrito que no Brasil vivemos em uma Sociedade da Viol\u00eancia, desigual e insegura para a maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa viol\u00eancia atinge mais do que corpos. Ela se expande para os tipos de cidades que vivemos. A maioria dos gestores n\u00e3o leva em conta a inclus\u00e3o dos diferentes grupos sociais nem suas necessidades ao longo da vida. Tampouco levam em conta a mem\u00f3ria e a preserva\u00e7\u00e3o cultural e natural.<\/p>\n<p>Nesta edi\u00e7\u00e3o, convidamos o arquiteto aposentado do \u00a0Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan), Jos\u00e9 Leme Galv\u00e3o Jr, mais conhecido como Soneca, para refletir sobre a Sociedade do Cuidado e\u00a0 sua rela\u00e7\u00e3o com o urbanismo sustent\u00e1vel .<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Leme Galv\u00e3o Jr. \u2013 \u201cTenho refletido sobre a express\u00e3o Sociedade do Cuidado nesses tempos \u201cbicudos\u201d, mote antigo que expressa a parte dif\u00edcil da vida social.<\/p>\n<p>Associo cuidar a preservar e tenho por certo que preservar \u00e9 n\u00e3o desperdi\u00e7ar nem fazer dano. Se as sociedades humanas incorporassem mais efetivamente esse crit\u00e9rio seria tudo menos complicado.<\/p>\n<p>Procuramos, naturalmente, a longevidade. Se o ambiente f\u00edsico e social que nos envolve n\u00e3o for minimamente acess\u00edvel, saud\u00e1vel, acolhedor \u2013 e n\u00e3o tem sido para a maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira \u2013 ficam severamente reduzidas nossas possibilidades de viver mais e bem.<\/p>\n<p>Aprendemos que as sociedades se agrupam desde os conjuntos maiores at\u00e9 os n\u00facleos familiares, entretanto \u00e9 importante saber que cada um de n\u00f3s j\u00e1 \u00e9 uma sociedade e precisamos tamb\u00e9m ser acess\u00edveis, saud\u00e1veis e acolhedores.<\/p>\n<p>Parto do princ\u00edpio que o corpo \u00e9 o nosso primeiro territ\u00f3rio. \u00a0Somos nosso pr\u00f3prio patrim\u00f4nio cultural a ser preservado, em nossa din\u00e2mica de permanente conserva\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o. Somos especialistas em n\u00f3s e do nosso ambiente social, nosso primeiro lugar de coabita\u00e7\u00e3o e cuidados permanentes.<\/p>\n<p>Se preservar \u00e9 n\u00e3o desperdi\u00e7ar, sejamos os primeiros a cuidar, sendo rigorosos mas sensitivos. Pretender cuidar j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil, mais ainda \u00e9 a realidade do dia-a-dia em uma sociedade t\u00e3o desigual.<\/p>\n<p>Ampliando mais, podemos afirmar que os patrim\u00f4nios Cultural e Natural, s\u00e3o referenciais do Direito \u00e0 Mem\u00f3ria, pois nos asseguram uma vida social plena de significados e organiza\u00e7\u00f5es que nos faz um povo nacional. Os princ\u00edpios do cuidado transitam desde os indiv\u00edduos at\u00e9 as comunidades, onde o Estado \u00e9 (ou deveria ser)co-respons\u00e1vel pelo cuidado.<\/p>\n<p>E aqui aproveito para tratar do Conjunto Urban\u00edstico de Bras\u00edlia (CUB). Temos o direito \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria cultural atrav\u00e9s da m\u00e1xima conserva\u00e7\u00e3o de todos os espa\u00e7os de viv\u00eancia em nosso \u201cquadradinho\u201d, em particular os do CUB.<\/p>\n<p>Uma Sociedade do Cuidado n\u00e3o pode prescindir de cuidar do seu ambiente \u2013 natural e cultural.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia \u00e9 uma cidade-parque, constru\u00edda sobre o cerrado e sob um magn\u00edfico c\u00e9u azul.<\/p>\n<p>O Plano Piloto e muitas outras \u00e1reas urbanas do Distrito Federal cont\u00e9m mais \u00e1reas verdes ou livres que quaisquer outras cidades. Essa qualidade deveria ser preservada e servir de modelo para a vida urbana vindoura. \u00danica, e isso \u00e9 de se lamentar, pois indica serem pouco aproveitadas suas li\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tenho sido um cr\u00edtico incisivo do suposto Plano de Preserva\u00e7\u00e3o do CUB, entre muitas raz\u00f5es porque resultou numa norma perversa para a gest\u00e3o urbana. Ao inv\u00e9s de dispor sobre o que se deve ou n\u00e3o preservar, trata quase exclusivamente do que se pode ou n\u00e3o construir.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso mover investimentos e governos em outra dire\u00e7\u00e3o e parar o insano desenvolvimento de rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de alto custo e parcos benef\u00edcios sociais.<\/p>\n<p>Me impressiona o desprezo dos defensores do crescimento irrespons\u00e1vel, quando deveriam defender o futuro sustent\u00e1vel por meio da defesa intransigente do patrim\u00f4nio p\u00fablico, natural e cultural. Com frequ\u00eancia disp\u00f5e-se de \u00e1reas verdes como reles \u201cvazio urbano\u201d sem garantir a preserva\u00e7\u00e3o, obriga\u00e7\u00e3o institucional, moral e profissional.<\/p>\n<p>Por isso defendo \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 para Bras\u00edlia \u2013 um urbanismo baseado em percentuais e taxas de preserva\u00e7\u00e3o conforme os princ\u00edpios de prote\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio cultural e do ambiente global.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel praticar urbanismos sustent\u00e1veis e n\u00e3o os subterf\u00fagios interesseiros que corrompem a cidade com imposi\u00e7\u00f5es artificiosas como est\u00e1dios, pontes, trevos e novos bairros absurdos, que apagam as reais e consider\u00e1veis possibilidades de interven\u00e7\u00f5es de qualidade.<\/p>\n<p>Necessitamos de um espa\u00e7o urbano saud\u00e1vel e inclusivo, com acessibilidade funcional infraestrutural, envolvendo todos os segmentos sociais,\u00a0com preserva\u00e7\u00e3o cultural, habita\u00e7\u00e3o, sistemas de circula\u00e7\u00e3o e transporte, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Buscar o positivo, sendo o negativo o urbanismo destrutivo que da valor apenas (a duras penas) a benesses caras e excludentes.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o de Bras\u00edlia \u00e9 70%, no m\u00ednimo, livre. \u00c9 55%, no m\u00ednimo, verde. \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o de tal modo excepcional que \u00e9 gigantesca insensatez fingir que isso n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>\u00c9 um imprescrit\u00edvel crime dispor das \u00e1reas p\u00fablicas de forma t\u00e3o licenciosa quanto a que tem sido tentada por interesses imobili\u00e1rios e da ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o, necessariamente com apoio governamental.<\/p>\n<p>A principal e mais urgente a\u00e7\u00e3o de preserva\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia \u00e9 a conserva\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos, dos parques e jardins, do sistema de circula\u00e7\u00e3o de pedestres, ciclistas e outros meios de circula\u00e7\u00e3o e mesmo das demais infraestruturas p\u00fablicas. N\u00e3o se pode afastar dessa premissa.<\/p>\n<p>Conserva\u00e7\u00e3o, neste caso, significa um enorme esfor\u00e7o em interven\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os de recupera\u00e7\u00e3o e de constru\u00e7\u00e3o de novas infraestruturas similares ou melhores que as precedentes\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro &amp; Jos\u00e9 Leme Galv\u00e3o Jr. Bras\u00edlia \u2013 Temos escrito que no Brasil vivemos em uma Sociedade da Viol\u00eancia, desigual e insegura para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. Essa viol\u00eancia atinge mais do que corpos. Ela se expande para os tipos de cidades que vivemos. 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