{"id":2291,"date":"2024-04-15T10:15:17","date_gmt":"2024-04-15T13:15:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=2291"},"modified":"2024-04-15T21:54:00","modified_gmt":"2024-04-16T00:54:00","slug":"desafios-no-comeco-das-demencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2024\/04\/15\/desafios-no-comeco-das-demencias\/","title":{"rendered":"Desafios no Come\u00e7o das Dem\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p>Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; O in\u00edcio da conviv\u00eancia com um familiar com dem\u00eancia pode ser assustador para quem cuida.\u00a0Principalmente pela falta de informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Perto de n\u00f3s h\u00e1 uma pessoa querida que come\u00e7ou a se portar de forma diferente. Parece que ocorreu da noite pro dia. N\u00e3o foi.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, por amor, distra\u00e7\u00e3o ou medo, n\u00e3o notamos os sinais, mas eles est\u00e3o l\u00e1 se desenvolvendo. Todos os dias. Dia a dia.<\/p>\n<p>Aquela pessoa independente, voluntariosa, divertida, que gostava de viajar, dirigir, ir a festas, receber amigos ou preparar comidas maravilhosas, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais a mesma.<\/p>\n<p>Come\u00e7am os\u00a0 esquecimentos, as mudan\u00e7as de humor, os equ\u00edvocos no gerenciamento do dinheiro. A irritabilidade.\u00a0 As brigas com pessoas da fam\u00edlia ou vizinhas que v\u00e3o se repetindo, apenas trocando de nome.<\/p>\n<p>Tendemos a terceirizar a responsabilidade por nossos atos ou falhas, inclusive as de nossos entes queridos. E o primeiro momento \u00e9 o de &#8220;buscar um culpado&#8221; para justificar o que ainda n\u00e3o conseguimos ver.<\/p>\n<p>O envelhecimento passa a ser a\u00a0 desculpa perfeita para as mudan\u00e7as que est\u00e3o ocorrendo. Al\u00e9m de ser apenas uma justificativa, \u00e9 tamb\u00e9m preconceito. Idadismo.<\/p>\n<p>Ao jogar a &#8220;culpa&#8221; na idade, muitas pessoas postergam a ida no especialista. E quando v\u00e3o, mesmo ap\u00f3s os exames de imagem, os testes cognitivos e avalia\u00e7\u00e3o neuropsicol\u00f3gica, se negam a acreditar no diagn\u00f3stico de dem\u00eancia.<\/p>\n<p>Enquanto isso, os esquecimentos continuam. De nomes, pessoas, lugares e datas. A mem\u00f3ria recente come\u00e7a falhar. As contas banc\u00e1rias ficam desorganizadas. Come\u00e7a a haver rod\u00edzio de empregadas ou diaristas. E dirigir um carro passa a ser um risco, mesmo que a pessoa doente jure que &#8220;est\u00e1 tudo bem&#8221;.<\/p>\n<p>Um diagn\u00f3stico de dem\u00eancia, seja ela o tipo que for, compromete radicalmente a vida daquela fam\u00edlia,\u00a0 grande ou pequena.<\/p>\n<p>De um lado, h\u00e1 algu\u00e9m que, mesmo sem saber o seu diagn\u00f3stico, sabe internamente que algo est\u00e1 errado.<\/p>\n<p>Essa pessoa tem medo da depend\u00eancia e de n\u00e3o controlar mais a pr\u00f3pria vida. E, em geral, luta contra as medidas de prote\u00e7\u00e3o, compreendidas como injusti\u00e7as.<\/p>\n<p>De forma reativa, muitas pessoas\u00a0 na fase inicial se negam a receber ajuda, a tomar rem\u00e9dios, a aceitar algu\u00e9m estranho dentro de casa. Enfim, negam\u00a0 todo e qualquer rearranjo na sua vida. Por mais que a cuidadora familiar tente propor solu\u00e7\u00f5es que protejam e impe\u00e7am poss\u00edveis acidentes.<\/p>\n<p>De outro lado, temos mulheres cuidadoras que, de uma hora para outra,\u00a0 precisam dar\u00a0 um jeito para adequar a agenda e cuidar do familiar enfermo. Sozinha ou em rod\u00edzio com outros familiares, precisam parar de estudar, trabalhar ou realizar projetos pessoais.<\/p>\n<p>Em geral, fazem isso sem conhecer a dimens\u00e3o e a devasta\u00e7\u00e3o f\u00edsica e emocional de cada fase da dem\u00eancia.<\/p>\n<p>Muitas passam o tempo de cuidado familiar desejando que aconte\u00e7a um milagre. Que uma medica\u00e7\u00e3o reverta o c\u00e9rebro danificado. E que o familiar &#8220;volte a ser como era antes&#8221;.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 imposs\u00edvel. Infelizmente n\u00e3o h\u00e1 volta atr\u00e1s. O tempo n\u00e3o para. As dem\u00eancias s\u00e3o doen\u00e7as progressivas e ainda sem cura.<\/p>\n<p>A maioria das cuidadoras familiares passam a maior parte dos anos de cuidado sem receber informa\u00e7\u00f5es suficientes sobre as etapas da doen\u00e7a. Isso tamb\u00e9m amplia a sobrecarga f\u00edsica e emocional. E promove o adoecimento.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o sabem sobre o custo das dem\u00eancias, sobre o desgaste familiar. Sobre empobrecimento e endividamento.<\/p>\n<p>Sobre maridos que saltam do barco durante o decorrer da doen\u00e7a. Sobre pequenos e grandes abusos que ocorrem contra a pessoa com demencia. E abusos que tamb\u00e9m ocorrem contra as cuidadoras, muitas vezes desacreditadas pela propria fam\u00edlia. E por m\u00e9dicos despreparados para acolher quem cuida.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encontrar solu\u00e7\u00f5es para convencer uma pessoa doente na fase inicial a receber ajuda.<\/p>\n<p>Ainda mais quando a pessoa t\u00eam consci\u00eancia e \u00e9 praticamente independente. Curatela e interna\u00e7\u00f5es em Institui\u00e7\u00f5es de Longa Perman\u00eancia para Pessoas Idosas (ILPIs) s\u00e3o poss\u00edveis nas fases mais avan\u00e7adas das dem\u00eancias, quando a consci\u00eancia j\u00e1 \u00e9 parcial.<\/p>\n<p>Aceitar a segunda alternativa (ILPIs) demanda tempo, dinheiro, coragem. E muita terapia para aceitar que estamos adoecendo e que n\u00e3o conseguiremos salvar nosso familiar.<\/p>\n<p>No caso da minha m\u00e3e, que era uma pessoa solid\u00e1ria, eu inventava hist\u00f3rias tristes de que a cuidadora profissional era uma amiga pessoal que precisava de ajuda e trabalho para sobreviver.<\/p>\n<p>Antes da pessoa selecionada come\u00e7ar a trabalhar, ela nos visitava umas duas vezes.\u00a0 Coment\u00e1vamos sobre seu &#8220;problema&#8221; enquanto tom\u00e1vamos lanche com minha m\u00e3e. Depois de uns dias, pedia &#8220;ajuda&#8221; pra minha &#8220;amiga&#8221;. Outra foi professora de Espanhol. Em geral dava certo.<\/p>\n<p>Cada caso \u00e9 um caso.<\/p>\n<p>Uma sugest\u00e3o \u00e9 descobrir o que poderia sensibilizar seu familiar na fase inicial. E para voc\u00ea, al\u00e9m do grupo de apoio e terapia, sugerimos ajuda m\u00e9dica com profissionais\u00a0 que olhem e acolham tamb\u00e9m quem cuida.\u00a0<!--\/data\/user\/0\/com.samsung.android.app.notes\/files\/clipdata\/clipdata_bodytext_240415_100027_824.sdocx--><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; O in\u00edcio da conviv\u00eancia com um familiar com dem\u00eancia pode ser assustador para quem cuida.\u00a0Principalmente pela falta de informa\u00e7\u00f5es. Perto de n\u00f3s h\u00e1 uma pessoa querida que come\u00e7ou a se portar de forma diferente. Parece que ocorreu da noite pro dia. 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