{"id":10580,"date":"2018-02-13T11:45:32","date_gmt":"2018-02-13T13:45:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/?p=10580"},"modified":"2018-02-13T16:51:58","modified_gmt":"2018-02-13T18:51:58","slug":"morre-um-jornalista-apaixonado-pela-noticia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/morre-um-jornalista-apaixonado-pela-noticia\/","title":{"rendered":"Morre um jornalista apaixonado pela not\u00edcia"},"content":{"rendered":"<p>ANA MARIA CAMPOS<\/p>\n<p>\u201cDo jeito que deixou as malas, n\u00e3o vai ficar\u201d. Era, assim, com uma met\u00e1fora, que Jos\u00e9 Negreiros se referia a um novato que chegava na reda\u00e7\u00e3o sem garra e paix\u00e3o pela not\u00edcia. O jornalista tinha faro para talentos. Mas sabia tamb\u00e9m quando algu\u00e9m n\u00e3o daria certo no cotidiano de apura\u00e7\u00f5es pela falta do DNA de rep\u00f3rter. Aos apaixonados, ele generosamente dedicava horas de sua rotina atribulada de chefe, com observa\u00e7\u00f5es que poderiam melhorar a pr\u00f3xima reportagem. Mas seu foco era o leitor. Ele gostava de traduzir hist\u00f3rias que pareciam importantes aos olhos do mundo pol\u00edtico, para que qualquer pessoa simples pudesse entender o real impacto dos fatos em sua vida.<\/p>\n<p>Era um jornalista em tempo integral, sem hor\u00e1rio de expediente. Todos que conviveram com Negreiros contam hist\u00f3rias de um profissional incans\u00e1vel, rigoroso, exigente e desconfiado de vers\u00f5es como todos os jornalistas deveriam ser. Muitas vezes, sarc\u00e1stico. Adorava ironias. Era maluco pela profiss\u00e3o. E intenso. Nunca escrevia sobre qualquer assunto sem se aprofundar. Discorria sobre temas com conte\u00fado. Foi assim at\u00e9 os \u00faltimos dias. Mesmo sofrendo pela doen\u00e7a, que provocava dores fortes, n\u00e3o parou de trabalhar e de apurar. Desde o in\u00edcio do ano, estava internado na UTI em um hospital de Bras\u00edlia, por conta de uma recidiva do c\u00e2ncer que come\u00e7ou na pr\u00f3stata.<\/p>\n<p>Os familiares se revezavam nos cuidados e no carinho. Muitos amigos se despediram. Aos 68 anos, completados em dezembro, Negreiros morreu ontem. Ele deixa mulher, a jornalista Luciana Bezerra, tr\u00eas filhos: Beatriz, Cintia e Thiago, e muitos disc\u00edpulos do bom jornalismo. Mesmo fora de reda\u00e7\u00f5es, ele n\u00e3o deixava de refletir sobre os rumos da profiss\u00e3o, nesses tempos de fake news e apura\u00e7\u00f5es fr\u00e1geis pela concorr\u00eancia digital.<\/p>\n<p>A amigos, como o soci\u00f3logo Fernando Jorge Caldas Pereira, revelou, em longas conversas, sua preocupa\u00e7\u00e3o com o futuro da comunica\u00e7\u00e3o. Jornalista da \u00e9poca em que se investigava \u00e0 exaust\u00e3o e se segurava uma reportagem pela incerteza da apura\u00e7\u00e3o, Negreiros enxergava com cautela esses novos tempos. Via, com surpresa, como o jornalismo crescia progressivamente em velocidade, mas perdia em profundidade. Achava que as novas gera\u00e7\u00f5es eram especialistas nas novas ferramentas da internet e das redes sociais, mas n\u00e3o mergulhavam como deveriam nos conte\u00fados. Os mais antigos, por sua vez, n\u00e3o acompanhavam a evolu\u00e7\u00e3o da tecnologia. Os dois mundos precisavam se encontrar, acreditava Negreiros.<\/p>\n<p>Formado pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB), Negreiros, nascido em S\u00e3o Lu\u00eds (MA), era um respeitado jornalista pol\u00edtico e econ\u00f4mico. No Correio Braziliense, passou por v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es. Foi correspondente internacional, editor de Brasil, Economia e Pol\u00edtica e ocupou o cargo de editor-executivo. Ele tamb\u00e9m passou pelas reda\u00e7\u00f5es do Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, O Estado de S. Paulo e O Globo.<\/p>\n<p>Atualmente, trabalhava na empresa de an\u00e1lise pol\u00edtica Arko Advice. Era consultado por v\u00e1rios pol\u00edticos, pelas an\u00e1lises que fazia dos cen\u00e1rios. Ao longo da carreira, trabalhou com o ent\u00e3o deputado Sigmaringa Seixas (PT\/DF) e com o senador Jos\u00e9 Serra (PSDB\/SP). Foi o chefe da comunica\u00e7\u00e3o da campanha de Cristovam Buarque \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, em 2002. Em 2016, assessorou a candidatura da professora M\u00e1rcia Abrah\u00e3o, eleita reitora da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), a primeira mulher a assumir o posto, depois de uma vit\u00f3ria no primeiro turno.<\/p>\n<p>Na reda\u00e7\u00e3o do Correio, era um dos primeiros a chegar e s\u00f3 sa\u00eda depois de pensar a edi\u00e7\u00e3o do dia seguinte, muitas vezes j\u00e1 pela madrugada. \u00c1vido leitor, n\u00e3o deixava de olhar cada reportagem publicada no jornal. Era, acima de tudo, rigoroso com o pr\u00f3prio trabalho. Nos \u00faltimos tempos, lamentou n\u00e3o ter estudado mais sociologia e ci\u00eancia pol\u00edtica. N\u00e3o aceitava coment\u00e1rios rasos, sem profundidade.\u201cEra um cara extremamente raro, preciso, sens\u00edvel e profundo. Assessorou muita gente, mas nunca foi tiete, nem algoz de ningu\u00e9m\u201d, descreve Fernando Jorge.<\/p>\n<p>Os amigos contam que Negreiros tinha muito orgulho do trabalho que realizou no Correio, onde trabalhou at\u00e9 2002. Ele acreditava que tinha aproximado o jornal dos moradores da cidade, com uma cobertura mais intensa sobre o cotidiano do Distrito Federal. Tinha um cuidado extremo com as pautas e a repercuss\u00e3o dos assuntos mais importantes. Tra\u00e7ava um plano de a\u00e7\u00e3o para a apura\u00e7\u00e3o dos fatos. \u201cEle era encantado pelo furo, pela not\u00edcia exclusiva\u201d, conta o jornalista Paulo Fona, hoje secret\u00e1rio de Comunica\u00e7\u00e3o do DF. Fona trabalhou cinco anos com Negreiros no projeto de mudan\u00e7as na editoria de Cidades, quando o caderno cresceu de duas para oito p\u00e1ginas na d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p>Ricardo Noblat, um dos grandes amigos de Negreiros, o descreve assim: \u201cFoi um dos mais brilhantes jornalistas que conheci \u2013 rep\u00f3rter de faro apurado, editor caprichoso que sabia extrair o melhor de uma hist\u00f3ria, correspondente internacional vers\u00e1til capaz de transitar com desenvoltura por todas as \u00e1reas do conhecimento\u201d. Os dois trabalharam juntos durante sete anos no Jornal do Brasil e oito no Correio Braziliense. Os amigos escreveram ao lado dos tamb\u00e9m jornalistas Gilberto Dimenstein, Bob Fernandes e Roberto Lopes <em>O compl\u00f4 que elegeu Tancredo<\/em>, livro-reportagem sobre os bastidores que levaram \u00e0 candidatura do presidente que nunca tomou posse.<\/p>\n<p>A jornalista Ana Dubeux, diretora de reda\u00e7\u00e3o do Correio, era grande amiga de Negreiros. Trabalharam juntos em v\u00e1rias coberturas importantes do jornal e dividiram madrugadas discutindo edi\u00e7\u00f5es. \u201cNegreiros era um exemplo do verdadeiro jornalista, que n\u00e3o descansa e vive intensamente a not\u00edcia\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O senador Cristovam Buarque conta que viveu momentos importantes de sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica com Negreiros. \u201cNegreiros me acompanhou em todas as cidades ao redor do pa\u00eds, assistindo a todas as minhas dificuldades e me ajudando a formular os discursos. E ainda era uma companhia muito agrad\u00e1vel, convers\u00e1vamos muito esperando os voos em aeroportos. Era muito intenso e tinha muito conte\u00fado\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANA MARIA CAMPOS \u201cDo jeito que deixou as malas, n\u00e3o vai ficar\u201d. Era, assim, com uma met\u00e1fora, que Jos\u00e9 Negreiros se referia a um novato que chegava na reda\u00e7\u00e3o sem garra e paix\u00e3o pela not\u00edcia. O jornalista tinha faro para talentos. Mas sabia tamb\u00e9m quando algu\u00e9m n\u00e3o daria certo no cotidiano de apura\u00e7\u00f5es pela falta do DNA de rep\u00f3rter. Aos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":10582,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[200,1115,1113,1114],"class_list":["post-10580","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cb-poder","tag-correio","tag-jornalista","tag-negreiros","tag-obituario"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10580","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10580"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10580\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10586,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10580\/revisions\/10586"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10582"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10580"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10580"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10580"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}