Minervino Junior/CB/D.A Press
À Queima Roupa
José Antonio Reguffe, ex-senador do DF (Solidariedade-DF)
“Nos meus mandatos, honrei e cumpri ponto por ponto, sem exceção e do jeito que estava escrito ali, tudo o que me comprometi nos meus folders de campanha”
Após deixar o Senado, como você avalia o cenário político brasileiro e o que mais mudou na relação entre a população e seus representantes?
Hoje a grande preocupação de um parlamentar não é que projeto vou apresentar para melhorar meu país, mas qual vídeo de 30 segundos vou fazer para o Instagram. A política ficou rasa, superficial. Não se discute um projeto de país para o futuro. Se ganha voto só criticando e desqualificando o outro. Parece na verdade um campeonato de xingamento, de quem xinga ou desqualifica melhor. Não se discutem propostas para o futuro. Aliás, as pessoas estão confundindo combatividade com falta de educação e de civilidade. E não se aceita nem se respeita um posicionamento diverso do seu. Desse jeito, nem a política nem nossa sociedade vai a lugar algum.
Você construiu sua trajetória com a bandeira da redução de privilégios e do combate ao desperdício de recursos públicos. Na sua avaliação, o Congresso avançou ou retrocedeu nessas pautas nos últimos anos?
Tenho muito orgulho da minha trajetória. Levei três eleições para conseguir um mandato de deputado distrital, justamente para poder entrar na política com dignidade. E assim exerci meus mandatos. Sendo fiel a isso e ao que me propus. Coloquei na pauta e na agenda pública esses temas que nunca eram discutidos e eram aceitos como normais e naturais. Décimo quarto e décimo quinto salários de parlamentares existiam desde 1938 no Brasil, abri mão, gerei a discussão e acabaram. Ninguém discutia antes dos meus mandatos verba indenizatória, número de assessores, plano de saúde vitalício de senadores, cumpri um papel. Mas meu mandato foi muito mais do que entre aspas “apenas” economizar.
Como avalia seus mandatos?
Podem me criticar por qualquer coisa, menos por uma: nos meus mandatos, honrei e cumpri ponto por ponto, sem exceção e do jeito que estava escrito ali, tudo o que me comprometi nos meus folders de campanha. Num país que políticos roubam dinheiro público, fiz o oposto: economizei dinheiro público. E alguns ainda fazem piada com isso. Só no Senado, economizei sozinho mais de R$ 16,7 milhões. Se todos fizessem, dava mais de R$ 1,3 bi. Não usei um único centavo de verba indenizatória, reduzi o número de assessores de 55 para apenas 9, nunca usei carro oficial, saí da política sem ter direito à aposentadoria parlamentar ou ao plano de saúde vitalício dos senadores, que abri mão. Mas meu mandato foi muito mais que isso. Fui o parlamentar que mais destinou recursos para a saúde do DF, incluindo todos os senadores e deputados à época. O petscan do Base foi emenda minha, tomógrafos para vários hospitais, ventiladores mecânicos, oxímetros, sistema de videoendoscopia, diversos equipamentos, 14 ambulâncias do SAMU totalmente equipadas. Hoje se fala muito do STF, eu assinei a CPI da Lavatoga. Infelizmente, muitos não assinaram. É de minha autoria a PEC 52/2015, que acaba com a vitaliciedade de ministros, dando tempo de mandato. Acaba também com indicação política para ministros, exigindo como pré-requisito passar num concurso público de juiz e tempo de magistratura. Além de criticar o sistema de forma contundente, eu protocolei proposta objetiva para mudá-lo.
O que considera essencial para que a população volte a confiar nas instituições democráticas?
É preciso muita coisa. Para começar que as instituições funcionem e entendam seu lugar. Hoje o Executivo quer legislar e legisla por medida provisória. O Legislativo chantageia e achaca o governo de plantão exigindo benesses e cargos. E o Judiciário quer mandar nos dois outros poderes. É difícil. É preciso uma reforma política profunda e urgente. Propus oito PECs sobre reforma política. E alguns projetos. Mas eles sequer discutiam. E olha que devo ter feito da tribuna uns vinte discursos cobrando isso.
Como a polarização nacional atrasa os avanços sociais do país?
Esse é meu grande problema. Não aceito como cidadão essa polarização. É um desastre para o país. Mas reconheço que hoje sou minoria. Aliás, são tão arrogantes que chamam de isentões quem não aceita isso, como se não fosse uma posição política que precisa ser respeitada não concordar com os dois lados. E se ganha voto só criticando o outro lado, sem ninguém discutir um projeto de desenvolvimento nacional sério e que tenha visão de longo prazo.
Em diferentes momentos, seu nome voltou a ser cogitado para disputar cargos eletivos. Você pretende retornar à vida pública nas próximas eleições? Em que condições aceitaria uma candidatura?
Me decepcionei muito com a política. Descobri também um problema de saúde que me afastou. Acho que sou vocacionado, acho que tenho a verdadeira vocação política, às vezes sinto falta, sou indignado com muita coisa. Tenho vontade de voltar a falar, defender o que acredito. Tentar mudar as coisas. Mas sofri muito também. Apesar de sinceramente não saber se as coisas têm jeito, tenho enorme vontade de ver isso mudar. Esse sistema todo tinha que mudar.
Nessas eleições, concorre a algum cargo?
Estou analisando. Sinceramente, ainda não sei.
O que você diria aos jovens que desejam ingressar na política, mas enxergam um ambiente marcado por polarização e desconfiança?
Que primeiro nunca deixem seus princípios e valores. Se um dia der certo, tem que ser do jeito certo. Depois, que entendam que política é firmeza de convicções e diálogo. É preciso saber conversar e respeitar todos, sem preconceitos. Mas colocando sempre na frente o interesse do que for, verdadeiramente, melhor para a cidade e o país.
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