{"id":1340,"date":"2022-12-30T07:00:05","date_gmt":"2022-12-30T10:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=1340"},"modified":"2022-12-30T11:54:19","modified_gmt":"2022-12-30T14:54:19","slug":"a-arte-do-diagnostico-nas-demencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2022\/12\/30\/a-arte-do-diagnostico-nas-demencias\/","title":{"rendered":"A Arte do Diagn\u00f3stico nas Dem\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro, Cosette Castro &amp; Convidada<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Uma das grandes dificuldades as que as fam\u00edlias encontram quando um parente come\u00e7a a apresentar perda cognitiva e outros comportamentos diferentes, como se tornar mais agressivo, ter esquecimentos ou mesmo se perder, \u00e9\u00a0 chegar a um diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>Levando em conta esse desafio, convidamos a m\u00e9dica Andrea Prates, geront\u00f3loga, especialista em promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade que h\u00e1 cerca de 40 anos estuda envelhecimento, para escrever sobre o tema. Como lembra nossa convidada,\u00a0 o diagn\u00f3stico \u00e9 complexo e uma investiga\u00e7\u00e3o detalhada.<\/p>\n<p>Andrea Prates &#8211; &#8220;Desde que comecei a estudar envelhecimento, n\u00e3o h\u00e1 nada que tenha mudado mais do que o conhecimento sobre o c\u00e9rebro e doen\u00e7as neurodegenerativas. Ainda h\u00e1, entretanto, pontos importantes que n\u00e3o foram elucidados.<\/p>\n<p>As dem\u00eancias s\u00e3o consequ\u00eancia da deposi\u00e7\u00e3o de determinadas subst\u00e2ncias proteicas no c\u00e9rebro. Ao identific\u00e1-las, tivemos avan\u00e7os na verifica\u00e7\u00e3o dos mecanismos envolvidos no seu desencadeamento. Se antes busc\u00e1vamos conhecer as \u00e1reas encef\u00e1licas que sofriam mudan\u00e7as estruturais, hoje indagamos quais prote\u00ednas est\u00e3o presentes em cada fase.<\/p>\n<p>Com isso, temos um diagn\u00f3stico biol\u00f3gico que, associado ao cl\u00ednico, caracteriza os est\u00e1gios que se sucedem na doen\u00e7a, em um continuum patol\u00f3gico. Da fase pr\u00e9-cl\u00ednica, temos um per\u00edodo inicial totalmente assintom\u00e1tico, seguido por um decl\u00ednio cognitivo sutil, e posteriormente objetivo, levando a um leve comprometimento funcional. Nos est\u00e1gios posteriores, temos a dem\u00eancia cl\u00ednica em suas fases leve, moderada e severa, com quadros sintom\u00e1ticos e progressivos de perda de mem\u00f3ria e fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, h\u00e1 consenso que as dem\u00eancias t\u00eam um longo per\u00edodo de evolu\u00e7\u00e3o, de cerca de 20 anos, antes da manifesta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o celular. Por isso a necessidade de atuar em fatores de risco e prote\u00e7\u00e3o, modific\u00e1veis, ao longo das fases da vida. E, ter o diagn\u00f3stico o mais cedo poss\u00edvel, possibilitando definir interven\u00e7\u00f5es que podem contribuir de forma mais favor\u00e1vel ao curso da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico \u00e9 complexo. Ao contr\u00e1rio de outras patologias, que podem ser identificadas atrav\u00e9s da cl\u00ednica e exames laboratoriais, a s\u00edndrome demencial exige uma investiga\u00e7\u00e3o mais acurada.<\/p>\n<p>O que poucos entendem \u00e9 que, neste caso, o diagn\u00f3stico \u00e9 um processo e compreende etapas, pois s\u00f3 seria confirmado pela an\u00e1lise do tecido cerebral, ap\u00f3s a morte.<\/p>\n<p>Inclui avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dica ampla, com o levantamento da hist\u00f3ria pessoal e familiar do indiv\u00edduo. Passa pela exclus\u00e3o de outras doen\u00e7as que podem cursar com quadros semelhantes, como depress\u00e3o e outros problemas de sa\u00fade mental, infec\u00e7\u00f5es, dist\u00farbios metab\u00f3licos, car\u00eancias nutricionais, intoxica\u00e7\u00e3o, traumatismo craniano e outras doen\u00e7as neurol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio aplicar testes psicol\u00f3gicos de estado mental e fun\u00e7\u00e3o cognitiva, verificar exames laboratoriais capazes de detectar condi\u00e7\u00f5es que podem afetar a fun\u00e7\u00e3o cerebral, e exames de imagem, que conseguem verificar a exist\u00eancia de problemas neurol\u00f3gicos e mostrar eventuais modifica\u00e7\u00f5es na estrutura cerebral.<\/p>\n<p>A detec\u00e7\u00e3o de biomarcadores, como a prote\u00edna TAU no l\u00edquor (l\u00edquido cefalorraquidiano), permite fazer o diagn\u00f3stico com mais fidedignidade, apesar de ter restri\u00e7\u00f5es em alguns casos.<\/p>\n<p>O uso de modelos de intelig\u00eancia artificial tem mostrado potencial aux\u00edlio no diagn\u00f3stico, especialmente por detectar v\u00e1rios par\u00e2metros funcionais simultaneamente.<\/p>\n<p>Infelizmente, apesar de promissoras, muitas t\u00e9cnicas n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis na pr\u00e1tica cl\u00ednica. E os desafios s\u00e3o enormes, a come\u00e7ar pelo fato de poucos m\u00e9dicos, al\u00e9m de especialistas, terem conhecimento e\/ou habilidade para o diagn\u00f3stico.\u00a0 Os exames mais sofisticados de imagem e os biomarcadores existem apenas nos grandes centros, n\u00e3o s\u00e3o cobertos pelos planos de sa\u00fade e t\u00eam custo elevado. S\u00e3o reservados para rastreio de pacientes para inclus\u00e3o em estudos e monitoramento de respostas a drogas.<\/p>\n<p>Os progressos s\u00e3o not\u00e1veis. Por\u00e9m, os desafios envolvendo o diagn\u00f3stico permanecem. Al\u00e9m de muito estudo, \u00e9 preciso tempo, envolvimento, observa\u00e7\u00e3o. E, sobretudo, sensibilidade apurada no entendimento de cada indiv\u00edduo e sua din\u00e2mica de rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Se ARTE significa t\u00e9cnica ou disposi\u00e7\u00e3o para a execu\u00e7\u00e3o de uma finalidade pr\u00e1tica ou te\u00f3rica, realizada de forma consciente e racional, n\u00e3o vejo melhor forma de retratar a investiga\u00e7\u00e3o e o acompanhamento de um portador ou portadora de s\u00edndrome demencial.<\/p>\n<p>Este n\u00e3o \u00e9 o diagn\u00f3stico de um indiv\u00edduo. Estende-se ao seu coletivo familiar e social. Requer empatia. Demanda decis\u00f5es em \u00e2mbitos pessoais, familiares, sociais e jur\u00eddicos. Exige rever\u00eancia \u00e0 hist\u00f3ria, honra \u00e0 biografia, respeito \u00e0s escolhas \u2013 sempre que poss\u00edvel \u2013 da pessoa \u00e0 nossa frente. Faz todos n\u00f3s mais humanos. E isso \u00e9 uma verdadeira arte&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00f3s, do Coletivo Filhas da M\u00e3e, tamb\u00e9m acreditamos que \u00e9 preciso avaliar cada paciente de forma integral, levando em conta sua realidade, o contexto onde vive, respeitando sua hist\u00f3ria familiar e origens. E que precisamos urgentemente formar profissionais da \u00e1rea da sa\u00fade sobre as dem\u00eancias que tenham condi\u00e7\u00f5es de fazer um\u00a0 diagn\u00f3stico respeitoso. Humano.<\/p>\n<p>PS: A doutora Andrea Prates tem uma p\u00e1gina web sobre envelhecimento, em especial envelhecimento feminino (<a href=\"https:\/\/draandreaprates.com.br\/\">leia aqui<\/a>).<\/p>\n<p>PS1:\u00a0Acabamos de lan\u00e7ar o livro &#8220;Filhas da M\u00e3e Com Muito Orgulho, Apesar da Pandemia e das Dem\u00eancias&#8221;. Voc\u00ea pode comprar seu exemplar em todo pa\u00eds no site da Portal Editora (link aqui) e em Bras\u00edlia diretamente na livraria Sebinho (406 Norte).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro, Cosette Castro &amp; Convidada Bras\u00edlia &#8211; Uma das grandes dificuldades as que as fam\u00edlias encontram quando um parente come\u00e7a a apresentar perda cognitiva e outros comportamentos diferentes, como se tornar mais agressivo, ter esquecimentos ou mesmo se perder, \u00e9\u00a0 chegar a um diagn\u00f3stico. 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