“Saio com sentimento do dever cumprido”, diz comandante-geral da PMDF

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Texto por Ana Maria Campos publicado neste domingo (29/3) — Confira entrevista com a Coronel Ana Paula Habka, comandante-geral da Polícia Militar do DF (PMDF):

Por que a senhora decidiu deixar o comando da PM e se aposentar agora?

Na verdade, já estou pronta para a reserva remunerada há mais de um ano. Essa é uma decisão que nasce de um ciclo que se completa. Ao longo da minha trajetória, sempre entendi que o comando não é um espaço de permanência, mas de responsabilidade que exige entrega e sobretudo, consciência do momento de transição. Havia, sim, um planejamento para que essa passagem ocorresse de forma respeitosa, serena e organizada, como deve ser no ambiente militar.  E assim está acontecendo. Nós valorizamos muito esse rito de transmissão. Deixo o comando com a tranquilidade de quem cumpriu sua missão, com uma equipe fortalecida, processos estruturados e uma corporação preparada para seguir avançando. A renovação é parte da nossa essência. É assim que a instituição se mantém viva, atualizada e forte.

Que legado a senhora deixa na PMDF?

O legado que eu deixo não é meu, ele é coletivo. Meu projeto profissional sempre foi estar ao lado dos melhores em suas áreas, apoia-los e dar suporte para executar todos os projetos necessários de forma eficiente, valorizando o nosso maior patrimônio que são os nossos homens e mulheres fardados. Trabalhamos para aproximar a PMDF do cidadão, para que cada pessoa se sinta protegida não apenas pela presença, mas pela confiança. Para finalizar, a divulgação do nosso trabalho de forma transparente e responsável para a sociedade.

Uma mulher no comando de uma corporação militar é uma raridade. Acredita que a sua passagem no cargo fortaleceu o respeito pelas mulheres na PM?

Ser uma mulher no comando de uma corporação policial militar, historicamente masculina, carrega um simbolismo que vai além da minha trajetória individual. Eu acredito, sim, que minha passagem ajudou a consolidar respeito, não apenas por mim, mas por todas as mulheres e homens que vestem essa farda com honra. Mas isso não é sobre uma pessoa, é sobre a capacidade de se atingir objetivos sólidos e consistentes, independentemente do gênero.

Abre caminhos para outras mulheres?

Eu tenho convicção de que abre caminhos, sim. Cada mulher que hoje ingressa na PMDF já encontra um ambiente mais consciente, mais preparado para reconhecer sua capacidade. Ainda há desafios, mas há também uma transformação em curso e ela é irreversível. Há mais de 40 anos nos foi oportunizado o ingresso na Polícia Militar do DF. Acredito verdadeiramente que hoje comprovamos que somos capazes, homens e mulheres unidos, de conduzirmos uma corporação tão fundamental para a sociedade.

Foi difícil liderar uma tropa essencialmente masculina?

Sempre busquei liderar minha tropa com preparo, coerência e, principalmente, pelo exemplo. Não digo que foi fácil, mas aceitar esse desafio e demonstrar a minha capacidade de trabalho, certamente pavimentou um novo caminho para as mulheres dentro e fora da corporação. Não há nada que dê mais autoridade a uma pessoa que a entrega de resultados.

Como vê a condenação e prisão de cinco oficiais da PM pelo episódio do 8 de janeiro?

Trata-se de uma decisão judicial definitiva, que deve ser respeitada, como ocorre em um Estado de Direito. Ao mesmo tempo, não posso deixar de registrar que são oficiais com quem compartilhei uma trajetória dentro da corporação, profissionais de carreira ilibada, o que naturalmente traz um sentimento de comoção.

Qual foi a parte mais difícil do seu comando?

Assumi o comando em um dos momentos mais críticos da nossa história. Estávamos desacreditados pela sociedade e o pior, por nós mesmos. O maior desafio foi resgatar o sentimento de pertencimento e credibilidade dos nossos policiais: fazê-los acreditar novamente que a nossa missão de servir e proteger as pessoas é, sem dúvida, a mais nobre de todas.

E a mais gratificante?

Não há como apontar um único momento exitoso. Foram vários. Acredito de coração que conquistamos feitos que mudaram o cenário do Distrito Federal: somos a segunda capital mais segura do Brasil para se viver, ao mesmo tempo em que somos uma das polícias que mais respeita e promove os direitos humanos e sociais do País. Agora, resgatar o sorriso e a autoconfiança da minha tropa é indiscutivelmente, a minha maior alegria. Saio hoje com o sentimento do dever cumprido.

Ronayre Nunes

Jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB). No Correio Braziliense desde 2016. Entusiasta de entretenimento e ciências.

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