{"id":1309,"date":"2022-12-26T07:00:07","date_gmt":"2022-12-26T10:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=1309"},"modified":"2022-12-26T13:44:31","modified_gmt":"2022-12-26T16:44:31","slug":"ninguem-solta-mao-de-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2022\/12\/26\/ninguem-solta-mao-de-ninguem\/","title":{"rendered":"Ningu\u00e9m Solta M\u00e3o de Ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro, Cosette Castro &amp; Convidada<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211;\u00a0 Seguimos a comemora\u00e7\u00e3o de 3 anos do Coletivo Filhas da M\u00e3e apresentando o texto de mais uma\u00a0 parceira. Hoje nossa convidada \u00e9 Miriam Morata, cujas p\u00e1ginas no Facebook t\u00eam cerca de 50 mil seguidores.<\/p>\n<p>Autora dos livros\u00a0\u00a0&#8220;Alzheimer, Di\u00e1rio do Esquecimento&#8221;, &#8220;Alzheimer, Recolhendo os Peda\u00e7os&#8221; e &#8220;Alzheimer, Assombro e Cura do Cuidador&#8221;, Miriam Morata encanta com seus textos e jeito divertido de ser. Neles, relata os desafios que enfrentou ao cuidar dos pais com Alzheimer. Como no artigo a seguir.<\/p>\n<p>Miriam Morata &#8211;\u00a0\u00a0\u201cEle sempre andou na minha frente e eu o seguia, com misto de orgulho e medo de n\u00e3o conseguir acompanhar seu passo. Ele nunca me dava a m\u00e3o, mas olhava para tr\u00e1s o tempo todo, para\u00a0 se certificar que eu continuava por perto, acompanhando seus passos. No meu tempo e do meu jeito.<\/p>\n<p>Isso me ensinou que, \u00e0s vezes, n\u00e3o precisamos segurar a m\u00e3o, para nos sentirmos seguros. Basta uma r\u00e1pida parada e um olhar em nossa dire\u00e7\u00e3o, para termos certeza que n\u00e3o estamos sozinhos.<\/p>\n<p>Um dia o Alzheimer, desrespeitosamente, invadiu o nosso mundo. Ele diminui os passos e eu tamb\u00e9m. Aos poucos comecei a caminhar na frente e quando olhei para tr\u00e1s, ele estava parado, me olhando sem entender nada. Sem saber quem era aquela mulher que, desesperadamente, tentava faz\u00ea-lo caminhar ao seu lado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu entendi que n\u00e3o haveria mais o olhar, ou a r\u00e1pida parada para que ele se certificasse que eu ainda estava l\u00e1. Agora eu estava sozinha e ao lado dele tentando caminhar junto. Nunca saberei se por mim ou por ele.<\/p>\n<p>Aos poucos ele parou de andar, falar, olhar e ver. Seus olhos n\u00e3o me alcan\u00e7avam mais e eu experimentei a solid\u00e3o mais assustadora e visceral que um humano conseguiria imaginar. Meu pai n\u00e3o estava mais l\u00e1. Os olhos vazios me olhavam e n\u00e3o me viam.<\/p>\n<p>Ele foi saindo do meu mundo e eu continuei correndo atr\u00e1s dele, batendo em todas as portas implorando para que me deixasse entrar. Pelo menos na varanda desse universo estranho e desprovido de hist\u00f3rias, fotografias, cumplicidade&#8230;<\/p>\n<p>Nesse novo mundo recheado de palavras inventadas, frases desconexas, del\u00edrios, medos, ele fechou todas as portas e n\u00e3o deixou sequer uma fresta para que eu pudesse acompanhar esse homem que, um dia, foi a estrela do meu espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Quando a solid\u00e3o come\u00e7ou a sufocar, eu entendi que precisava de um gesto humano ou qualquer coisa que me acolhesse. Ansiava por uma palavra que desse significado para essa loucura e me ajudasse a compreender um pouco sobre a fragilidade humana. Algu\u00e9m que me ajudasse a soltar minhas certezas \u201cabsolutas e cristalizadas\u201d. Um amigo ou um estranho que desacelerasse o passo e olhasse para tr\u00e1s, s\u00f3 para\u00a0 se certificar que ainda estou caminhando.<\/p>\n<p>Eu precisava desesperadamente de algu\u00e9m que me estendesse a m\u00e3o e me lembrasse que sou humana. E isso \u00e9 muito pouco para compreender ou mudar a hist\u00f3ria de algu\u00e9m amado.<\/p>\n<p>Muito mais do que o medo, o esgotamento f\u00edsico e mental ou o luto antecipado, a solid\u00e3o sufoca e mata um pouco a cada dia, a cuidadora e o\u00a0 cuidador familiar.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa se quem estende a m\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m amado ou um estranho que tamb\u00e9m busca respostas, um gesto ou qualquer coisa que nos acolha. Se eu puder dar apenas um conselho para a cuidadora e o cuidador familiar \u00e9: n\u00e3o fique sozinho, somos muitos e precisamos uns dos outros para suportar esse triste e assustador peda\u00e7o da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Procure grupos, vizinhos, gente que aceite o desafio de estender a m\u00e3o em sua dire\u00e7\u00e3o e depois, aceite o desafio de, humildemente, segurar essa m\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>N\u00f3s, do Coletivo Filhas da M\u00e3e seguimos acolhendo cuidadoras familiares. Sim, no feminino, pois somos a maioria das pessoas que cuidam no Brasil, sejam familiares ou profissionais.\u00a0 E j\u00e1 estamos planejando campanhas para estimular que os homens saiam do lugar de &#8220;ajudantes&#8221;, para cuidar lado a lado, de m\u00e3os dadas.<\/p>\n<p>PS1:\u00a0 Na ter\u00e7a-feira, dia 27, vai ao ar o \u00faltimo programa Terceiras Inten\u00e7\u00f5es de 2022. A convidada \u00e9 a Maria Cristina Hoffmann, psic\u00f3loga e especialista em envelhecimento. Para assistir, <a href=\"https:\/\/youtu.be\/tCHW2Ck33Pc\">acesse aqui<\/a>.<\/p>\n<p>PS2: Se voc\u00ea \u00e9 seguidora\/o da Miriam\u00a0 e ainda n\u00e3o conhece o Coletivo Filhas da M\u00e3e, acompanhe nossas redes sociais digitais\u00a0 Estamos no Facebook e no YouTube (Filhas da M\u00e3e Coletivo), no Instagram (@blocofilhasdam\u00e3e) e\u00a0 temos 2 grupos no WhatsApp.<\/p>\n<p>PS3: Acabamos de lan\u00e7ar o livro &#8220;Filhas da M\u00e3e Com Muito Orgulho, Apesar da Pandemia e das Dem\u00eancias&#8221;. Voc\u00ea pode comprar seu exemplar em todo pa\u00eds no site da Portal Editora (<a href=\"https:\/\/edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br\/novo\/categoria-produto\/livros\/\">link aqui<\/a>) e em Bras\u00edlia diretamente na livraria Sebinho (406 Norte).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro, Cosette Castro &amp; Convidada Bras\u00edlia &#8211;\u00a0 Seguimos a comemora\u00e7\u00e3o de 3 anos do Coletivo Filhas da M\u00e3e apresentando o texto de mais uma\u00a0 parceira. Hoje nossa convidada \u00e9 Miriam Morata, cujas p\u00e1ginas no Facebook t\u00eam cerca de 50 mil seguidores. 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