{"id":736,"date":"2026-06-18T18:16:05","date_gmt":"2026-06-18T21:16:05","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/?p=736"},"modified":"2026-06-18T18:16:21","modified_gmt":"2026-06-18T21:16:21","slug":"entre-pontes-e-alfandegas-a-cultura-rompendo-barreiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/2026\/06\/18\/entre-pontes-e-alfandegas-a-cultura-rompendo-barreiras\/","title":{"rendered":"Entre Pontes e Alf\u00e2ndegas, a cultura rompendo barreiras"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_737\" aria-describedby=\"caption-attachment-737\" style=\"width: 223px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-737\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/Captura-de-tela-2026-06-18-180818.png\" alt=\"\" width=\"223\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/Captura-de-tela-2026-06-18-180818.png 702w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/Captura-de-tela-2026-06-18-180818-150x150.png 150w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/Captura-de-tela-2026-06-18-180818-298x300.png 298w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/Captura-de-tela-2026-06-18-180818-550x554.png 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/Captura-de-tela-2026-06-18-180818-230x232.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 223px) 100vw, 223px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-737\" class=\"wp-caption-text\">Escritor Pettinny Nic\u00e1cio<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Por Pettinny Nic\u00e1cio, escritor brasileiro radicado em Coimbra<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 momentos em que a literatura parece vencer todas as fronteiras. E h\u00e1 momentos em que descobrimos que as fronteiras continuam ali, silenciosas, erguidas, n\u00e3o pela geografia, mas pelas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Entre os dias 2 e 10 deste m\u00eas de junho, a 96\u00aa Feira do livro do livro de Lisboa recebeu uma \u00a0delega\u00e7\u00e3o \u00a0de leitores, escritores e sonhadores que acreditam no poder transformador das palavras. Vindos do Brasil, cerca de trinta escritores participaram da <strong>15\u00aa Viagem \u00e0s Nascentes da L\u00edngua Portuguesa<\/strong>, iniciativa apoiada pelos editores Victor Alegria e Tagore Alegria, numa travessia que ultrapassou o simples deslocamento f\u00edsico. N\u00e3o foi apenas uma viagem entre continentes; foi um retorno simb\u00f3lico \u00e0s origens de uma l\u00edngua que, ao longo dos s\u00e9culos, atravessou oceanos e ganhou novos sotaques, novos ritmos e novas formas de sentir o mundo.<\/p>\n<p>No dia 8, a hist\u00f3rica Universidade de Coimbra, atrav\u00e9s do seu professor <strong>Dr. Ibsen Noronha<\/strong>, acolheu um dos momentos mais significativos da programa\u00e7\u00e3o. Entre paredes que h\u00e1 s\u00e9culos guardam o eco de mestres e estudantes, realizou-se um encontro liter\u00e1rio marcado pela reflex\u00e3o sobre a l\u00edngua portuguesa e seu papel na constru\u00e7\u00e3o de identidades culturais.<\/p>\n<p>Ali, sob o peso simb\u00f3lico da hist\u00f3ria e da tradi\u00e7\u00e3o, escritores brasileiros e portugueses compartilharam experi\u00eancias, inquieta\u00e7\u00f5es e esperan\u00e7as. O ambiente possu\u00eda algo de especial. Talvez fosse a consci\u00eancia de que todos estavam reunidos por uma heran\u00e7a comum. Talvez fosse a percep\u00e7\u00e3o de que a literatura continua sendo uma das formas mais poderosas de aproxima\u00e7\u00e3o entre povos separados pelo Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Entre as falas que marcaram o encontro, destacou-se a do Comendador Vitor Alegria, idealizador da Viagem \u00e0s Nascentes da L\u00edngua Portuguesa. Suas palavras n\u00e3o foram apenas um discurso institucional. Havia nelas a preocupa\u00e7\u00e3o sincera de quem dedica parte da vida \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da cultura e ao fortalecimento dos la\u00e7os entre Brasil e Portugal.<\/p>\n<figure id=\"attachment_740\" aria-describedby=\"caption-attachment-740\" style=\"width: 684px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-740\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-18-at-18.11.30.jpeg\" alt=\"\" width=\"684\" height=\"513\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-18-at-18.11.30.jpeg 1280w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-18-at-18.11.30-300x225.jpeg 300w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-18-at-18.11.30-768x576.jpeg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-18-at-18.11.30-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-18-at-18.11.30-800x600.jpeg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-18-at-18.11.30-550x413.jpeg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/brasiliatododia\/wp-content\/uploads\/sites\/68\/2026\/06\/WhatsApp-Image-2026-06-18-at-18.11.30-230x173.jpeg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 684px) 100vw, 684px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-740\" class=\"wp-caption-text\">Visita do grupo de escritores com o professor Dr. Ibsen Noronha.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ao abordar os desafios da circula\u00e7\u00e3o do livro brasileiro em territ\u00f3rio portugu\u00eas, o comendador trouxe \u00e0 tona uma realidade que poucos leitores conhecem em profundidade. Falou das dificuldades enfrentadas por editoras, autores e distribuidores para fazer chegar ao p\u00fablico portugu\u00eas, obras produzidas no Brasil. E apontou um paradoxo que parece desafiar a pr\u00f3pria l\u00f3gica da valoriza\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>No Brasil, o livro goza de imunidade tribut\u00e1ria, sendo reconhecido como instrumento essencial para a educa\u00e7\u00e3o, a cultura e o desenvolvimento social. Trata-se de um entendimento consolidado ao longo do tempo, fruto da percep\u00e7\u00e3o de que taxar o acesso ao conhecimento significa impor obst\u00e1culos \u00e0 forma\u00e7\u00e3o intelectual da sociedade.<\/p>\n<p>Entretanto, quando atravessa o oceano, o livro brasileiro encontra uma realidade diferente. Custos log\u00edsticos, taxas, encargos e procedimentos burocr\u00e1ticos, acabam por encarecer a circula\u00e7\u00e3o das obras. O resultado \u00e9 um caminho mais dif\u00edcil entre o autor e o leitor, justamente quando o objetivo deveria ser o oposto: ampliar o acesso, incentivar a leitura e fortalecer os v\u00ednculos culturais entre na\u00e7\u00f5es que compartilham a mesma l\u00edngua.<\/p>\n<p>Enquanto o comendador falava, era imposs\u00edvel n\u00e3o pensar na ironia dessa situa\u00e7\u00e3o. A l\u00edngua portuguesa conseguiu realizar o que muitos imp\u00e9rios jamais alcan\u00e7aram: unir povos separados por milhares de quil\u00f4metros de mar. Contudo, aquilo que a l\u00edngua aproxima, por vezes a burocracia distancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de uma quest\u00e3o comercial. O livro \u00e9 mais do que um produto. Dentro dele viajam mem\u00f3rias, identidades, vis\u00f5es de mundo e experi\u00eancias humanas. Cada obra que cruza o Atl\u00e2ntico leva consigo um pouco da alma de seu povo. Quando um leitor portugu\u00eas abre um romance, uma colet\u00e2nea de poemas ou um livro de cr\u00f4nicas escrito por um brasileiro, ele n\u00e3o est\u00e1 apenas consumindo literatura. Est\u00e1 dialogando com outra realidade, ampliando horizontes e fortalecendo uma heran\u00e7a comum.<\/p>\n<p>Talvez por isso o encontro em Coimbra tenha sido t\u00e3o significativo. Em meio \u00e0s dificuldades apontadas, havia tamb\u00e9m uma mensagem de esperan\u00e7a. A simples presen\u00e7a daqueles escritores, j\u00e1 representava uma forma de resist\u00eancia cultural. Cada autor ali reunido era uma ponte viva entre as duas margens do oceano.<\/p>\n<p>A literatura sempre encontrou maneiras de sobreviver aos obst\u00e1culos do seu tempo. Sobreviveu a censuras, guerras, persegui\u00e7\u00f5es e crises econ\u00f4micas. Continuou existindo porque sua mat\u00e9ria-prima n\u00e3o \u00e9 o papel, mas a necessidade humana de contar hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Ao final do encontro, ficou a sensa\u00e7\u00e3o de que a l\u00edngua portuguesa continua navegando. Nem sempre em \u00e1guas tranquilas, \u00e9 verdade. Mas segue avan\u00e7ando, impulsionada por homens e mulheres que acreditam na for\u00e7a da palavra escrita.<\/p>\n<p>Talvez o maior ensinamento daquela tarde em Coimbra tenha sido justamente este: os livros n\u00e3o deveriam encontrar alf\u00e2ndegas quando carregam cultura. Afinal, a literatura nasce para construir pontes.<\/p>\n<p>E pontes n\u00e3o foram feitas para separar margens.<\/p>\n<p>Foram feitas para uni-las.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pettinny Nic\u00e1cio, escritor brasileiro radicado em Coimbra H\u00e1 momentos em que a literatura parece vencer todas as fronteiras. 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