Memória como Resgate da Identidade Individual e Coletiva

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Cosette Castro

Brasília – No mesmo dia em que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que a Capital Federal é a cidade com maior expectativa de vida do país, fui assistir o filme “Memória Infinita” (trailer aqui).

O documentário chileno dirigido por Maité Alberdi foi merecidamente indicado ao Oscar em 2024. O filme esteve presente em uma única noite (29) na 7a. Mostra do Cinema Latino-Americano e Caribenho de Brasília.

De forma delicada, o documentario conta a história do jornalista Augusto Góngora, que tinha Alzheimer, e sua companheira, a atriz Paulina Urrutia. O filme mostra o  cotidiano do casal e também o paradoxo da perda da memória e a luta diária pelo não esquecimento.

Góngora atuou durante anos para garantir que a memória coletiva não fosse apagada no Chile. Segundo ele, “ é muito importante reconstituir a memória. É sempre uma tentativa de olhar para si mesmo”.

De forma anônima ou pública, ontem a noite as pessoas que convivem com um familiar com demência tiveram a oportunidade de reconhecer a si mesmas em algum momento do filme.

Pensando nisso, resgatei  abaixo um texto publicado no Blog ainda em 2021, com o relato da última viagem com minha mãe, Carmencita, que também teve Alzheimer.

“Em dezembro de 2017 cheguei mais cedo ao Rio Grande do Sul para passar uns dias com minha mãe, que estava entrando na fase intermediária do Alzheimer.

Combinei com ela de nós duas  viajarmos pela Serra gaúcha e passar uns dias em Nova Petrópolis, onde mora um casal de amigos, cuja amizade dura mais  de 40 anos.

Aluguei um carro e lá fomos nós. Mãe e filha, naquela que seria nossa última viagem a passeio juntas. Fomos subindo a Serra devagar, parando, olhando a paisagem.

Almoçamos no templo budista de Três Irmãos, com minha mãe alternando momentos de bom e mau humor.

Em Nova Petrópolis havia reservado uma cabana em um local tranqüilo, com piscina, muito verde, comida saudável e uma pequena biblioteca para hóspedes aficionados por livros.

Até aquele momento eu ainda não tinha noção do impacto da mudança na rotina – ainda que temporária e por uma boa causa –  na vida de pacientes com demência.

Ao não reconhecer sua casa, trocada por um local estranho e  ter alterada a rotina diária, minha mãe  regrediu instantaneamente. Ela se perdia na pequena cabana de sala/cozinha, quarto e banheiro. Perguntava várias vezes ao dia onde era o banheiro. E todas as manhãs perguntava onde nós estávamos.

O local do café da manhã,  que ficava a 30 metros de distância, também era um espaço desconhecido e assustador para minha mãe. Carmencita, que adorava viajar, passear, entrar em lojas e descobrir restaurantes, estava com medo, arredia e perdida.

Apesar de ser um passeio lindo e de estar perto de amigos queridos, sentia minha mãe cada vez mais distante. Decidi reduzir os dias de viagem e voltamos para Porto Alegre.

Depois das festas de Natal e Ano Novo, próximo da data de voltar a Brasília,  estávamos caminhando pelo bairro e lembrei a ela que eu  tinha de voltar para casa.

Pela primeira vez em anos de demência, minha mãe disse que queria ir junto comigo para Brasília.

Era o momento que eu esperava. Organizei tudo, inclusive a seleção de cuidadoras, voltei para Porto Alegre e trouxe minha mãe para Brasília. Ela nunca pediu (ou lembrou de pedir) pra voltar para o Sul.

Minha mãe faleceu em janeiro de 2021 já na fase avançada da doença. Ela praticamente não me reconhecia mais”.

No Coletivo Filhas da Mãe acreditamos que a memória é um bem individual e coletivo que precisa ser estimulado todos os dias, independente da existência (ou não) de uma doença instalada.

PS1: No domingo, 01 de setembro, vamos estar caminhando no Parque Olhos D´Água, na quadra 413/414 Norte, em Brasília, a partir das 8h30. Depois da trilha e do lanche compartilhado, a partir das 10h,  vamos lançar a campanha SETEMBRO ROXO 2024  no Café com Chorinho,  dentro do Parque, distribuindo folhetos informativos sobre demências. Esperamos você!

Cosette Castro

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