Até Quando as Demências Seguirão Sendo Invisibilizadas no Brasil?

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Ana Castro & Cosette Castro

Brasília – Quase quatro casos de mortes por demências são registradas por hora no Brasil. Por hora.

A maior parte deles são óbitos em consequência de complicações por Alzheimer, o tipo mais comum de demência. Entre 2012 e 2022, o total de mortes associadas à demências cresceu 107%, passando de 15,6 mil para 32,4 mil. Desse total, 27,3 mil ocorreram por complicações por Alzheimer e as outras 5,1 mil relacionadas a outras demências.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de mortes por demências informadas foi maior que a taxa de crescimento da população com 60 anos ou mais no país. Algo em torno de 40% entre 2012 e 2022.

Os dados foram levantados no Datasus pelo jornal Estadão e publicados esta semana. Eles deveriam acender um sinal de alerta vermelho nas autoridades de saúde do Brasil. E na sociedade em geral.

Vivemos uma epidemia silenciosa e avassaladora. E os números podem ser ainda maiores. No Brasil ainda não existe obrigatoriedade de que os médicos registrem os casos de morte relacionados às demências. Enquanto isso não ocorrer, seguiremos sem informações reais sobre o tamanho do desafio que temos pela frente.

A falta de dados começa no número de pessoas diagnosticadas. Estima-se que no Brasil, cerca de 2 milhões de pessoas vivam com alguma forma de demência. Um número em descompasso com a realidade das subnotificações. Ou do tempo de espera para o diagnóstico: de dois a três anos nos planos de saúde e de três a quatro anos no SUS.

A expectativa é que os números tripliquem até 2050.

Segundo o Observatório Global das Demências (GDO, em inglês), no mundo o número de casos poderão chegar a mais de 150 milhões em 2050, atingindo principalmente as famílias de países em desenvolvimento, como o Brasil, com grande desigualdade social e econômica.

Para além do envelhecimento populacional, é preciso levar em conta as consequências da Covid-19 entre pessoas idosas, o que também pode ampliar os dados sobre a doença.

As demências precisam urgentemente ser entendidas como uma prioridade na saúde pública. Particularmente se levarmos em conta as estimativas do Ministério da Saúde. Elas sugerem que mais de 70% das pessoas com demências no país não estão diagnosticadas. Esta estimativa está sendo revisada no Primeiro Relatório Nacional sobre Demências que será publicado na íntegra no final do ano.

Precisamos da ampliação do Projeto de Lei 4364/2020, que tramita na Câmara de Deputados. E de um Programa Nacional de Demências com pasta específica, equipe, orçamento  e participação dos movimentos sociais no Ministério da Saúde. E que este setor desenvolva projetos interministeriais, dialogando com outros Ministérios, como os Ministérios do Desenvolvimento Social e Família, da Mulher, da Igualdade racial e o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), entre outros.

O primeiro porque está a frente da elaboração da Política Nacional de Cuidados e de programas sociais relacionados à família. O segundo porque representa a maioria das pessoas que cuidam familiares no Brasil: as mulheres.  O terceiro, porque representa o maior contingente de cuidadoras profissionais: as mulheres negras e pardas. E o quarto, o MDHC, porque abarca a Secretaria Nacional da Pessoa Idosa.

Sobre Cuidado

As consequências das demências vão além das pessoas doentes.

Elas também adoecem física e emocionalmente as pessoas responsáveis pelo cuidado de um parente (ou mais). Além de aumentar o envididamento e causar o empobrecimento das famílias.

Vale lembrar que hoje há 37 milhões de pessoas idosas no país. E  outras 50 milhões com 50 anos ou mais que logo serão as “novas” pessoas idosas, compostas por diferentes realidades.

Está mais do que na hora que a questão dos diferentes envelhecimentos, da longevidade, das demências e do cuidado serem  pensados de forma transversal e serem consideradas prioridades no governo brasileiro. Somente assim conseguiremos  combater o desconhecimento (inclusive dos profissionais da saúde), o preconceito, a invisibilidade e o trabalho gratuito de cuidado.

Cosette Castro

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