Cuidado Não É Coisa (Só) de Mulher

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Ana Castro & Cosette Castro

Brasília – Apesar de termos o mesmo sobrenome, sempre precisamos repetir.  Não, não somos parentes.

A Ana veio da Bahia. Cosette nasceu no Rio Grande do Sul.  A vida nos ligou por vários caminhos comuns, cujas estradas se encontraram em Brasília.

Os parentes com demências, entre elas o Alzheimer. Os anos de cuidado familiar. O Jornalismo e o prazer de contar histórias. A vida em grupo e os projetos coletivos.

Temos como referência mulheres fortes. Mães, avós, tias avós. E bisavós.

No caso da Ana, uma avó era médica, mas era conhecida como parteira. Dona Cecília. Preconceitos. Era uma mulher negra. Um exemplo de solidariedade . Substituiu a avó materna, Lourdes, que escapou de um casamento abusivo deixando vida e filhos para trás. Ambas sustentaram a família e ajudavam outras mulheres. Independência financeira feminina era raro nos anos 40 e 50.

A bisavó materna da Cosette teve 12 filhos. Perdeu metade para a febre espanhola. Ficou viúva e criou cinco meninas e um menino, o caçula, sozinha. As filhas tiveram de casar com maridos escolhidos, com exceção da mais nova, a única que não se separou. As demais refizeram a vida.

Tivemos avós, tias avós e bisavós contadoras de histórias e de causos. Daquelas que reuniam netas e bisnetas na sala ou na cozinha onde ficávamos escutando atentamente.  Horas, segundo nossa percepção infantil e depois adolescente.

Eram historias que emocionavam. Faziam rir, chorar e estimulavam a imaginação apenas com a entonação da voz.

Histórias sobre bravura,  cemitérios e sobrenatural. Sobre verões e invernos marcantes. Sobre longos trajetos percorridos a pé. Sobre amores e traições. Sobre honra e feminicídios.

Histórias sobre mulheres. Mulheres fortes que sobreviveram em meio a uma sociedade feita pelos homens e para os homens.

Mulheres  que defenderam seus direitos em tempos em que não podiam trabalhar sem autorização do marido nem abrir conta bancária sozinha. Só com o marido. Mulheres que eram feministas e não sabiam.

Tivemos mães que foram para universidade. Mulheres mandonas, de voz ativa. Ao mesmo tempo, eram cheias de vida e ligadas à família. Também eram solidárias e trabalharam para reduzir as diferenças sociais no país.

Por elas enfrentamos  o Alzheimer.  Nos informamos, reunimos, participamos de associações. Aprendemos. Com outras mulheres, formamos o Coletivo Filhas da Mãe em dezembro de 2019. E passamos a multiplicar, compartilhar  experiências e estimular o autocuidado de quem cuida.

Elas Vieram Antes de Nós

Seguimos honrando as mulheres que vieram antes de nós.

Mulheres que foram invisibilizadas, como nós somos até hoje enquanto cuidadoras familiares. Elas não sabiam que a atividade de cuidado familiar é trabalho. E merece ser remunerado. Nós sabemos.

Mulheres que, muitas vezes,  foram preteridas em empregos ou cargos apenas pelo fato de serem mulheres. Que recebiam, como nós  recebemos até hoje, salários menores por um trabalho/função igual ao dos homens.

Mulheres que se desdobraram (e ainda se desdobram) para dar conta das diversas facetas do cuidado familiar. E que foram educadas para  acreditar  que o cuidado é “coisa de mulher”. Que é uma “missão de vida”. Não é.

Cuidado não tem gênero. É responsabilidade de toda família.

Cada vez que o Estado se omite e não protege as mulheres contribui para a sobrecarga física e emocional que leva boa parte das brasileiras à exaustão.

Isso tem nome: violência estrutural. Essa violência institucionalizada e naturalizada atinge mulheres de todas as idades, inclusive as mulheres idosas.

Nossas mães foram educadas a odiar o sobrepeso, a velhice e todo tipo de  imperfeição. Delas e das outras mulheres. Viveram suas vidas com rigidez buscando o impossível.

Como a maior parte das mulheres ainda hoje, elas negaram de várias maneiras a idade. Inclusive reforçando  que “não se pergunta a idade de uma mulher”.

Até quando  nossos representantes, aqueles que mobilizam e influenciam milhões de pessoas no país, vão reforçar o preconceito por idadade? E vão continuar negando inclusive a própria idade?

Até quando vão seguir negando o  processo de envelhecimento populacional?

Ou negar a urgência de implementar o Estatuto da Pessoa Idosa e a Política Nacional do Idoso (PNI, Lei 8842)  ampliando os direitos das pessoas 60+?

Precisamos urgentemente sair da Sociedade da Violência, inclusive a do Estado, para construir uma Sociedade do Cuidado para todas as idades.

Cosette Castro

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