{"id":1795,"date":"2023-08-21T10:03:53","date_gmt":"2023-08-21T13:03:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=1795"},"modified":"2023-08-22T08:09:27","modified_gmt":"2023-08-22T11:09:27","slug":"tristeza-o-outro-lado-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2023\/08\/21\/tristeza-o-outro-lado-do-amor\/","title":{"rendered":"Tristeza, o Outro Lado do Amor"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Quantas dores emocionais sentimos quando convivemos com um familiar com dem\u00eancia?<\/p>\n<p>Medo, raiva, frustra\u00e7\u00e3o e sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia se misturam e revezam. Elas\u00a0 podem aparecer em diferentes momentos do dia. A tristeza \u00e9 o sentimento mais frequente, mesmo que seja escondida a sete chaves.<\/p>\n<p>Os sentimentos, \u00e0s vezes contradit\u00f3rios, podem se manifestar \u00e0 noite, estimulando pensamentos repetitivos e\u00a0 angustiantes que podem levar \u00e0 ins\u00f4nia. Podem\u00a0levar a\u00a0 noites mal dormidas e a dias extenuantes f\u00edsica e emocionalmente.<\/p>\n<p>Dem\u00eancia \u00e9 o nome gen\u00e9rico de doen\u00e7as neurodegenerativas sem cura, mas com tratamento. Os pacientes podem viver at\u00e9 20 anos em condi\u00e7\u00f5es cada vez mais fr\u00e1geis, em absoluta depend\u00eancia de quem cuida.<\/p>\n<p>A mais conhecida das dem\u00eancias \u00e9 o Alzheimer, mas existem v\u00e1rios outros tipos. Entre eles a Dem\u00eancia Vascular, a Frontotemporal, a de Corpos de Lewy, Huntington, entre outras.<\/p>\n<p>Existem tamb\u00e9m sub-tipos das dem\u00eancias, como as mistas que incluem mais de uma doen\u00e7a ao mesmo tempo. Esse \u00e9 o caso, por exemplo, do Parkinson que pode evoluir para dem\u00eancia.<\/p>\n<p>As dem\u00eancias s\u00e3o pouco conhecidas pela popula\u00e7\u00e3o, embora j\u00e1 tenham sido declaradas um problema de sa\u00fade p\u00fablica mundial pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS).<\/p>\n<p>Elas comprometem a mem\u00f3ria, o pensamento, o racioc\u00ednio, a orienta\u00e7\u00e3o de tempo, incluindo dias, horas e localiza\u00e7\u00e3o, a compreens\u00e3o, a linguagem, a capacidade de aprendizagem, o julgamento e o comportamento.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m comprometem a capacidade de executar tarefas cotidianas, seja o preparo de uma alimenta\u00e7\u00e3o e a administra\u00e7\u00e3o das contas banc\u00e1rias. Ou a higiene pessoal.<\/p>\n<p>Ou seja, de um lado a pessoa enferma perde a capacidade de decidir e gerir sua pr\u00f3pria vida. De outro, h\u00e1 uma pessoa da fam\u00edlia,\u00a0 em geral uma mulher, que ter\u00e1 de se tornar cuidadora.<\/p>\n<p>Embora ocorram majoritariamente entre pessoas acima de 65 anos, existem casos de dem\u00eancias que come\u00e7am a se manifestar a partir dos 38, 40 anos. S\u00e3o\u00a0 conhecidas como dem\u00eancias precoces, representam cerca de 7% dos casos diagnosticados e s\u00e3o gen\u00e9ticas.<\/p>\n<p>H\u00e1 um mito de que as dem\u00eancias s\u00f3 ocorrem entre pessoas mais velhas. Essa \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais o diagn\u00f3stico nas dem\u00eancias precoces demora mais. E onde h\u00e1 mais descr\u00e9dito sobre a doen\u00e7a, inclusive entre m\u00e9dicos com pouca ou nenhuma forma\u00e7\u00e3o sobre dem\u00eancias.<\/p>\n<p>Isso pode\u00a0 levar a um p\u00e9riplo de visitas a profissionais de sa\u00fade e significar um tempo de espera de at\u00e9 08 ou 10 anos sem tratamento adequado. Enquanto isso, a doen\u00e7a segue evoluindo com consequ\u00eancias diretas para a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Uma pessoa com dem\u00eancia perde cada vez mais a sua independ\u00eancia, assim como a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m afeta a vida da pessoa acima dos 65 anos que est\u00e1 em processo de diagn\u00f3stico, tempo que pode demorar de 02 a 03 anos nos planos de sa\u00fade privados. Ou 03 a 04 anos na sa\u00fade p\u00fablica, como apontou o Estudo sobre Pessoa Idosa com Dem\u00eancia e sobre Cuidadores no Distrito Federal, publicado em 2022 pelo Instituto IPE-DF.<\/p>\n<p>J\u00e1 a pessoa que cuida um familiar precisa modificar ou parar seu projeto de vida de uma hora para outra. Sem planejamento ou aviso\u00a0 pr\u00e9vio. Muitas vezes sem anteparo emocional.<\/p>\n<p>O cuidado deveria ser algo tempor\u00e1rio, dividido com toda fam\u00edlia, principalmente entre irm\u00e3os. Mas s\u00e3o comuns os relatos de sobrecarga f\u00edsica e emocional da cuidadora principal. E de adoecimento durante ou ap\u00f3s do falecimento do familiar com dem\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Sobre a Tristeza<\/strong><\/p>\n<p>Como lembra a m\u00e9dica paliativista e geriatra Ana Cl\u00e1udia Quintana Arantes, a tristeza chega na nossa vida sem pedir licen\u00e7a. Isso ocorre com mais frequ\u00eancia em casos de dem\u00eancias e outras doen\u00e7as sem cura.<\/p>\n<p>Ficamos tristes quando nosso mundo interno \u00e9 total ou parcialmente destru\u00eddo. E isso acontece quando acompanhamos por anos o definhar da sa\u00fade e da mem\u00f3ria de uma pessoa querida. E tamb\u00e9m quando somos obrigados a cuidar algu\u00e9m que nos maltratou durante a inf\u00e2ncia ou adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Frente a doen\u00e7as sem cura ou da morte, a sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a e controle \u00e9 abalada. E quando o equil\u00edbrio existente \u00e9 abalado, raiva, frustra\u00e7\u00e3o e medo se misturam. O que sobra \u00e9 a tristeza. Ela estar\u00e1 presente ainda que tentemos esconder.<\/p>\n<p>Podemos afundar nela. Em um mundo de dor. Mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel reconhecer a tristeza, dar espa\u00e7o a ela.<\/p>\n<p>A tristeza mostra que somos seres que sentimos, que temos afeto. Somos afetados pelos acontecimentos da vida. Quem experimenta o amor tamb\u00e9m experimenta a tristeza.<\/p>\n<p>Acolher a tristeza \u00e9 acolher a vida. E seus desafios cotidianos, com doen\u00e7as, finitude e luto.<\/p>\n<p>N\u00f3s, do Coletivo Filhas da M\u00e3e, em meio a tristeza\u00a0 pela perda a conta gotas de um familiar com dem\u00eancia, escolhemos e acolhemos\u00a0 a vida. Escolhemos o cuidado coletivo e o autocuidado.<\/p>\n<p>Acreditamos que o autocuidado \u00e9 a melhor maneira de homenagear quem nos deu a vida, nosso maior presente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; Quantas dores emocionais sentimos quando convivemos com um familiar com dem\u00eancia? Medo, raiva, frustra\u00e7\u00e3o e sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia se misturam e revezam. Elas\u00a0 podem aparecer em diferentes momentos do dia. A tristeza \u00e9 o sentimento mais frequente, mesmo que seja escondida a sete chaves. 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