Rosso: “Todos os brasileiros deveriam defender Brasília”

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Da coluna Eixo Capital/ANA MARIA CAMPOS

À QUEIMA ROUPA: Rogério Rosso, ex-governador do Distrito Federal

“É triste constatar que nem toda classe política entende que, além da capital dos seus estados de origem, Brasília é a capital deles também e todos deveriam ter orgulho disso e defender Brasilia como historicamente os franceses defendem Paris, os italianos Roma, os americanos Washington, o Reino Unido Londres, a China Pequim e assim por diante em todo o mundo civilizado”


O Distrito Federal vive momentos de crise desde os ataques golpistas na área central de Brasília. Acha que esses episódios despertaram resistência da classe política?

Primeiramente Brasília é a capital de todos os brasileiros, sede dos Poderes da República, do corpo diplomático, das instituições e organismos nacionais e internacionais. É triste constatar que nem toda classe política entende que, além da capital dos seus estados de origem, Brasília é a capital deles também e todos deveriam ter orgulho disso e defender Brasilia como historicamente os franceses defendem Paris, os italianos Roma, os americanos Washington, o Reino Unido Londres, a China Pequim e assim por diante em todo o mundo civilizado. Lamentavelmente existem alguns políticos que enxergam Brasília como uma concorrente dos seus estados. Esse é o início do problema, na minha visão: a falta de compromisso com a capital do Brasil. A falta de conhecimento sobre Brasília, de seus mais de três milhões de habitantes e suas mais de 30 regiões administrativas com vida, cultura, costumes e economia e desafios e problemas próprios. Contando com a população flutuante dos municípios limítrofes ao DF, podemos dizer que Brasília tem mais de 4,5 milhões de habitantes, ou seja, é um dos maiores centros urbanos do Brasil.

O 8 de janeiro contribuiu?

No lamentável e criminoso episódio de 8 de janeiro, me parece que a grande maioria dos golpistas não morava em Brasília. Esperamos que jamais ocorra algo parecido novamente como o 8 de janeiro, que feriu fortemente nossas instituições, mas provou ao mesmo tempo que a nossa democracia saiu fortalecida. Esse episódio criou uma memória e um escudo institucional inquebrantável. E esse escudo, ao contrário do que alguns defendem, fortalece ainda mais Brasília como símbolo da democracia.

Como o Distrito Federal poderá reverter essa imagem desgastada?

Brasília merece respeito. Imagina se apontássemos os problemas gravíssimos e sempre recorrentes que existem nos demais estados e cidades brasileiros – problemas crônicos de gestão, segurança, falta de qualidade nos serviços públicos, índices de desemprego alarmantes, desigualdades sociais desumanas e centenas de outros problemas gravíssimos que temos conhecimento. É dever de qualquer brasileiro, especialmente da classe política, respeitar e honrar a capital do Brasil. Quanto melhor estiver Brasília melhor estará o Brasil. O DF está tendo uma administração de vanguarda por parte do governador Ibaneis e a população do Distrito Federal reconheceu esse trabalho confiando a ele mais quatro anos de administração. Toda a classe política, empresarial e a sociedade organizada de Brasília estão unidas, independentemente de partido ou ideologia, na defesa não apenas do Fundo Constitucional, mas na defesa do maior símbolo da integração, prosperidade, esperança, modernidade e fé do Brasil: Brasília.


Acha que Brasília vai perder essa batalha do Fundo Constitucional no Congresso?

O texto aprovado na Câmara é um grande equívoco. Alguns deputados de estados vizinhos, por exemplo, votaram contra o DF. E esses mesmos deputados, que merecem nosso respeito, sabem que mais de 1 milhão de moradores das cidades vizinhas ao DF se deslocam diariamente para Brasília em busca de emprego, saúde, educação e outros serviços públicos, custeados pelo Fundo Constitucional do DF, oferecidos a todos os brasileiros sem qualquer distinção. Nossos hospitais, especialmente os de média e alta complexidade, recebem nossos irmãos brasileiros de praticamente todos os estados brasileiros. Penso que não houve tempo para que várias bancadas pudessem avaliar o alcance negativo que impuseram a Brasília e ao Brasil . O Senado Federal, como casa revisora e da mais alta sensibilidade política, vai reverter esse equívoco. Curioso também é que me parece que no projeto original do arcabouço fiscal do governo Lula, o Fundo Constitucional do DF não foi sequer mencionado.

O governo federal entrou na política salarial das forças de segurança não apenas para autorizar, mas para definir regras, de forma inédita. É uma espécie de intervenção federal?

O pacto federativo é um princípio fundamental para o bom funcionamento das instituições e fortalecimento da democracia. Não acredito que exista qualquer intenção do governo federal em adentrar nas legítimas prerrogativas constitucionais do Distrito Federal. Precisamos de ainda mais serenidade e equilíbrio nesse momento.

Mexer no Fundo Constitucional abre uma brecha para futuras intervenções mais radicais, como maior redução dos repasses ou até extinção?

Alterar as regras do Fundo Constitucional do DF é inviabilizar a capital do Brasil e consequentemente o próprio Brasil. Prefiro acreditar que isso tudo foi um equívoco, e que será corrigido pelo Senado Federal e a própria Câmara se dará conta do erro cometido e fará em tempo as correções necessárias. A Câmara dos Deputados, sem dúvida alguma, terá essa grandeza por Brasília e pelo Brasil.

Ana Maria Campos

Editora de política do Distrito Federal e titular da coluna Eixo Capital no Correio Braziliense.

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