{"id":1600,"date":"2023-05-12T07:00:22","date_gmt":"2023-05-12T10:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=1600"},"modified":"2023-05-11T22:36:04","modified_gmt":"2023-05-12T01:36:04","slug":"nem-tudo-sao-perdas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2023\/05\/12\/nem-tudo-sao-perdas\/","title":{"rendered":"Nem Tudo S\u00e3o Perdas"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; O texto de hoje \u00e9 um relato pessoal da Cosette sobre sua rela\u00e7\u00e3o de filha \u00fanica com a m\u00e3e, Carmencita, que teve Alzheimer. Temos a certeza de que nem tudo s\u00e3o perdas, apesar das dem\u00eancias. Mesmo que as rela\u00e7\u00f5es humanas n\u00e3o sejam f\u00e1ceis.<\/p>\n<p>Cosette Castro &#8211; &#8220;H\u00e1 tr\u00eas anos n\u00e3o comemoro o dia das m\u00e3es como filha. Apesar de acolher a passagem da minha m\u00e3e como um descanso necess\u00e1rio pra n\u00f3s duas, sinto a falta dela.<\/p>\n<p>N\u00e3o da Carmencita que conviveu quase 10 anos (ap\u00f3s o diagn\u00f3stico) com Alzheimer. Mas da M\u00e3e que telefonava com frequ\u00eancia pra dar oi e contar coisas do dia a dia, independente em que lugar do mundo em que eu estivesse.<\/p>\n<p>Fui filha \u00fanica de pais adolescentes. A filha mais velha, a do meio e a ca\u00e7ula. Muita gente pensa que \u00e9 \u00f3timo ser filha \u00fanica. \u00c9 verdade que temos mais aten\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m h\u00e1 muito mais cobran\u00e7as. Tudo vem em dobro, sem divis\u00f5es entre irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e, como toda pessoa humana, era cheia de contradi\u00e7\u00f5es. Mas foi a \u00fanica m\u00e3e que conheci e amei.\u00a0Ela cresceu em uma fam\u00edlia onde o amor n\u00e3o era demonstrado. Ela mesma s\u00f3 conseguia abra\u00e7ar e demonstrar carinho por crian\u00e7as. Quase nada sobrava para adolescentes e adultos. No m\u00e1ximo, um beijo no rosto.<\/p>\n<p>Depois dos 10 anos as crian\u00e7as da fam\u00edlia, eu incluida, perd\u00edamos o direito a abra\u00e7os, colo, demonstra\u00e7\u00f5es de afeto. J\u00e1 &#8220;t\u00ednhamos crescido&#8221;.<\/p>\n<p>A forma de minha m\u00e3e mostrar afeto era dando presentes. Telefonando. Ou limpando tudo que via pela frente. Minha m\u00e3e tinha Transtorno Obssessivo Compulsivo (TOC).<\/p>\n<p>Na inf\u00e2ncia, andar com panos nos p\u00e9s para deixar o ch\u00e3o brilhando era uma brincadeira divertida. E eu chamava as amigas pra brincar. Mesmo crian\u00e7a sabia que era uma forma de deixar minha m\u00e3e contente.<\/p>\n<p>Os melhores presentes pra ela? Deixar tudo no lugar, tudo limpo e, claro, n\u00e3o fazer barulho.\u00a0\u00a0Minha m\u00e3e era perfeccionista. N\u00e3o era f\u00e1cil agradar Carmencita. Nunca foi.<\/p>\n<p>Por outro lado, foi ela quem me levou pela primeira vez na universidade aos 5 anos. Ela ficou sem ningu\u00e9m pra me cuidar e teve de me levar na aula com ela. Foi maravilhoso!<\/p>\n<p>Foi com minha m\u00e3e que participei da primeira manifesta\u00e7\u00e3o contra a censura em plena ditadura civil-militar. Ela e suas colegas do Servi\u00e7o Social cal\u00e7aram tamancos de madeira\u00a0 e andaram para cima e para baixo nas escadarias da universidade. Foi a manifesta\u00e7\u00e3o silenciosa mais barulhenta que eu j\u00e1 participei.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi com minha m\u00e3e que aprendi o significado das palavras rede de apoio e amizade entre mulheres.<\/p>\n<p>Suas amigas ajudavam, cada uma a sua maneira, a me cuidar um pouco. E dessa turma da universidade, cuja amizade seguiu por toda vida, pelo menos tr\u00eas estiveram presentes 50 anos depois. Tamb\u00e9m na doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois que minha m\u00e3e n\u00e3o reconhecia mais, duas delas cuidaram de mim a dist\u00e2ncia, como uma forma de homenagear a amiga. Semanalmente, eu enviava pra fam\u00edlia e pras amigas dela not\u00edcias, fotos e pequenos v\u00eddeos.<\/p>\n<p>Apesar da rigidez, minha m\u00e3e ensinou valores importantes como solidariedade, empatia, lealdade e companheirismo.<\/p>\n<p>Ela ainda incentivou o h\u00e1bito da leitura. Mesmo que fosse pra eu ficar quieta. Deu certo. Me esquecia do mundo real a cada descoberta de novas historias e mundos imagin\u00e1rios.\u00a0 Al\u00e9m disso, minha fam\u00edlia era uma fam\u00edlia de mulheres contadoras de hist\u00f3rias. E eu sempre adorei escutar.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e aparentava ser uma mulher forte. Para mim, at\u00e9 a morte do meu pai, era a mulher mais forte do mundo.<\/p>\n<p>Depois de quase 40 anos de casados, minha m\u00e3e desabou. Nunca mais foi a mesma. Apesar de ter conseguido sair de uma depress\u00e3o profunda, que a levou pra cama por meses. Foi assim que descobri o quanto ela amava meu pai. E o tamanho do seu desespero.<\/p>\n<p>Foi dif\u00edcil separar a peculiar e autorit\u00e1ria personalidade da Carmencita dos primeiros sinais de Alzheimer. Tamb\u00e9m foi preciso estrat\u00e9gia para convencer a fam\u00edlia, irm\u00e3os dela, primos e primas.<\/p>\n<p>Os esquecimentos e a distra\u00e7\u00e3o eram &#8220;comuns&#8221;. Os atrasos, tamb\u00e9m uma constante,\u00a0 aumentaram, assim como a teimosia, a irrita\u00e7\u00e3o, as brigas, as perdas cognitivas, a perda auditiva e a nega\u00e7\u00e3o em usar aparelho. At\u00e9 chegar aos desaparecimentos durante viagens e passeios e a nega\u00e7\u00e3o de usar o celular,\u00a0 desligado na bolsa.<\/p>\n<p>Entre as estrat\u00e9gias de convencimento familiar estava mostrar os exames do neurologista e levar os familiares mais pr\u00f3ximos \u00e0 consulta com o neuropsic\u00f3logo. Todos responderam question\u00e1rios sobre as mudan\u00e7as da Carmencita e receberem informa\u00e7\u00f5es coletivas sobre dem\u00eancias.<\/p>\n<p>Em uma casa onde a cafeteira passava todo dia ligada, o caf\u00e9 seguiu como parte da recep\u00e7\u00e3o \u00e0s visitas, agora descafe\u00ednado. A cerveja estava dispon\u00edvel na geladeira, sem r\u00f3tulo e com zero \u00e1lcool.<\/p>\n<p>A vida seguiu com cuidadoras e cuidadores que eram apresentados como professora de espanhol, personal treiner ou empregada. Assim foi poss\u00edvel que permanecesse durante alguns anos na sua casa.<\/p>\n<p>Depois de vir morar em Bras\u00edlia comigo, outros cuidados foram necess\u00e1rios. Entre eles disfar\u00e7ar os rem\u00e9dios entre a comida ou bebida para n\u00e3o serem jogados fora.<\/p>\n<p>As festas, como dia das m\u00e3es ou Natal, ficaram mais restritas. Sem muitos ruidos, m\u00fasicas altas, gritos ou risadas altas que incomodam pacientes com dem\u00eancias. A ida a restaurantes foram restringidas pela demora no atendimento. At\u00e9 a pandemia, seguiram os passeios di\u00e1rios na rua e em parques.<\/p>\n<p>Contraditoriamente, foi durante a doen\u00e7a que lhe tirou a\u00a0 mem\u00f3ria, a independ\u00eancia e a identidade, que minha m\u00e3e disse que me amava&#8230;\u00a0Nem tudo foram perdas&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; O texto de hoje \u00e9 um relato pessoal da Cosette sobre sua rela\u00e7\u00e3o de filha \u00fanica com a m\u00e3e, Carmencita, que teve Alzheimer. Temos a certeza de que nem tudo s\u00e3o perdas, apesar das dem\u00eancias. Mesmo que as rela\u00e7\u00f5es humanas n\u00e3o sejam f\u00e1ceis. 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