{"id":2349,"date":"2024-05-17T09:39:30","date_gmt":"2024-05-17T12:39:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=2349"},"modified":"2024-05-17T12:04:03","modified_gmt":"2024-05-17T15:04:03","slug":"as-mulheres-e-as-microviolencias-cotidianas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2024\/05\/17\/as-mulheres-e-as-microviolencias-cotidianas\/","title":{"rendered":"As Mulheres e as Microviol\u00eancias Cotidianas"},"content":{"rendered":"<p>Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; O machismo estrutural\u00a0 naturalizado entre homens, mesmo os progressistas,\u00a0 sempre me surpreende. E entristece.<\/p>\n<p>Exemplos n\u00e3o faltam. Imagine uma sala com 96 mulheres e quatro homens. Come\u00e7o a falar no feminino.\u00a0 Um deles questiona: &#8220;como assim uma fala no feminino?&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos mais no tempo em que as regras gramaticais eram elaboradas apenas por homens. Mas s\u00e3o essas regras que\u00a0 seguem valendo.<\/p>\n<p>Naquele tempo, as mulheres eram proibidas de estudar nas universidades, de fazer cursos de Belas Artes ou de terem vidas independentes. Sequer podiam ser juristas e participar das academias.<\/p>\n<p>As leis e as normas lingu\u00edsticas foram estabelecidas por homens. E no Brasil s\u00e3o eles que ainda s\u00e3o maioria nos tribunais e espa\u00e7os de poder.<\/p>\n<p>Vivemos em uma sociedade pensada por homens para permanecer privilegiando os homens. Est\u00e1 mais do que na hora de subverter a l\u00edngua portuguesa para incluir as mulheres. N\u00e3o somos ap\u00eandices.<\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que muitos homens somam-se \u00e0s mulheres e \u00e0s diversidades de g\u00eaneros para transformar nossa l\u00edngua e nossa sociedade.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XXI \u00e9 urgente falar no feminino para resgatar e homenagear as mulheres que foram caladas e apagadas antes de n\u00f3s. E as que ainda vivem sob o manto do apagamento.<\/p>\n<p>As mulheres j\u00e1 n\u00e3o seguem mais sendo educadas exclusivamente para serem cuidadoras familiares. N\u00f3s nos damos as m\u00e3os, criamos redes de apoio, reivindicamos m\u00faltiplas forma\u00e7\u00f5es e outros espa\u00e7os de atua\u00e7\u00e3o. Entretanto, o trabalho de cuidado segue sendo invisibilizado e feminino. E n\u00e3o remunerado.<\/p>\n<p>O cuidado familiar, independente de quem se cuida,\u00a0 segue sendo considerado um &#8220;n\u00e3o trabalho&#8221; (Castro, 2021). Apesar de consumir entre 12 e 14h do dia de quem cuida. Todos os dias.<\/p>\n<p>No Coletivo Filhas da M\u00e3e falamos no feminino desde dezembro de 2019 quando criamos uma rede de apoio para acolher quem cuida.<\/p>\n<p>A pergunta que nos uniu foi &#8220;quem cuida de quem cuida?&#8221;.\u00a0 O cuidado de pessoas idosas, crian\u00e7as, pessoas enfermas e pessoas com defici\u00eancia \u00e9 uma quest\u00e3o em todos os lares, independentemente de classe social. N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel n\u00e3o ver ou negligenci\u00e1-lo. A realidade de quem cuida tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Olhamos para os lados. Para cima. Para baixo. Para tr\u00e1s e para frente. N\u00f3s, mulheres, cuidamos em todos os cantos e recantos do pa\u00eds. Somos mais de 90% de quem cuida um ou mais familiares.<\/p>\n<p><strong>Micros e Grandes Viol\u00eancias <\/strong><\/p>\n<p>No Rio Grande do Sul as mulheres est\u00e3o se deslocando para abrigos separados para fugir do ass\u00e9dio e da viol\u00eancia masculina. S\u00e3o homens que insistem no crime de entender que corpos femininos, conhecidos ou n\u00e3o, s\u00e3o deles.\u00a0Em meio \u00e0 trag\u00e9dia e ao caos precisamos seguir\u00a0 acolhendo e protegendo as meninas, adolescentes e as mulheres, adultas e idosas.<\/p>\n<p>Enquanto isso, homens de Norte ao Sul\u00a0 do pa\u00eds seguem se sentindo no direito de tocar nossos corpos sem pedir permiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso acontece todos os dias na forma de\u00a0 brincadeira, na forma de toque explicativo, na forma de &#8220;carinho&#8221; n\u00e3o solicitado ou atrav\u00e9s de um toque intencional.<\/p>\n<p>Nem passa pela cabe\u00e7a da maioria dos homens pedir permiss\u00e3o \u00e0s mulheres. \u00c9 algo t\u00e3o &#8220;normal&#8221; para eles que nem imaginam que, ser tocada sem permiss\u00e3o,\u00a0 n\u00e3o \u00e9 algo natural para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Mas estamos resistindo e transformando essa triste realidade. Homens sens\u00edveis e sintonizados com nosso tempo hist\u00f3rico passaram a perguntar &#8220;posso?&#8221; antes de tocar na m\u00e3o, no ombro, na cintura ou no cabelo de uma mulher. S\u00e3o homens que querem construir a Sociedade do Cuidado conosco.<\/p>\n<p>Mesmo que seja em uma consulta com um profissional de sa\u00fade, \u00e9 preciso informar os procedimentos e pedir permiss\u00e3o \u00e0 paciente. Nosso corpo n\u00e3o \u00e9 p\u00fablico.<\/p>\n<p>Independentemente da idade, n\u00e3o estamos\u00a0 a disposi\u00e7\u00e3o. Essa microviol\u00eancia cotidiana que \u00e9 invasiva, provoca medo e pode trazer a tona traumas recentes ou antigos. E raiva da impot\u00eancia.<\/p>\n<p>Para construir uma Sociedade do Cuidado h\u00e1 uma longa caminhada de aprendizado e di\u00e1logo a ser incentivado. Validar as varia\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas que tentam expressar o cuidado de g\u00eanero \u00e9 um bom come\u00e7o.<\/p>\n<p>Nessa constru\u00e7\u00e3o, precisaremos desconstruir essas\u00a0 microviol\u00eancias cotidianas, estimulando desde a inf\u00e2ncia o respeito aos corpos, em especial o das mulheres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; O machismo estrutural\u00a0 naturalizado entre homens, mesmo os progressistas,\u00a0 sempre me surpreende. E entristece. Exemplos n\u00e3o faltam. Imagine uma sala com 96 mulheres e quatro homens. Come\u00e7o a falar no feminino.\u00a0 Um deles questiona: &#8220;como assim uma fala no feminino?&#8221; N\u00e3o estamos mais no tempo em que as regras gramaticais eram elaboradas apenas por homens. 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