{"id":2342,"date":"2024-05-13T12:32:29","date_gmt":"2024-05-13T15:32:29","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=2342"},"modified":"2024-05-13T15:54:17","modified_gmt":"2024-05-13T18:54:17","slug":"uma-tragedia-anunciada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2024\/05\/13\/uma-tragedia-anunciada\/","title":{"rendered":"Uma Trag\u00e9dia Anunciada"},"content":{"rendered":"<p>Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil\u00a0 escrever sobre o Rio Grande do Sul neste momento. Mesmo morando em Bras\u00edlia h\u00e1 18 anos.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o apertou tanto pelos familiares, amigas, amigos e pela popula\u00e7\u00e3o em geral que voltei a tomar chimarr\u00e3o depois de anos. Um ato simb\u00f3lico para me sentir perto mesmo estando longe.<\/p>\n<p>Pix, mensagens de WhatsApp e telefonemas di\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o suficientes. N\u00e3o t\u00eam a concretude e a mem\u00f3ria afetiva do chimarr\u00e3o.<\/p>\n<p>No Estado mais ao Sul do pa\u00eds aprendemos a tomar chimarr\u00e3o desde crian\u00e7a. Com um pouquinho de a\u00e7\u00facar para ir acostumando o paladar. Faz parte da identidade de ser parte do pampa, regi\u00e3o que inclui Uruguai e Argentina. Com direito a frio, umidade e milongas.<\/p>\n<p>O ato de compartilhar o chimarr\u00e3o tem um sentido comunit\u00e1rio. \u00c9 tamb\u00e9m sinal de hospitalidade e acolhimento.\u00a0Nos sentamos para conversar e tomar mate\u00a0 em qualquer lugar. Nas pra\u00e7as, em casa,\u00a0 na praia.\u00a0 No campo ou na cidade.<\/p>\n<p>No entanto, agora, em 446 dos 497 munic\u00edpios do Rio Grande do Sul, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 pra\u00e7as e, em muitos lugares, nem casas. Muito menos \u00e1gua pot\u00e1vel e erva mate. Ou g\u00e1s. Sequer h\u00e1 estabelecimentos com mercadorias. Falta tudo.<\/p>\n<p>Mais de 2 milh\u00f5es de pessoas, dos 10,8 milh\u00f5es que vivem no Rio Grande do Sul, tiveram problemas por causa das enchentes no estado. Pelas estat\u00edsticas da Defesa Civil ga\u00facha h\u00e1 145 mortos e 132 desaparecidos. E mais de 618 mil pessoas est\u00e3o fora de suas casas.<\/p>\n<p>Esses n\u00fameros devem aumentar nos pr\u00f3ximos dias.\u00a0 A temperatura est\u00e1 caindo e segue chovendo em todo Estado. Al\u00e9m disso, a Lagoa dos Patos, na regi\u00e3o Sul do estado, est\u00e1 inundando cidades como\u00a0 S\u00e3o Louren\u00e7o, Pelotas e Rio Grande, entre outras.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m existem mais de 130 bloqueios nas estradas do Rio Grande do Sul, o que impede o deslocamento e a chegada de ajuda por terra.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 pra ficar calada frente \u00e0 trag\u00e9dia anunciada\u00a0 desde os anos 80 pelos especialistas em meio ambiente.<\/p>\n<p>No Estado que j\u00e1 foi refer\u00eancia para o Brasil em leis ambientais, o governador Eduardo Leite desmontou a lei ambiental ga\u00facha. Os empres\u00e1rios, entre v\u00e1rias benesses, t\u00eam o\u00a0 poder de autolicenciamento enquanto a popula\u00e7\u00e3o e a natureza ficaram\u00a0 desprotegidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas da crise clim\u00e1tica. H\u00e1 culpados pelo desrespeito ao meio ambiente, pelo desmonte dos grupos de preven\u00e7\u00e3o e da pr\u00f3pria Defesa Civil, hoje sem or\u00e7amento.<\/p>\n<p>No\u00a0 Rio Grande do Sul, o governo do estado, a prefeitura de Porto Alegre e outras do interior fizeram vista grossa aos riscos da crise clim\u00e1tica e suas consequ\u00eancias.\u00a0 Preferiram manter rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas com os empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>O desmatamento, o\u00a0 negacionismo e os interesses pessoais e empresariais acima do interesse p\u00fablico n\u00e3o se restringem ao Rio Grande do Sul. Se espalham como doen\u00e7a pelo Brasil.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios estados passando por desmonte das leis ambientais, inclusive o Distrito Federal.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito nacional,\u00a0 os presidentes da C\u00e2mara Federal e do Senado tentam passar leis que ampliam o desmatamento, empatam a vota\u00e7\u00e3o da demarca\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas, apoiam projetos favor\u00e1veis ao lobby dos combust\u00edveis f\u00f3sseis e fecham os olhos frente \u00e0 crise energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o planeta tem seus ciclos de ventos, chuvas, tempestades ou calor intensos. Mas sem proteger a natureza e sem pol\u00edtica\u00a0 nacional de cuidado ambiental, o resultado ser\u00e1 novas cat\u00e1strofes. Como a ga\u00facha, que tende a piorar.<\/p>\n<p>PS: Em ano de elei\u00e7\u00e3o, descubra se o\u00a0 seu\/sua candidato\/a se possue Plano de A\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica. E escolha pessoas historicamente comprometidas com a defesa do meio ambiente. As novas gera\u00e7\u00f5es agradecem.<\/p>\n<p>PS 2: Quer seguir ajudando o Rio Grande do Sul? Sugiro ONGs como o CAMP, em atua\u00e7\u00e3o desde os anos 80 que est\u00e1 atuando na A\u00e7\u00e3o Solid\u00e1ria Todos por Todos ( PIX: idhes@outlook.com.br) e THEMIS, em atua\u00e7\u00e3o desde os anos 90 (PIX: cnpj 970024060001-45)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil\u00a0 escrever sobre o Rio Grande do Sul neste momento. Mesmo morando em Bras\u00edlia h\u00e1 18 anos. O cora\u00e7\u00e3o apertou tanto pelos familiares, amigas, amigos e pela popula\u00e7\u00e3o em geral que voltei a tomar chimarr\u00e3o depois de anos. Um ato simb\u00f3lico para me sentir perto mesmo estando longe. 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