{"id":2084,"date":"2024-01-12T09:00:56","date_gmt":"2024-01-12T12:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=2084"},"modified":"2024-01-12T08:45:59","modified_gmt":"2024-01-12T11:45:59","slug":"o-brasil-e-um-pais-perigoso-para-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2024\/01\/12\/o-brasil-e-um-pais-perigoso-para-as-mulheres\/","title":{"rendered":"O Brasil \u00e9 um Pa\u00eds Perigoso para as Mulheres"},"content":{"rendered":"<p>Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia \u2013 Eu n\u00e3o conheci Julieta Hern\u00e1ndez, 38 anos. Mas ela representa todas mulheres que viajam sozinhas, independente da idade.<\/p>\n<p>O assassinato de Julieta, cujo corpo demorou 17 dias para ser encontrado no Amazonas, escancara o medo que sentimos quando sa\u00edmos \u00e0s ruas. Ou quando planejamos uma viagem sozinha. Um medo que cada mulher combate, a sua maneira, todos os dias, ao sair de casa.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m n\u00e3o conhecia Taynara Kellen, de 26 anos. Ela n\u00e3o era artista como Julieta. Nem sa\u00eda pelo mundo em bicicleta levando alegria e arte.<\/p>\n<p>Taynara trabalhava em um sal\u00e3o de beleza no Gama, Regi\u00e3o Administrativa do Distrito Federal, e cuidava da filha de 05 anos. Na quarta-feira, dia 10, ela levou a filha para o trabalho. N\u00e3o imaginava que seria seu \u00faltimo dia. Nem que receberia mais de 15 tiros depois de uma armadilha do ex-marido. Ou que a filha seria testemunha do feminic\u00eddio.<\/p>\n<p>O acusado, Wesley Denny da Silva Melo, 29 anos, \u00e9 Colecionador, Atirador Desportivo e Ca\u00e7ador (CAC) e guardava armas em casa. Segundo o Correio Braziliense, \u201cacumula na justi\u00e7a processos por amea\u00e7a, desacato, porte ilegal de arma, vias de fato e, inclusive, viol\u00eancia dom\u00e9stica praticada contra outras mulheres\u201d.<\/p>\n<p>Wesley estava acostumado a ser violento com as mulheres. Mas estava solto trabalhando como motorista de aplicativo.<\/p>\n<p>Como a justi\u00e7a permitiu que Wesley seguisse solto com esse hist\u00f3rico? Como foi permitido que um homem com esse perfil tivesse autoriza\u00e7\u00e3o para usar armas e ter acesso ao CAC?<\/p>\n<p>Este foi o primeiro feminic\u00eddo do ano no DF que completou 2023 com 35 assassinatos relacionados a g\u00eanero. Um aumento de 106% da viol\u00eancia dom\u00e9stica em rela\u00e7\u00e3oa 2022.<\/p>\n<p>O \u00faltimo crime havia ocorrido na noite de domingo, 31 de dezembro, quando Jaqueline Cristina dos Reis, 29 anos, foi assassinada a facadas em Planaltina pelo seu ex-companheiro. Da fam\u00edlia, sobraram tr\u00eas filhos \u00f3rf\u00e3os e um pai preso.<\/p>\n<p>Em 2022, segundo o Monitor da Viol\u00eancia e do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP), a cada seis horas uma mulher foi assassinada no Brasil por maridos, ex-companheiros ou ex-namorados. A maioria, mulheres jovens.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das 1,4 mil mulheres que sofreram feminic\u00eddo em 2022, outras 2.300 crian\u00e7as e adolescentes ficaram \u00f3rf\u00e3os no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 mais uma camada do desamparo que permeia a viol\u00eancia de g\u00eanero no Brasil, em geral invisibilizada.<\/p>\n<p>A maioria das crian\u00e7as e adolescentes s\u00e3o obrigadas a testemunhar a viol\u00eancia dom\u00e9stica, a repeti\u00e7\u00e3o das agress\u00f5es, a falta de prote\u00e7\u00e3o do Estado e a desestrutura\u00e7\u00e3o familiar. E, ap\u00f3s o feminic\u00eddio, elas perdem toda fam\u00edlia ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um Pa\u00eds Perigoso para as Mulheres<\/p>\n<p>No Brasil, a viol\u00eancia come\u00e7a dentro de casa na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia com a viol\u00eancia sexual. Em 2022, foram denunciados 74.930 casos no pa\u00eds, uma m\u00e9dia de 205 estupros por dia.<\/p>\n<p>Somos o 5o. pa\u00eds do mundo em assassinatos de mulheres. Mas n\u00e3o \u00e9 apenas dentro de casa que a viol\u00eancia perpassa a vida das mulheres brasileiras.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia come\u00e7a dentro de casa e se expande nas ruas, no tr\u00e2nsito, nos transportes p\u00fablicos, nas escolas, universidades e ambientes de trabalho. E ainda assim sa\u00edmos \u00e0s ruas todos os dias.<\/p>\n<p>Em um pa\u00eds onde os homens se acham donos dos corpos de suas companheiras ou ex-companheiras, a viol\u00eancia contra mulheres n\u00e3o \u00e9 considerada um esc\u00e2ndalo. Mas \u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 um esc\u00e2ndalo que as mulheres sigam sendo assassinadas todos os dias no Brasil. E que os homens se sintam impunes, ainda que sejam presos.<\/p>\n<p>\u00c9 escandaloso que o governo distrital n\u00e3o fa\u00e7a nada para impedir que os homens sigam batendo, mutilando e matando, inclusive com requintes de crueldade as ex-mulheres, namoradas, amantes e at\u00e9 ficantes.<\/p>\n<p>Homens que cometam viol\u00eancia f\u00edsica, sexual, psicol\u00f3gica, moral, patrimonial ou ass\u00e9dio contra as mulheres, deveriam ser mais do que presos.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia masculina deveria ser escancarada publicamente de diferentes maneiras, transformando a viol\u00eancia no que ela \u00e9: um ato ign\u00f3bil.<\/p>\n<p>O que fazer, mais al\u00e9m das campanhas de incentivo as den\u00fancias na m\u00eddia e ambientes de trabalho?<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias formas alternativas de puni\u00e7\u00e3o que poderiam ser aplicadas ao inv\u00e9s do Estado esperar o \u00e1pice da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Homens violentos deveriam ser proibidos de dirigir, de viajar, de pedir empr\u00e9stimos, de concorrer a cargos p\u00fablicos e, se j\u00e1 forem concursados, deveriam perder o emprego. E deveriam ser obrigados a participar de atendimentos especializados que atuem contra a misoginia, o \u00f3dio, a discrimina\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia contra as mulheres. Eles precisam ser sensibilizados para o amor e para o cuidado.<\/p>\n<p>Levando em considera\u00e7\u00e3o a realidade das mulheres, em outubro de 2023, o governo federal deu um primeiro passo ao lan\u00e7ar a campanha Brasil Sem Misoginia.<\/p>\n<p>A campanha inclui mais de 100 acordos de ades\u00e3o \u00e0 campanha, envolvendo empresas, governos estaduais, movimentos sociais, sindicatos, times de futebol, torcidas organizadas e entidades culturais, educacionais e religiosas.<\/p>\n<p>E quanto \u00e0 Julieta?<\/p>\n<p>Nesta sexta-feira, 12, em todo pa\u00eds haver\u00e1 manifesta\u00e7\u00f5es em defesa da vida das mulheres. Em Bras\u00edlia, a concentra\u00e7\u00e3o come\u00e7a \u00e0s 16h40 na Rodovi\u00e1ria do Plano Piloto, segue para a Biblioteca Nacional com apresenta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e segue com bicicletada \u00e0s 20h.<\/p>\n<p><!--\/data\/user\/0\/com.samsung.android.app.notes\/files\/clipdata\/clipdata_bodytext_240112_070717_014.sdocx--><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro Bras\u00edlia \u2013 Eu n\u00e3o conheci Julieta Hern\u00e1ndez, 38 anos. Mas ela representa todas mulheres que viajam sozinhas, independente da idade. O assassinato de Julieta, cujo corpo demorou 17 dias para ser encontrado no Amazonas, escancara o medo que sentimos quando sa\u00edmos \u00e0s ruas. Ou quando planejamos uma viagem sozinha. 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