{"id":1668,"date":"2023-06-23T08:00:14","date_gmt":"2023-06-23T11:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=1668"},"modified":"2023-06-23T10:46:23","modified_gmt":"2023-06-23T13:46:23","slug":"cuidado-nao-e-coisa-so-de-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2023\/06\/23\/cuidado-nao-e-coisa-so-de-mulher\/","title":{"rendered":"Cuidado N\u00e3o \u00c9 Coisa (S\u00f3) de Mulher"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Apesar de termos o mesmo sobrenome, sempre precisamos repetir.\u00a0 N\u00e3o, n\u00e3o somos parentes.<\/p>\n<p>A Ana veio da Bahia. Cosette nasceu no Rio Grande do Sul.\u00a0 A vida nos ligou por v\u00e1rios caminhos comuns, cujas estradas se encontraram em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Os parentes com dem\u00eancias, entre elas o Alzheimer. Os anos de cuidado familiar. O Jornalismo e o prazer de contar hist\u00f3rias. A vida em grupo e os projetos coletivos.<\/p>\n<p>Temos como refer\u00eancia mulheres fortes. M\u00e3es, av\u00f3s, tias av\u00f3s. E bisav\u00f3s.<\/p>\n<p>No caso da Ana, uma av\u00f3 era m\u00e9dica, mas era conhecida como parteira. Dona Cec\u00edlia. Preconceitos. Era uma mulher negra. Um exemplo de solidariedade . Substituiu a av\u00f3 materna, Lourdes, que escapou de um casamento abusivo deixando vida e filhos para tr\u00e1s. Ambas sustentaram a fam\u00edlia e ajudavam outras mulheres. Independ\u00eancia financeira feminina era raro nos anos 40 e 50.<\/p>\n<p>A bisav\u00f3 materna da Cosette teve 12 filhos. Perdeu metade para a febre espanhola. Ficou vi\u00fava e criou cinco meninas e um menino, o ca\u00e7ula, sozinha. As filhas tiveram de casar com maridos escolhidos, com exce\u00e7\u00e3o da mais nova, a \u00fanica que n\u00e3o se separou. As demais refizeram a vida.<\/p>\n<p>Tivemos av\u00f3s, tias av\u00f3s e bisav\u00f3s contadoras de hist\u00f3rias e de causos. Daquelas que reuniam netas e bisnetas na sala ou na cozinha onde fic\u00e1vamos escutando atentamente.\u00a0 Horas, segundo nossa percep\u00e7\u00e3o infantil e depois adolescente.<\/p>\n<p>Eram historias que emocionavam. Faziam rir, chorar e estimulavam a imagina\u00e7\u00e3o apenas\u00a0com a entona\u00e7\u00e3o da voz.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias sobre bravura,\u00a0 cemit\u00e9rios e sobrenatural. Sobre ver\u00f5es e invernos marcantes. Sobre longos trajetos percorridos a p\u00e9. Sobre amores e trai\u00e7\u00f5es. Sobre honra e feminic\u00eddios.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias sobre mulheres. Mulheres fortes que sobreviveram em meio a uma sociedade feita pelos homens e para os homens.<\/p>\n<p>Mulheres\u00a0 que defenderam seus direitos em tempos em que n\u00e3o podiam trabalhar sem autoriza\u00e7\u00e3o do marido nem abrir conta banc\u00e1ria sozinha. S\u00f3 com o marido. Mulheres que eram feministas e n\u00e3o sabiam.<\/p>\n<p>Tivemos m\u00e3es que foram para universidade. Mulheres mandonas, de voz ativa. Ao mesmo tempo, eram cheias de vida e ligadas \u00e0 fam\u00edlia. Tamb\u00e9m eram solid\u00e1rias e trabalharam para reduzir as diferen\u00e7as sociais no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por elas enfrentamos\u00a0 o Alzheimer.\u00a0 Nos informamos, reunimos, participamos de associa\u00e7\u00f5es. Aprendemos. Com outras mulheres, formamos o Coletivo Filhas da M\u00e3e em dezembro de 2019. E passamos a multiplicar, compartilhar\u00a0 experi\u00eancias e estimular o autocuidado de quem cuida.<\/p>\n<p><strong>Elas Vieram Antes de N\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Seguimos honrando as mulheres que vieram antes de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Mulheres que foram invisibilizadas, como n\u00f3s somos at\u00e9 hoje enquanto cuidadoras familiares. Elas n\u00e3o sabiam que a atividade de cuidado familiar \u00e9 trabalho. E merece ser remunerado. N\u00f3s sabemos.<\/p>\n<p>Mulheres que, muitas vezes,\u00a0 foram preteridas em empregos ou cargos apenas pelo fato de serem mulheres. Que recebiam, como n\u00f3s\u00a0 recebemos at\u00e9 hoje, sal\u00e1rios menores por um trabalho\/fun\u00e7\u00e3o igual ao dos homens.<\/p>\n<p>Mulheres que se desdobraram (e ainda se desdobram) para dar conta das diversas facetas do cuidado familiar. E que foram educadas para\u00a0 acreditar\u00a0 que o cuidado \u00e9 &#8220;coisa de mulher&#8221;. Que \u00e9 uma &#8220;miss\u00e3o de vida&#8221;. N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Cuidado n\u00e3o tem g\u00eanero. \u00c9 responsabilidade de toda fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Cada vez que o Estado se omite e n\u00e3o protege as mulheres contribui para a sobrecarga f\u00edsica e emocional que leva boa parte das brasileiras \u00e0 exaust\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso tem nome: viol\u00eancia estrutural. Essa viol\u00eancia institucionalizada e naturalizada atinge mulheres de todas as idades, inclusive as mulheres idosas.<\/p>\n<p>Nossas m\u00e3es foram educadas a odiar o sobrepeso, a velhice e todo tipo de\u00a0 imperfei\u00e7\u00e3o. Delas e das outras mulheres. Viveram suas vidas com rigidez buscando o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Como a maior parte das mulheres ainda hoje, elas negaram de v\u00e1rias maneiras a idade. Inclusive refor\u00e7ando\u00a0 que &#8220;n\u00e3o se pergunta a idade de uma mulher&#8221;.<\/p>\n<p>At\u00e9 quando\u00a0 nossos representantes, aqueles que mobilizam e influenciam milh\u00f5es de pessoas no pa\u00eds, v\u00e3o refor\u00e7ar o preconceito por idadade? E v\u00e3o continuar negando inclusive a pr\u00f3pria idade?<\/p>\n<p>At\u00e9 quando v\u00e3o seguir negando o\u00a0 processo de envelhecimento populacional?<\/p>\n<p>Ou negar a urg\u00eancia de implementar o Estatuto da Pessoa Idosa e a Pol\u00edtica Nacional do Idoso (PNI, Lei 8842)\u00a0 ampliando os direitos das pessoas 60+?<\/p>\n<p>Precisamos urgentemente sair da Sociedade da Viol\u00eancia, inclusive a do Estado, para construir uma Sociedade do Cuidado para todas as idades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; Apesar de termos o mesmo sobrenome, sempre precisamos repetir.\u00a0 N\u00e3o, n\u00e3o somos parentes. A Ana veio da Bahia. Cosette nasceu no Rio Grande do Sul.\u00a0 A vida nos ligou por v\u00e1rios caminhos comuns, cujas estradas se encontraram em Bras\u00edlia. Os parentes com dem\u00eancias, entre elas o Alzheimer. Os anos de cuidado familiar. 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