{"id":1506,"date":"2023-03-20T07:00:07","date_gmt":"2023-03-20T10:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=1506"},"modified":"2023-03-20T07:16:37","modified_gmt":"2023-03-20T10:16:37","slug":"quem-cuida-de-quem-cuida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2023\/03\/20\/quem-cuida-de-quem-cuida\/","title":{"rendered":"Quem Cuida de Quem Cuida?"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro, Cosette Castro &amp; Convidada<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; A pergunta do t\u00edtulo foi uma das primeiras que fizemos quando criamos o Coletivo Filhas da M\u00e3e h\u00e1 03 anos. No dia dedicado \u00e0s pessoas que cuidam pessoas idosas (20\/03),\u00a0 a resposta se torna cada vez mais urgente.<\/p>\n<p>Para refletir sobre o tema convidamos a Doutora em Pol\u00edtica Social da UnB, Gisele Arag\u00e3o que participa do Coletivo Filhas da M\u00e3e. Servidora p\u00fablica, h\u00e1 alguns anos trocou o Distrito Federal pelo Cear\u00e1 para participar de perto do cuidado de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Gisele Arag\u00e3o &#8211; &#8220;O Estado brasileiro, ao longo da sua hist\u00f3ria, tem mostrado que a quest\u00e3o da mulher n\u00e3o \u00e9 uma de suas prioridades. Quero aproveitar o m\u00eas do Dia Internacional da Mulher para fazer uma reflex\u00e3o sobre o tema &#8216;cuidado&#8217; que, no Brasil, est\u00e1 ligado \u00e0 mulher.<\/p>\n<p>As mulheres de todas as faixas et\u00e1rias \u2014 sobretudo aquelas mais fragilizadas e desvalorizadas pelo contexto socioecon\u00f4mico e cultural \u2014 s\u00e3o compelidas a assumir o cuidado de um familiar, independente da idade.<\/p>\n<p>O cuidado \u00e9 realizado no \u00e2mbito domiciliar e abrange o trabalho dom\u00e9stico. Ele \u00e9 realizado majoritariamente por mulheres, sem remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo\u00a0 <a href=\"https:\/\/apolitical.co\/solution-articles\/pt\/como-valorizar-nao-pago-cuidado-trabalhar-a-10-trilhoes-questao\">pesquisa<\/a> da\u00a0 McKinsey, publicada em 2018, esposas, m\u00e3es, irm\u00e3s, filhas, ou seja, as mulheres, fazem cerca de 75% do trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o-remunerado no mundo. Isso representa 13% do PIB mundial. O sistema capitalista funciona porque existem mulheres trabalhando de forma n\u00e3o-remunerada.<\/p>\n<p>A falta de creches p\u00fablicas e com pre\u00e7os acess\u00edveis, por exemplo, obriga as mulheres a cuidarem dos beb\u00eas e tamb\u00e9m das crian\u00e7as em idade escolar. Ao cuidado dos filhos e enteados, agrega-se o da casa com realiza\u00e7\u00e3o das atividades dom\u00e9sticas, inclusive a alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o envelhecimento no n\u00facleo familiar aumenta a necessidade de cuidado. Al\u00e9m de crian\u00e7as e adolescentes, pais ou sogros idosos tamb\u00e9m demandam aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Estado, por sua vez, at\u00e9 hoje n\u00e3o proporcionou a estrutura necess\u00e1ria para oferecer a aten\u00e7\u00e3o e os cuidados da popula\u00e7\u00e3o envelhecida. Isto \u00e9, se desresponsabiliza, tratando o cuidado como algo restrito \u00e0s fam\u00edlias.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias, por sua vez. empurram para as mulheres a responsabilidade pelo cuidado tamb\u00e9m das pessoas 60 anos ou +.<\/p>\n<p>O envelhecimento progressivo das pessoas idosas exige que as cuidadoras familiares desenvolvam diferentes habilidades. Elas incluem o preparo para lidar com situa\u00e7\u00f5es inesperadas e perdas. Requerem equil\u00edbrio emocional, condicionamento f\u00edsico e recursos financeiros. Sem contar o est\u00edmulo de v\u00ednculos afetivos nem sempre existentes na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do cuidado direto, \u00e9 necess\u00e1rio considerar o desgaste gerado pelos aspectos legais que a situa\u00e7\u00e3o imp\u00f5e \u00e0s pessoas idosas com algum tipo de dem\u00eancia. E os custos financeiros para quem \u00e9 respons\u00e1vel pelo cuidado familiar.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do beb\u00ea, a pessoa idosa com dem\u00eancia gradativamente perde sua autonomia e independ\u00eancia. Este \u00e9 um processo dif\u00edcil para o familiar quando ainda tem no\u00e7\u00e3o das suas perdas cognitivas. E tamb\u00e9m para quem se responsabiliza pelo ente querido.<\/p>\n<p>A sobrecarga f\u00edsica e emocional de quem assume os cuidados \u00e9 muito maior do que para o restante da fam\u00edlia. Isso ocorre porque quem cuida est\u00e1 diretamente envolvido no cotidiano do cuidado.<\/p>\n<p>No Brasil, as iniciativas p\u00fablicas de cuidado direcionadas \u00e0s cuidadoras familiares s\u00e3o pontuais, pulverizadas e insuficientes.<\/p>\n<p>Por outro lado, os pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia tratam o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o com diversas medidas: benef\u00edcios em dinheiro, isen\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias e oferecem prote\u00e7\u00e3o para trabalhadoras e trabalhadores que s\u00e3o respons\u00e1veis por um familiar. Entre elas, a flexibiliza\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rio no trabalho.<\/p>\n<p>No Brasil, a pol\u00edtica nacional de cuidados est\u00e1 apenas engatinhando. Um grupo de trabalho Interministerial foi anunciado pelo governo federal para estudar o tema no dia 08 de mar\u00e7o.\u00a0Precisamos urgente de pol\u00edticas p\u00fablicas de cuidado que reconhe\u00e7am o tempo gratuito dedicado pela cuidadora familiar \u00e0 pessoa idosa. Essas mulheres precisam de ajuda e aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cabe ao Estado \u2014 nas esferas federal, estadual e municipal \u2014 assim como \u00e0 sociedade civil organizada discutir e apresentar pol\u00edticas p\u00fablicas para cuidar de quem cuida.<\/p>\n<p>Isso significa: 1.reconhecer como trabalho o cuidado familiar, 2. regulamentar licen\u00e7as para a pessoa respons\u00e1vel pelo cuidado familiar e 3. reconhecer o tempo de trabalho dedicado ao cuidado familiar como tempo para aposentadoria.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 importante 4. incentivar a guarda parental compartilhada da pessoa idosa entre homens e mulheres.\u00a0Tais atitudes poder\u00e3o minimizar o impacto do envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o brasileira nos pr\u00f3ximos anos.&#8221;<\/p>\n<p>No Coletivo Filhas da M\u00e3e acreditamos na urg\u00eancia das 04 propostas acima.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m na necessidade de: 5. cria\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o de cuidadoras comunit\u00e1rias\/sociais que vivam nos territ\u00f3rios para realizar semalmente visitas \u00e0s pessoas idosas, diminuindo a carga das cuidadoras familiares.<\/p>\n<p>Tais medidas poder\u00e3o reduzir a desigualdade de g\u00eanero existente no cuidado familiar no Brasil e contribuir para a sa\u00fade f\u00edsica e mental das cuidadoras.<\/p>\n<p>PS: Ter\u00e7a, dia 21, o programa TERCEIRAS INTEN\u00c7\u00d5ES est\u00e1 de volta das 19h \u00e0s 20h Convidada de mar\u00e7o: Guacira Oliveira, da Ong CFEMEA. Presencial (Colabora, na 507 da Asa Sul) e on line ( canal do YouTube Filhas da M\u00e3e Coletivo).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro, Cosette Castro &amp; Convidada Bras\u00edlia &#8211; A pergunta do t\u00edtulo foi uma das primeiras que fizemos quando criamos o Coletivo Filhas da M\u00e3e h\u00e1 03 anos. No dia dedicado \u00e0s pessoas que cuidam pessoas idosas (20\/03),\u00a0 a resposta se torna cada vez mais urgente. Para refletir sobre o tema convidamos a Doutora em Pol\u00edtica Social da UnB, Gisele [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":126,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[762],"tags":[8,20,7,591,5,763,764,213],"class_list":["post-1506","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica-nacional-de-cuidado","tag-alzheimer","tag-cuidadoras-familiares","tag-demencias","tag-dieese","tag-envelhecimento","tag-gisele-aragao","tag-mckinsey","tag-politica-nacional-de-cuidado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1506","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/users\/126"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1506"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1506\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1511,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1506\/revisions\/1511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1506"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1506"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1506"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}