{"id":2323,"date":"2024-04-29T11:15:21","date_gmt":"2024-04-29T14:15:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=2323"},"modified":"2024-04-29T14:11:33","modified_gmt":"2024-04-29T17:11:33","slug":"eles-sempre-estiveram-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2024\/04\/29\/eles-sempre-estiveram-aqui\/","title":{"rendered":"Eles Sempre Estiveram Aqui"},"content":{"rendered":"<p>Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211;\u00a0 Sagradas. Assim s\u00e3o consideradas\u00a0 as pessoas idosas entre os povos ind\u00edgenas no Brasil. As crian\u00e7as tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Bem diferente dos valores da sociedade urbana e rural em que a maioria de n\u00f3s reside.<\/p>\n<p>Vivemos em uma sociedade que d\u00e1 mais valor a uma crian\u00e7a bonita. D\u00e1 prefer\u00eancia \u00e0s brancas, loiras, &#8220;normais&#8221; e, se poss\u00edvel\u00a0 quietinhas.<\/p>\n<p>Uma sociedade onde pais n\u00e3o encontram tempo para escutar seus filhos e filhas. E, para compensar essa falta de tempo, quem tem or\u00e7amento entrega celulares para crian\u00e7as desde a tenra idade.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o est\u00e3o na escola e em atividades extra escolares, est\u00e3o nos celulares, laptops e computadores de mesa. De todos os tipos que o or\u00e7amento dom\u00e9stico possa pagar.<\/p>\n<p>Poucas brincam com p\u00e9 na grama ou na terra.<\/p>\n<p>Raras t\u00eam horta na escola, no edif\u00edcio, na quadra (horta comunit\u00e1ria) ou no apartamento (horta vertical) para incentivar projetos comunit\u00e1rios e a rela\u00e7\u00e3o com a natureza. \u00c1gua, s\u00f3 de piscina. Em clubes pagos e fechados.<\/p>\n<p>Raramente crian\u00e7as que vivem nas cidades t\u00eam acesso a rios, cachoeiras ou\u00a0 lagos, um bem gratuito que pertence a toda popula\u00e7\u00e3o. Assim, n\u00e3o aprendem a sentir as \u00e1guas da natureza como suas.<\/p>\n<p>No Brasil, as crian\u00e7as de classe m\u00e9dia e alta colecionam brinquedos e objetos tecnol\u00f3gicos. Coisas para compensar. Coisas que estimulam o individualismo e a competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde o ponto de vista dos povos ind\u00edgenas as crian\u00e7as n\u00e3o v\u00e3o pra creche. Nas tribos, a conviv\u00eancia \u00e9 comunit\u00e1ria desde o nascimento. Todos s\u00e3o parentes. S\u00e3o fam\u00edlia.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe o meu, a posse. Existe o n\u00f3s e o cuidado coletivo em todas as fases da vida.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a realidade das 305 comunidades ind\u00edgenas que resistiram ao genoc\u00eddio daqueles que queriam e ainda querem suas terras.<\/p>\n<p>S\u00e3o valores bem diferentes do individualismo em que vivemos, onde a maioria s\u00f3 \u00e9 solid\u00e1ria com parentes ou com o grupo ao qual pertence. E, \u00e0s vezes,\u00a0 com o ex\u00f3tico.<\/p>\n<p>No outro extremo da pir\u00e2mide et\u00e1ria est\u00e3o as pessoas com 60 anos ou mais. No Brasil urbano e rural s\u00e3o percebidas pela \u00f3tica do preconceito. E do dem\u00e9rito. Sob esse ponto de vista, est\u00e3o na reta final&#8230;<\/p>\n<p>Desde o ponto de vista da longevidade, as pessoas idosas t\u00eam, com qualidade de vida, mais 40 ou 50 anos pela frente.<\/p>\n<p>Desde o ponto de vista das comunidades ind\u00edgenas que\u00a0 falam 274 l\u00ednguas no Brasil, nenhuma oficial, as pessoas idosaa s\u00e3o os guardi\u00f5es da sabedoria,\u00a0 da cura e dos saberes ancestrais.<\/p>\n<p>Entre as comunidades ind\u00edgenas, aquelas que o Brasil urbano costuma virar as costas, e o Brasil rural em geral quer tomar terras ancestrais, pessoas velhas s\u00e3o sagradas. S\u00e3o professores e professoras.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o bab\u00e1s, nem cuidadoras familiares nem muito menos empregadas dom\u00e9sticas. Um lugar invis\u00edvel onde umas trabalham gratuitamente e outros se sentem no direito de serem eternamente cuidados.<\/p>\n<p>As pessoas idosas ind\u00edgenas carregam e multiplicam o conhecimento das ervas, frutas e ra\u00edzes.<\/p>\n<p>S\u00e3o escutadas e reverenciadas como os portadores do saber ancestral. Atrav\u00e9s da oralidade\u00a0 passam adiante a linguagem, a hist\u00f3ria e a cosmologia ind\u00edgena.<\/p>\n<p>No Brasil de 2024, somos 30 milh\u00f5es de pessoas com 60 anos ou mais.<\/p>\n<p>A maioria \u00e9 vista como um peso para suas fam\u00edlias. E, em muitas institui\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m. Inclusive em sele\u00e7\u00e3o para empregos. Somente 5% das pessoas 60+ t\u00eam carteira assinada no Brasil.<\/p>\n<p>Mais de 70% das pessoas idosas utiliza o\u00a0 Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). O maior sistema p\u00fablico de sa\u00fade do mundo\u00a0 viveu seis anos de sucateamento e, aos poucos, vai se reerguendo, mas tamb\u00e9m ele n\u00e3o escuta as pessoas mais velhas.<\/p>\n<p>As pessoas idosas, em sua maioria, dividem aposentadorias precarias com suas familias. Em geral filhos, filhas e netos. Jovens e adultos trabalhos prec\u00e1rios, informais que seguem precisando de ajuda. Vivem sem carteira assinada e sem perspectiva de aposentadoria.<\/p>\n<p>Temos muito a aprender com as comunidades ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Os povos ind\u00edgenas n\u00e3o precisam de creches nem de Institui\u00e7\u00f5es de Longa Perman\u00eancia para Pessoas Idosas (ILPIs). As\u00a0 crian\u00e7as e pessoas idosas t\u00eam papel estrutural e fundante naquelas sociedades.<\/p>\n<p>Eles representam vida cuidadosa, resist\u00eancia e amor \u00e0 natureza. Esses tr\u00eas elementos deveriam bastar para que aprendessemos com eles em qualquer fase da vida.<\/p>\n<p><strong>Acampamento Terra Livre (ATL)<\/strong><\/p>\n<p>Bras\u00edlia\u00a0 passou a \u00faltima semana de abril mobilizada com o Acampamento Terra Livre (ATL) que, em 2024, completou 20 anos.<\/p>\n<p>Este ano cerca de 9 mil ind\u00edgenas estiveram mais uma vez reivindicando seus direitos b\u00e1sicos. Reivindicam o direito \u00e0 terra de quem j\u00e1 estava aqui antes que os primeiros navios brancos chegassem.<\/p>\n<p>Nossos povos ancestrais s\u00e3o aqueles com quem precisamos urgentemente aprender.<\/p>\n<p>Eles possuem um marco ancestral. Sempre estiveram aqui protegendo a natureza e, consequentemente, a todas e todos n\u00f3s. Gratid\u00e3o!<\/p>\n<p>PS: Esse texto foi inspirado nas informa\u00e7\u00f5es de @weena_tikuna<\/p>\n<p>#demarca\u00e7\u00e3oj\u00e1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211;\u00a0 Sagradas. 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