{"id":1522,"date":"2023-04-03T07:00:12","date_gmt":"2023-04-03T10:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=1522"},"modified":"2023-04-05T08:22:33","modified_gmt":"2023-04-05T11:22:33","slug":"meu-pai-quer-voltar-para-casa-e-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2023\/04\/03\/meu-pai-quer-voltar-para-casa-e-agora\/","title":{"rendered":"Meu Pai Quer Voltar para Casa. E Agora?"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Um dos temas mais recorrentes nos grupos de apoio sobre dem\u00eancias diz respeito aos familiares que pedem para &#8220;voltar para casa&#8221;.<\/p>\n<p>Mesmo que se trate de uma casa imagin\u00e1ria, que existe apenas no mundo das lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia ou da adolesc\u00eancia, as fam\u00edlias em geral, e as cuidadoras familiares em particular,\u00a0 tendem a ficar sem a\u00e7\u00e3o ou resposta frente ao pedido.<\/p>\n<p>Algumas cuidadoras ficam magoadas e at\u00e9 ofendidas com o familiar. \u00c9 comum dar\u00a0 uma resposta autom\u00e1tica: &#8220;mas voc\u00ea est\u00e1 em casa&#8221;. E tentar convencer a pessoa doente de que est\u00e1 &#8220;tudo bem&#8221;. Mesmo que ela tenha esquecido e siga sem reconhecer a casa onde mora ou mesmo o seu quarto.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode imaginar o pavor da pessoa com dem\u00eancia ao escutar que esse lugar irreconhec\u00edvel \u00e9 o seu lar, mesmo que seja dito por algu\u00e9m que ela tem carinho, como uma cuidadora?<\/p>\n<p>Sugerimos n\u00e3o tentar convencer, argumentar ou rebater a pessoa com dem\u00eancia. Ela n\u00e3o est\u00e1 mentindo. N\u00e3o reconhece mais esse lugar como a sua casa.<\/p>\n<p>Uma op\u00e7\u00e3o para evitar o sofrimento dos dois lados \u00e9 desviar a aten\u00e7\u00e3o mudando de assunto.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode falar de parentes e amigos que a pessoa ainda lembre. Ou mostrar \u00e1lbuns de fotografias. Pode comentar casos engra\u00e7ados que ocorreram na fam\u00edlia. Convidar parentes (previamente avisados) a fazer v\u00eddeochamadas para &#8220;combinar a viagem&#8221;.<\/p>\n<p>Outra possibildiade \u00e9 combinar de &#8220;voltar para casa&#8221; depois do almo\u00e7o, depois do lanche da tarde. Ou a noite, pois o tr\u00e2nsito \u00e9 mais tranquilo.<\/p>\n<p>Se o grau de ansiedade do paciente for grande e n\u00e3o for poss\u00edvel contornar a situa\u00e7\u00e3o com outras hist\u00f3rias,\u00a0 des\u00e7a at\u00e9 o t\u00e9rreo com a pessoa doente, caso more em apartamento. Combine previamente com o porteiro ou uma vizinha, de avisar sobre uma tempestade fict\u00edcia que est\u00e1 por cair e sobre o risco de acidentes da estrada. E recombine a viagem para outro dia.<\/p>\n<p>A desorienta\u00e7\u00e3o espacial faz parte das caracter\u00edsticas das dem\u00eancias e pode ocorrer no est\u00e1gio inicial. Ela acontece quando o paciente n\u00e3o reconhece onde est\u00e1. Neste caso, n\u00e3o \u00e9 raro que a pessoa enferma tente fugir\u00a0 para voltar ao &#8220;verdadeiro lar&#8221;.<\/p>\n<p>Quando os pacientes moram\u00a0 em uma casa, a possibilidade de sair \u00e9 maior,\u00a0 ainda mais se a pessoa possui n\u00edveis de independ\u00eancia. \u00c0s vezes,\u00a0 a rua est\u00e1 ao alcance da porta ou de uma porta e um port\u00e3o. Diferente dos apartamentos que, em geral, possuem portarias e c\u00e2meras de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>O risco \u00e9 que esses pacientes se percam na rua e n\u00e3o saibam voltar, pois n\u00e3o reconhecem mais trajetos que costumavam fazer sozinhos ou com outros familiares.<\/p>\n<p>Vamos contar alguns exemplos.\u00a0A Cosette tem um tio com Alzheimer.<\/p>\n<p>\u00c9 um dos irm\u00e3os da m\u00e3e, que tamb\u00e9m tinha Alzheimer. Ele conseguiu &#8220;sair&#8221; tr\u00eas vezes.\u00a0 Foram mais cinco horas de desespero na fam\u00edlia com buscas. Em uma delas, ele chegou ao centro da cidade at\u00e9 ser resgatado pela fam\u00edlia. Outra vez, o filho recorreu \u00e0 ajuda de taxistas do bairro para localizar o pai. A partir da\u00ed, a seguran\u00e7a foi refor\u00e7ada e ele n\u00e3o ficou mais sozinho.<\/p>\n<p>O padrasto da Ana sa\u00eda de carro dizendo que ia a algum lugar e se perdia. A fam\u00edlia ficava rodando o Lago Norte atr\u00e1s dele. J\u00e1 a m\u00e3e da Ana\u00a0 escapava de carro, o que obrigou a fam\u00edlia a tirar pe\u00e7as do ve\u00edculo para que n\u00e3o funcionasse mais. O passo seguinte foi vender o carro.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de uma das participantes do Coletivo na semana passada fugiu mais uma vez, deixando a cuidadora trancada em casa. A sorte foi que o porteiro viu a paciente pela c\u00e2mera de seguran\u00e7a e avisou o filho a tempo.<\/p>\n<p>Outra participante, cuja m\u00e3e tinha Alzheimer, tamb\u00e9m fugia. Em uma ocasi\u00e3o,\u00a0 escapou de camisola, foi atropelada e levada ao Hospital de Base em Bras\u00edlia como indigente. Demorou para que fosse localizada.<\/p>\n<p>Consideramos importante que os pacientes levem sempre consigo uma pulseira com dados pessoais e contatos dos familiares. Os dados e contatos tamb\u00e9m devem estar dispon\u00edveis na carteira, na(s) bolsa(s) e junto ao documento de identidade.<\/p>\n<p>A portaria do pr\u00e9dio,\u00a0 do condom\u00ednio, os vizinhos e atendentes de lojas pr\u00f3ximas podem ser\u00a0 bons aliados no cuidado. Podem ser contactados, sensibilizadas e receber (nos diferentes turnos) cartazes com fotos da pessoa com dem\u00eancia, assim como os contatos telef\u00f4nicos de familiares.<\/p>\n<p>O mais importante \u00e9 n\u00e3o se desesperar e utilizar diferentes estrategias, de acordo com o perfil da pessoa. E lembrar: os pacientes n\u00e3o fazem isso contra voc\u00ea. Na medida que v\u00e3o perdendo a mem\u00f3ria, passam a viver em um mundo paralelo, perdidos em mem\u00f3rias entrecortadas.<\/p>\n<p>PS: Nesta quinta-feira, 06\/04, teremos <strong>Roda de Conversa On Line<\/strong>\u00a0 das 19 \u00e0s 20h30 sobre temas relacionados \u00e0s dem\u00eancias. Coordena\u00e7\u00e3o da fonoaudi\u00f3loga Manoela Dias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; Um dos temas mais recorrentes nos grupos de apoio sobre dem\u00eancias diz respeito aos familiares que pedem para &#8220;voltar para casa&#8221;. 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