{"id":1684,"date":"2023-06-30T07:00:20","date_gmt":"2023-06-30T10:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=1684"},"modified":"2023-06-30T15:36:42","modified_gmt":"2023-06-30T18:36:42","slug":"nao-me-chame-de-cuidador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2023\/06\/30\/nao-me-chame-de-cuidador\/","title":{"rendered":"N\u00e3o me Chame de Cuidador!"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro, Cosette Castro &amp; Convidado<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; O cuidado familiar \u00e9 desafiador e, ao mesmo tempo, repetitivo. Pode conter invisibilidades e apagamentos.<\/p>\n<p>Invisibilidade como a que ocorre com as cuidadoras familiares diariamente. Apagamento do que a pessoa que cuida \u00e9, que vai muito al\u00e9m do papel tempor\u00e1rio (ainda que leve anos) de cuidadora.<\/p>\n<p>Nesta sexta-feira, nosso convidado \u00e9 o jornalista e escritor Fernando Aguzzoli que acompanhou a av\u00f3 com dem\u00eancia ainda na adolesc\u00eancia. Da experi\u00eancia, criou o site Vov\u00f3 Nilva e publicou cinco livros infanto-juvenis sobre Alzheimer.<\/p>\n<p>Em 2023, Fernando Aguzzoli foi um dos idealizadores do projeto &#8220;Walking the Talking for Dementia&#8221;, realizado na Gal\u00edcia, Espanha. Na edi\u00e7\u00e3o de hoje ele relembra os tempos em que colocou tudo de lado para ficar ao lado da av\u00f3.<\/p>\n<p>Fernando Aguzzoli &#8211; &#8220;Eu era um adolescente quando fui surpreendido pelo diagn\u00f3stico da dem\u00eancia. \u201cEla vai te esquecer\u201d, eles disseram. \u201cImposs\u00edvel. Eu sou o neto querido\u201d, pensei.<\/p>\n<p>Com o passar dos anos, tomei a decis\u00e3o de largar o curso de Filosofia na UFRGS para cuidar da vov\u00f3 Nilva, j\u00e1 h\u00e1 alguns anos vivendo com Alzheimer. Seria inver\u00eddico dizer que n\u00e3o tive surpresas no processo, mas talvez a maior delas tenha sido o esquecimento da minha figura.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o por parte dela. Esse esquecimento eu j\u00e1 esperava. Quanto mais acontecia, mais \u00a0me acostumava com o fato de ter a imagem do neto esquecida aqui ou ali. Nunca o sentimento que havia atrelado a minha figura: ela sabia que me amava e disse isso incont\u00e1veis vezes, ainda que n\u00e3o soubesse o meu nome.<\/p>\n<p>O esquecimento que me feriu foi outro! De repente eu havia deixado de ser o neto para muitos, inclusive para m\u00e9dicos, gestores, pol\u00edticos, m\u00eddia e conhecidos. Agora eu era o CUIDADOR!<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico da dem\u00eancia n\u00e3o vem s\u00f3. Pelo contr\u00e1rio, vem acompanhado de um r\u00f3tulo dif\u00edcil de descolar da pele. As pessoas passam a me enxergar como um fragmento do que eu era. A minha \u00a0integridade foi \u201cparcializada\u201d para viver apenas \u2018partes\u2019 de eu mesmo. Foi o que aconteceu com a minha av\u00f3, sob a perspectiva de muitos, embora eu a visse transbordando personalidade.<\/p>\n<p>Esse r\u00f3tulo se estende para outra figura, o familiar pr\u00f3ximo, aquele que abra\u00e7a o cuidado corpo a corpo, cotidiano, integral!<\/p>\n<p>\u201cEle \u00e9 o cuidador\u201d, diziam. Eu corrigia: \u201ceu sou o neto, um neto que cuida!\u201d. Quando me rotulavam dessa maneira, como apenas cuidador, \u00a0sentia que a minha principal identidade era transferida para um segundo plano.<\/p>\n<p>N\u00e3o fazia sentido, na minha cabe\u00e7a, cuidar da forma como cuidei, deixando faculdade e carreira, se n\u00e3o fosse a rela\u00e7\u00e3o linda que t\u00ednhamos como grandes amigos. Mas, acima de tudo, como av\u00f3 e neto. Ent\u00e3o como isso havia se tornado irrelevante de uma hora para outra?<\/p>\n<p>O \u00a0t\u00edtulo que era dado a mim se sobrepunha ao seu,\u00a0 de av\u00f3. Eu ganhava status em uma cadeia hier\u00e1rquica como o cara que cuida da pessoa que n\u00e3o o faz mais por si mesma. Mentira!<\/p>\n<p>Vov\u00f3 nunca deixou de cuidar de si, nem de mim ou de minha fam\u00edlia. O cuidado da vov\u00f3 sempre esteve no olhar preocupado, no \u201ceu te amo\u201d, no toque da pele e no tom da voz. Cuidar n\u00e3o \u00e9 apenas trocar as fraldas, preparar a comida ou separar comprimidos. Vai muito al\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>N\u00f3s, do Coletivo Filhas da M\u00e3e, acreditamos que somos muito mais do que cuidadoras. Este \u00e9 um estado tempor\u00e1rio, ainda que possa durar 20 anos. Somos pessoas com uma hist\u00f3ria pessoal e rela\u00e7\u00e3o afetiva com o familiar. As vezes, no decorrer do cuidado, at\u00e9 podemos esquecer de n\u00f3s mesmas. De quem somos. Por isso, enfatizamos semanalmente a necessidade do aucuidado e de olhar para si para n\u00e3o\u00a0se perder.<\/p>\n<p>PS: Em junho Fernando Aguzolli foi o entrevistado do programa <strong>Terceiras Inten\u00e7\u00f5es<\/strong>, coordenado pela professora da UnB, Juliana Lira. Vale a pena conferir a entrevista, dispon\u00edvel no nosso <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=HHmp7_TveoI\">canal do You Tube<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro, Cosette Castro &amp; Convidado Bras\u00edlia &#8211; O cuidado familiar \u00e9 desafiador e, ao mesmo tempo, repetitivo. Pode conter invisibilidades e apagamentos. Invisibilidade como a que ocorre com as cuidadoras familiares diariamente. Apagamento do que a pessoa que cuida \u00e9, que vai muito al\u00e9m do papel tempor\u00e1rio (ainda que leve anos) de cuidadora. Nesta sexta-feira, nosso convidado \u00e9 o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":126,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[8,7,865,300,553,864],"class_list":["post-1684","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cuidado-e-autocuidado","tag-alzheimer","tag-demencias","tag-fernando-aguzzoli","tag-pessoas-idosas","tag-programa-terceiras-intencoes","tag-vovo-nilva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1684","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/users\/126"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1684"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1684\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1690,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1684\/revisions\/1690"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1684"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1684"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}