{"id":2037,"date":"2023-12-25T07:30:15","date_gmt":"2023-12-25T10:30:15","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=2037"},"modified":"2023-12-25T11:31:02","modified_gmt":"2023-12-25T14:31:02","slug":"quantos-natais-voce-ja-viveu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2023\/12\/25\/quantos-natais-voce-ja-viveu\/","title":{"rendered":"Quantos Natais Voc\u00ea J\u00e1 Viveu?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\">Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Aos 62 anos j\u00e1 vivi muitos Natais.<\/p>\n<p>Gostava dos Natais da inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia e at\u00e9 o in\u00edcio da vida adulta. Eles foram rodeados de fam\u00edlia, troca de presentes, \u00e1rvores de Natal, enfeites e luzes. N\u00e3o faltava a visita de Papai Noel e brincadeiras que me encantaram ao longo dos anos.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que, depois da morte do meu pai, em mar\u00e7o de 1998, os Natais mudaram de cor. O vermelho perdeu um pouco do brilho. Ele era o nosso Papai Noel e tamb\u00e9m o de outras fam\u00edlias no pr\u00e9dio onde meus pais moravam em Porto Alegre.<\/p>\n<p>Meu pai trazia alegria para crian\u00e7as que n\u00e3o tinham av\u00f3s ou que as fam\u00edlias moravam longe. E, como s\u00edndico, acolhia adultos, casais e pessoas idosas solit\u00e1rias. Estava acostumado a escutar. At\u00e9 dois meses antes de morrer ele foi volunt\u00e1rio do Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida ( CVV). E sabia o quanto o Natal e o Ano Novo podia ser dif\u00edcil para algumas pessoas.<\/p>\n<p>Depois de adulta, vivi muitos outros Natais. Adaptei os Natais da inf\u00e2ncia para as festas com minha filha. E tentei mostrar a ela que, para al\u00e9m dos presentes e das brincadeiras, havia um sentimento de solidariedade que valia a pena ser vivido e estimulado.<\/p>\n<p>Nesses muitos outros Natais, aprendi, principalmente, que os meus costumes n\u00e3o eram os \u00fanicos que existiam. E aprendi a respeit\u00e1-los.<\/p>\n<p>Houve um ano que passei com uma fam\u00edlia de origem judaica. E descobri um mundo diferente do meu. Essa parte do mundo n\u00e3o parava suas atividades por causa das festas crist\u00e3s. E sou grata por ter sido recebida de portas abertas.<\/p>\n<p>Passei quatro Natais em Barcelona, na Espanha, onde a grande festa e a troca de presentes ocorre no dia de Reis, em 06 de janeiro.<\/p>\n<p>Ao entardecer do dia 05, apesar do inverno rigoroso, as pessoas v\u00e3o para as ruas assistir a Cavalgada dos Reis.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as, adolescentes e adultos esperam que os Reis Magos cheguem. O cortejo sai do mar e percorre o centro da cidade com direito \u00e0 balas e doces jogados dos carros aleg\u00f3ricos. Minha filha adorou os novos costumes.<\/p>\n<p>Eram duas festas em poucos dias. Enquanto no Brasil as fam\u00edlias se preparavam para desmontar a \u00e1rvore de Natal e tirar as luzes e enfeites, n\u00f3s segu\u00edamos celebrando a vida.<\/p>\n<p>J\u00e1 passei Natal com amigos sem religi\u00e3o que gostam da ceia, de estar juntos, conversar, de beber e trocar presentes. Com eles dei muita risada.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m passei Natais tristes. Um deles ocorreu logo ap\u00f3s uma separa\u00e7\u00e3o amorosa. E foi nesse momento que a fam\u00edlia e as amigas deram o melhor presente: estar ao meu lado.<\/p>\n<p>Um dos Natais mais duros aconteceu em Bras\u00edlia, no auge da pandemia.<\/p>\n<p>Faltavam nove dias para o Natal de 2020 quando minha m\u00e3e, que tinha Alzheimer, arrancou a sonda g\u00e1strica, conhecida como gastrostomia (GTT). O est\u00f4mago fecha r\u00e1pido, em duas horas. Era preciso lev\u00e1-la pro hospital.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei do que tinha mais medo. De entrar no hospital em meio a pandemia ou de n\u00e3o ver minha m\u00e3e sair do hospital. S\u00f3 sabia que tinha medo. Mesmo com medo, me &#8220;armei&#8221; com duas m\u00e1scaras e sa\u00ed de casa.<\/p>\n<p>Teoricamente era um procedimento simples. Mas n\u00e3o foi. Apesar do plano de sa\u00fade privado, ela demorou mais de duas horas para ser atendida. E n\u00e3o adiantou explicar \u00e0 equipe de sa\u00fade nem aos m\u00e9dicos que ela era uma paciente com dem\u00eancia. Nem que o buraco do est\u00f4mago ia fechar.<\/p>\n<p>Foram dias dentro do hospital com erros no procedimento, infec\u00e7\u00f5es e com a piora no quadro da minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>O espirito do Natal ia perdendo o sentido.\u00a0Ainda assim passei em casa e levei alguns enfeites e luzes. Tinha me mudado para o hospital.<\/p>\n<p>Mais uma vez, amigas e amigos se fizeram presente. E deram presentes. Livros, lanchinhos, frutas, mensagens e telefonemas.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, fui ligando para nossa pequena fam\u00edlia no Sul e para as amigas mais pr\u00f3ximas da minha m\u00e3e. Aquelas cuja amizade\u00a0 existia h\u00e1 mais de 50, 60 anos. Pedia que conversassem com ela, como nos velhos tempos.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e n\u00e3o falava mais. Mas escutava. E elas falavam ao telefone com ela. Foram longos dias\u00a0 de conversas. De cuidados paliativos at\u00e9 a despedida final em 09\/01\/2021.<\/p>\n<p>Os Natais n\u00e3o tiveram o mesmo brilho desde ent\u00e3o. Desbotaram um pouco mais. Fiquei doente no Natal seguinte, como sintoma do luto e das dores ainda n\u00e3o resolvidas. Demorou para cicatrizar.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil caminhar sem pai e m\u00e3e, mesmo sendo uma pessoa adulta. No entanto, \u00e9 preciso seguir caminhando. Por n\u00f3s mesmas. E tamb\u00e9m em homenagem aos que j\u00e1 se foram.<\/p>\n<p>E s\u00e3o as fam\u00edlias de sangue e as novas fam\u00edlias que constru\u00edmos, de amores e de amizades, que d\u00e3o a certeza de que n\u00e3o andamos s\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Temos nossa ancestralidade. Alguns t\u00eam descend\u00eancia. E temos nossos afetos, projetos e uma longa estrada pela frente. Com brilhos e cores. E isso \u00e9 um grande presente.<\/p>\n<p>E voc\u00ea, quantos Natais j\u00e1 viveu?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; Aos 62 anos j\u00e1 vivi muitos Natais. Gostava dos Natais da inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia e at\u00e9 o in\u00edcio da vida adulta. Eles foram rodeados de fam\u00edlia, troca de presentes, \u00e1rvores de Natal, enfeites e luzes. 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