{"id":1972,"date":"2023-11-24T09:00:11","date_gmt":"2023-11-24T12:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=1972"},"modified":"2023-11-24T08:59:02","modified_gmt":"2023-11-24T11:59:02","slug":"queremos-mais-que-uma-cultura-do-cuidado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2023\/11\/24\/queremos-mais-que-uma-cultura-do-cuidado\/","title":{"rendered":"Queremos Mais que uma Cultura do Cuidado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\">Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Se procuramos no Google, rapidamente aparecem 129 mil refer\u00eancias \u00e0 express\u00e3o cultura do cuidado. Apenas na l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>Se f\u00f4ssemos nos basear em n\u00fameros e quantidades, poder\u00edamos imaginar que o termo \u00e9 suficiente para abarcar as mudan\u00e7as que precisamos para sair da Sociedade da Viol\u00eancia em quem vivemos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Ainda mais no Brasil que \u00e9 um pa\u00eds perigoso para as mulheres, do nascimento (viol\u00eancia obst\u00e9trica) \u00e0 velhice (viol\u00eancia f\u00edsica, psicol\u00f3gica, sexual, patrimonial, idadismo, neglig\u00eancia e abandono). Em especial se forem mulheres negras ou ind\u00edgenas. Se forem pobres. Ou se tiverem rela\u00e7\u00f5es amorosas com outras mulheres.<\/p>\n<p>Tratar a quest\u00e3o do cuidado como algo restrito ao \u00e2mbito da cultura, como algo restrito ao comportamento, n\u00e3o \u00e9 suficiente para alcan\u00e7ar mudan\u00e7as estruturais.<\/p>\n<p>O cuidado, o direito a cuidar, a ser cuidada e ao autocuidado s\u00e3o vistos aqui e tratados como direitos humanos. De todas as pessoas e n\u00e3o de apenas algumas.<\/p>\n<p>Precisamos de uma mudan\u00e7a de paradigma para construir uma sociedade mais igualit\u00e1ria e respeitosa para as mulheres de todas as idades. Onde o cuidado n\u00e3o seja mais\u00a0 visto e naturalizado como &#8220;inerente&#8221; \u00e0s mulheres.<\/p>\n<p>Esse deslocamento se torna poss\u00edvel quando passamos a colocar o cuidado como ponto central para conquistar uma sociedade do bem viver e com sustentabilidade. Onde todas as pessoas, empresas e institui\u00e7\u00f5es passam a ser respons\u00e1veis pelo cuidado nas diferentes fases da vida. Inclusive o Estado.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da centralidade, o cuidado \u00e9 transversal a todas as \u00e1reas do conhecimento. N\u00e3o pode mais ser tratado em partes, por setores e ci\u00eancias que pouco dialogam.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, como vem ocorrendo no atual governo,\u00a0 um esfor\u00e7o coletivo para pensar e propor uma Pol\u00edtica Nacional de Cuidado com participa\u00e7\u00e3o social. (A\u00a0consulta p\u00fablica para o marco te\u00f3rico da Pol\u00edtica Nacional de Cuidado est\u00e1 aberta. <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/participamaisbrasil\/marco-conceitual-da-politica-nacional-de-cuidados-do-brasil\">Participe aqui<\/a>\u00a0).<\/p>\n<p>Precisamos mudan\u00e7as estruturais. Isso significa romper com um modelo econ\u00f4mico de desenvolvimento que se baseia e sustenta no trabalho gratuito de cuidado feito pelas mulheres.<\/p>\n<p>Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT, 2020), 76% do trabalho sem remunera\u00e7\u00e3o no mundo \u00e9 feito por mulheres. N\u00e3o \u00e9 por acaso que no Brasil elas est\u00e3o adoecendo, f\u00edsica e emocionalmente, com aumento das doen\u00e7as mentais.<\/p>\n<p>Quando trabalham tamb\u00e9m na rua, o chamado trabalho produtivo, as mulheres ganham menos que os homens, ainda que ocupem as mesmas fun\u00e7\u00f5es. Elas tamb\u00e9m s\u00e3o maioria no trabalho informal, o que\u00a0 aumenta fragilidade econ\u00f4mica e social em que vivem.<\/p>\n<p>Como se fosse pouco, 55% das mulheres do Brasil s\u00e3o m\u00e3es solo, assim consideradas as mulheres separadas, as vi\u00favas e as m\u00e3es solteiras (Datafolha, 2023). Entre elas, 50,8% s\u00e3o chefes de fam\u00edlia (Dieese, 2023).<\/p>\n<p>Precisamos muito mais que uma cultura do cuidado. Precisamos avan\u00e7ar para uma Sociedade do Cuidado que coloque a sustentabilidade da vida, a seguran\u00e7a das mulheres e do planeta no centro da quest\u00e3o do desenvolvimento.<\/p>\n<p>Precisamos valorizar as atividades essenciais para a sustentabilidade da vida, seja ela a vida individual, social ou a natureza. E parar de reproduzir\u00a0desigualdades de g\u00eanero, \u00e9tnicas\/raciais, socioecon\u00f4micas,\u00a0 territoriais e por idade.<\/p>\n<p>\u00c9 urgente parar de fazer de conta que a viol\u00eancia contra mulheres, inclusive no \u00e2mbito pol\u00edtico, n\u00e3o nos diz respeito, assim como o preconceito contra pessoas idosas, desrespeitadas e tratadas como um peso diariamente.<\/p>\n<p>Caso contr\u00e1rio, o n\u00famero de feminic\u00eddios seguir\u00e1 subindo, como ocorre no Distrito Federal onde 32 mulheres j\u00e1 foram assassinadas em 2023. Ou\u00a0 a viol\u00eancia dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Esta semana foi lan\u00e7ada\u00a0 pesquisa sobre a viol\u00eancia contra as mulheres 2023 realizada pelo Data Senado. O estudo, que ocorre\u00a0 desde 2005, revela que tr\u00eas em cada 10 mulheres j\u00e1 sofreram viol\u00eancia dom\u00e9stica no Brasil. Isso incluindo apenas aquelas que t\u00eam coragem de contar.<\/p>\n<p><strong>Caminhada Solid\u00e1ria no dia 26\u00a0 de Novembro<\/strong><\/p>\n<p>No domingo, dia 26\/11, estaremos caminhando em solidariedade a todas as mulheres. A Caminhada pela Elimina\u00e7\u00e3o da Viol\u00eancia Contra as Mulheres\u00a0 acontecer\u00e1 no Parque das Gar\u00e7as, no Lago Norte, \u00e0s 8h30, na Capital Federal. A campanha mundial, que ocorre\u00a0 um dia antes, dia 25, teve in\u00edcio em 2008 pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) e \u00e9 caracterizada pelo uso da cor laranja.<\/p>\n<p>A Caminhada Solid\u00e1ria pela Elimina\u00e7\u00e3o da Viol\u00eancia Contra as Mulheres\u00a0 do dia 26\/11 acontece em parceria com os seguintes grupos de trilhas e caminhadas do Distrito Federal: Grupo Caminhadas de Bras\u00edlia (GCB), Grupo Caminhantes do Cerrado (CDC) e Grupo Caminhadas Noturnas de Bras\u00edlia. <a href=\"https:\/\/forms.gle\/51JpPyVFpSvcNy3PA\">Inscreva-se\u00a0 gratuitamente aqui.<\/a><\/p>\n<p>PS: At\u00e9 2022 utiliz\u00e1vamos o termo cultura do cuidado. At\u00e9 incluirmos em nossas reflex\u00f5es e estudos o trabalho realizado pela CEPAL e seus 33 pa\u00edses membros e as decis\u00f5es da Carta da Argentina no final do ano passado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; Se procuramos no Google, rapidamente aparecem 129 mil refer\u00eancias \u00e0 express\u00e3o cultura do cuidado. Apenas na l\u00edngua portuguesa. Se f\u00f4ssemos nos basear em n\u00fameros e quantidades, poder\u00edamos imaginar que o termo \u00e9 suficiente para abarcar as mudan\u00e7as que precisamos para sair da Sociedade da Viol\u00eancia em quem vivemos. N\u00e3o \u00e9. 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