{"id":1233,"date":"2022-11-04T07:00:43","date_gmt":"2022-11-04T10:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=1233"},"modified":"2022-11-03T21:11:27","modified_gmt":"2022-11-04T00:11:27","slug":"hora-de-soltar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2022\/11\/04\/hora-de-soltar\/","title":{"rendered":"Hora de Soltar"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia \u2013 Na semana de finados, de chuva e tempo frio, vale a pena perguntar: quanto tempo demora para dar o click e aceitar que j\u00e1 \u00e9 hora de come\u00e7ar a tratar o familiar enfermo com cuidados paliativos?<\/p>\n<p>Estamos falando do dif\u00edcil, e muitas vezes longo, processo de aceita\u00e7\u00e3o da hora de soltar, abandonar a tentativa de controle, permitindo que o familiar doente possa descansar. O preparo para o momento de descanso pode ser feito com qualidade, com cuidado e amorosidade.<\/p>\n<p>Permitir o descanso final, possibilitando cuidados paliativos, leva tempo.\u00a0D\u00e1 culpa, medo, vergonha. E receio do que os outros v\u00e3o pensar. \u201cN\u00e3o quer cuidar\u201d, \u201cquer se livrar do familiar\u201d s\u00e3o algumas cr\u00edticas e falta de compreens\u00e3o de quem olha de fora, sem a responsabilidade do cuidado di\u00e1rio. Mas tamb\u00e9m pode dar al\u00edvio e a sensa\u00e7\u00e3o de respeito e dever cumprido.<\/p>\n<p>Para chegar a essa compreens\u00e3o, \u00e9 preciso antes o autocuidado.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 essencial para a sa\u00fade f\u00edsica e emocional das cuidadoras familiares. Inclui alimenta\u00e7\u00e3o nutritiva, sono de qualidade, exames anuais, exerc\u00edcios frequentes, vida social e, acompanhamento terap\u00eautico. Individual ou em grupo.<\/p>\n<p>Em geral, as cuidadoras familiares,\u00a0 d\u00e3o aten\u00e7\u00e3o \u00e0 rotina de alimentar, higienizar e medicar. Talvez realizar alguma atividade com a pessoa doente, como passear ou caminhar. E isso j\u00e1 \u00e9 bastante cansativo.<\/p>\n<p>Dificilmente sobra tempo para pensar na morte e na finitude. Olhar o processo de finitude do outro, particularmente algu\u00e9m que gostamos, simbolicamente significa se olhar no espelho. \u00c9 o (duro) reflexo da nossa pr\u00f3pria finitude.<\/p>\n<p>Se j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil acompanhar a finitude de um familiar, \u00e9 muito pior encarar o pr\u00f3prio envelhecimento e\u00a0 finitude.<\/p>\n<p>\u00c9 mais f\u00e1cil n\u00e3o pensar ou lembrar que todas temos, sim, um prazo de validade. E algum dia ele tamb\u00e9m vai expirar, com qualidade de vida. Ou n\u00e3o. Vai depender de como cada uma de n\u00f3s trata a si mesma hoje.<\/p>\n<p>O processo de acompanhar a finitude \u00e9 mais doloroso quando a pessoa n\u00e3o tem acompanhamento terap\u00eautico, nem est\u00e1 acostumada a observar e reconhecer seus sentimentos. \u00c0s vezes \u00e9 dif\u00edcil reconhecer a pr\u00f3pria dor que \u2013 por n\u00e3o ser reconhecida &#8211; pode se manifestar em forma de sintomas: ins\u00f4nia, depress\u00e3o, autoles\u00e3o, compuls\u00f5es, fibromialgia, dores de cabe\u00e7a, etc.<\/p>\n<p>\u00c9 algo similar ao come\u00e7o da doen\u00e7a de um familiar. A pessoa enferma envia sinais, mesmo inconscientes. Mas a fam\u00edlia em geral tem dificuldade de se dar conta. De notar que algo est\u00e1 diferente.<\/p>\n<p>Come\u00e7a com os esquecimentos de coisas recentes. Com desaprender ruas e bairros. Com n\u00e3o saber mais dirigir. N\u00e3o saber mais lidar com a conta banc\u00e1ria e com senhas. Ou aparecem\u00a0 &#8220;novas manias\u201d: criar muitos bichos, mudar radicalmente a forma de vestir. Sem contar uma poss\u00edvel perda do freio social, com coment\u00e1rios ou a\u00e7\u00f5es inadequadas.<\/p>\n<p>Muitas vezes temos dificuldade de perceber os primeiros sinais da doen\u00e7a, porque d\u00f3i muito. N\u00e3o temos mais o controle da situa\u00e7\u00e3o. Nem da nossa vida, nem do familiar.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m ocorre no final. Algumas cuidadoras ajudam a manter o familiar vivo por 10, 15, 20 anos, como um ato de cuidado e amor, mesmo que o enfermo n\u00e3o se levante mais ou n\u00e3o reconhe\u00e7a mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Ou que n\u00e3o queira mais comer e beber, em um sinal de que est\u00e1 chegando a sua hora. O corpo do familiar tamb\u00e9m envia sinais. Ainda assim, em geral, ampliamos a vida com sonda g\u00e1strica. Mesmo que a familiar arranque v\u00e1rias vezes aquele objeto estranho no seu corpo. Ou com aparelhos para respira\u00e7\u00e3o artificial. Mesmo que a pessoa n\u00e3o queira ou n\u00e3o consiga mais respirar.<\/p>\n<p>Apesar de todos os sinais, ainda temos medo dos cuidados paliativos. Mesmo sem conhecimento sobre o tema. Ainda que 9 em cada 10 brasileiros e brasileiras enfrentem uma doen\u00e7a grave antes de morrer. \u00c9 a falta de conhecimento que gera preconceito e descaso.<\/p>\n<p>Como alerta a geriatra\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2021\/05\/03\/voce-ja-ouviu-falar-em-testamento-vital\/\">Ana Claudia Arantes<\/a> a falta de acesso a esse tipo de cuidado beira a cat\u00e1strofe no Brasil. Ela afirma que cuidados paliativos s\u00e3o de ordem f\u00edsica, emocional, familiar, social e espiritual. S\u00e3o desenvolvidos por uma equipe multiprofissional qualificada para assistir portadores de doen\u00e7as graves ou que ameacem a vida.<\/p>\n<p>Os cuidados paliativos abrangem todos os recursos diagn\u00f3sticos e terap\u00eauticos dispon\u00edveis para ofertar suporte \u00e0 qualidade de vida do paciente e do seu entorno. A ideia \u00e9 aliviar e prevenir o sofrimento na evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, entender o processo de despedida, dando apoio a quem fica no per\u00edodo de luto.<\/p>\n<p>A vida pede respeito e dignidade. A morte tamb\u00e9m. Precisamos falar e aprender sobre esse assunto t\u00e3o delicado.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m seria salutar aprender a fazer o testamento vital (<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2021\/05\/03\/voce-ja-ouviu-falar-em-testamento-vital\/\">conhe\u00e7a aqu<\/a>i) deixando claro quais procedimentos desejamos que sejam realizados (ou n\u00e3o) quando ficarmos doentes. Com depend\u00eancia ou n\u00e3o. Um tabu que o envelhecimento acelerado precisa superar.<\/p>\n<p>PS: No s\u00e1bado, dia 5, haver\u00e1 o lan\u00e7amento em Bras\u00edlia do livro Tratado dos Ventos na Mar\u00e9 Cheia, da poetisa Cristiane Sebasti\u00e3o, na livraria Circulares (CLN 113, bloco A, loja 7), \u00e0s 17h.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia \u2013 Na semana de finados, de chuva e tempo frio, vale a pena perguntar: quanto tempo demora para dar o click e aceitar que j\u00e1 \u00e9 hora de come\u00e7ar a tratar o familiar enfermo com cuidados paliativos? 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