Cosette Castro & Natalia Duarte
Brasília – Fomos ensinadas a competir e a vencer. E aprendemos que vencer é levar a taça, a estatueta, o prêmio, os holofotes. No entanto, há várias formas de vencer.
Antes das quatro indicações ao Oscar, o filme “O Agente Secreto” já havia conquistado mais de 70 prêmios internacionais, reforçando o reconhecimento e respeito ao cinema brasileiro.
Mas a maior premiação veio da população: mais de 2 milhões de pessoas sairam de casa para assistir o filme no escurinho do cinema até fevereiro. E no domingo a noite, o orgulho do nosso audiovisual mais uma vez se espalhou pelas casas, bares, cinemas e nas ruas do Brasil.
O Blog de hoje também faz referência ao cinema brasileiro e a situação das mulheres no Brasil, em especial às mulheres negras. O filme é “A Melhor Mãe do Mundo”, da diretora Anna Muylaert, a mesma que assinou em 2015, o filme “Que Horas Ela Volta?”.
Nesta edição quem escreve sobre o tema, é Natalia Duarte, uma das coordenadoras do Coletivo Filhas da Mãe. Ela é cuidadora familiar e professora da UnB.
Natália Duarte – “Queremos parabenizar e agradecer a atividade promovida pelo Conselho Regional de Psicologia (CRP/DF), no dia 09/03. Um acerto de público e propósito: uma exibição sensível do filme ‘A Melhor Mãe do Mundo’, seguida de um debate que tocou fundo.
Representando o Coletivo, saí emocionada e convicta de que iniciativas assim são essenciais para ampliar olhares e políticas.
O filme acompanha Gal, uma mãe em situação de rua que foge da violência doméstica, expressão direta do patriarcado e da pobreza, e transforma sua luta em pequenas aventuras para os filhos. O filme mostra como a maternidade, mesmo nas condições mais precárias, pode ser um motor de resistência e imaginação. A narrativa evita o sensacionalismo e privilegia a dignidade das personagens.
A atuação de Shirley Cruz merece destaque: digna de Oscar, é intensa, contida e visceral, uma interpretação que atravessa o espectador. Ela encarna uma mulher no limite, perturbada, mas capaz de se empurrar para fora da opressão.
A presença da atriz no debate elevou o encontro. Suas falas sobre arte e transformação mostram que o cinema pode ser ferramenta de mudança social.
Um dos aspectos mais comoventes do filme é a representação da rede de proteção: sutil, frágil, mas real.
A rede está presente na escola pública onde os filhos e Gal se sentem acolhidos. Nas cooperativas de catadores que oferecem trabalho e pertencimento. Na prima que abre a casa, mesmo sobrecarregada cuidando do pai com Alzheimer. Na ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) que traz esperança e abrigo.
Esses pontos mostram que, apesar das lacunas, existem espaços de solidariedade na vida real que precisam ser fortalecidos por políticas públicas.
A urgência política é clara: superar o patriarcado, a violência e a pobreza exigem investimento em serviços sociais, educação pública de qualidade, apoio às cooperativas e políticas de moradia. Famílias como a de Gal e da prima dependem de uma rede de apoio robusta e contínua. Não apenas de gestos isolados.
O debate com Shirley Cruz foi o ponto alto do evento. Ela afirmou acreditar, junto com a diretora Anna Muylaert, na arte como forma de transformação e lembrou que tem uma filha de quatro anos. ‘Esse mundo vai ter que melhorar’.
Concordo com ela. Sou avó do Antônio de 02 meses e também quero um mundo melhor para as próximas gerações.”
PS: Você leu a última edição do Blog no Correio Braziliense? Traz uma reflexão sobre as eleições e a violência política de gênero. Precisamos de mais mulheres na política. (Link aqui)
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