Finlandesa radicada no Brasil, Heidi Virta responde com: por que a filosofia, que há mais de dois mil anos discute como viver melhor, ainda parece tão distante da vida cotidiana?
À primeira vista, alguém poderia provocar: não é muito fácil para uma mulher bonita, branca, com carreira internacional e bem-sucedida falar sobre felicidade?
É justamente esse tipo de julgamento que Heidi Virta coloca em xeque em Como ser mais feliz e se preocupar menos — 10 lições práticas da filosofia para enfrentar a vida moderna, lançamento da Tagore Editora.

A autora não defende que todos partam do mesmo ponto nem que felicidade seja uma simples decisão individual. No livro, reconhece que ninguém escolhe as circunstâncias do próprio nascimento: chegamos ao mundo em determinado corpo, família, cidade e país, sob condições sociais e econômicas mais ou menos favoráveis. Essas são, como ela escreve, as “cartas” que recebemos para jogar.
A questão proposta pela obra é outra: o que podemos fazer com as cartas que recebemos? E é aí que entra a filosofia.
Durante anos trabalhando com comércio internacional e vivendo em diferentes países, Heidi se perguntava por que algumas pessoas pareciam mais felizes que outras e se existiriam princípios capazes de ajudar qualquer pessoa — inclusive ela própria — a viver melhor. Durante a pandemia, essa inquietação a levou de volta aos filósofos antigos, inicialmente a Platão, e depois a outras correntes de pensamento e às ciências do comportamento.
Da investigação nasceu uma descoberta aparentemente simples, mas poderosa: muitas das perguntas que tratamos como dilemas exclusivamente modernos já incomodavam a humanidade há séculos.
Ansiedade, comparação com os outros, riqueza, inveja, medo do futuro, relações humanas, controle das emoções, uso do tempo, virtude, propósito e autoconhecimento estão longe de ser invenções das redes sociais.
Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, Epicteto, Sêneca, Marco Aurélio, Montaigne, Nietzsche e outros pensadores atravessam as páginas do livro. Heidi percebeu que autores separados por séculos, culturas e condições econômicas frequentemente chegavam a orientações semelhantes sobre como enfrentar a existência.
Filosofia não deveria ser privilégio de intelectuais
Heidi relata uma conversa com um teólogo que lhe disse que, para muitas pessoas, a religião seria destinada a todos, enquanto a filosofia teria se transformado em território de gente instruída ou refinada.
A autora contesta essa divisão recorrendo ao próprio Sócrates. O filósofo discutia pelas ruas de Atenas com pessoas das mais diferentes condições. A conclusão de Heidi é direta: filosofia é para todos — ricos e pobres, felizes e infelizes, pessoas consideradas belas ou feias, instruídas ou não. Ela pode ser aprendida e praticada por qualquer pessoa.
Essa talvez seja a verdadeira provocação de Como ser mais feliz e se preocupar menos: por que deixamos um patrimônio de mais de dois mil anos sobre a arte de viver confinado às estantes de filosofia?
O livro procura retirar esse conhecimento do pedestal e colocá-lo novamente na rua, na casa, no trabalho e nas relações humanas. Em vez de apresentar felicidade como uma receita mágica, Heidi organiza sua investigação em dez grandes temas: autoconhecimento, autoaceitação, inteligência emocional, virtude, uso do tempo, relacionamentos, conhecimento e habilidades, autodesenvolvimento, saúde e bem-estar e riqueza.
E há outra quebra importante de estereótipo: sucesso financeiro não é apresentado como sinônimo de felicidade. A própria autora conta que chegou a concentrar energia em acumular patrimônio e investir em imóveis, até perceber que o excesso de preocupação com bens materiais a tornava menos feliz.
Portanto, a mulher aparentemente privilegiada da fotografia da capa não se apresenta como alguém que descobriu a felicidade e agora ensina aos outros como alcançá-la. Heidi deixa claro que começou a escrever as dez lições para si mesma. Mais tarde decidiu compartilhá-las porque percebeu que também precisava de orientação para lidar com a própria busca pela felicidade.
A aparência de uma vida não revela a experiência de quem a vive.
Podemos olhar para alguém bonito, rico, pobre, estrangeiro, brasileiro, jovem, velho, bem-sucedido ou fracassado e imaginar que sabemos o quanto aquela pessoa é feliz. Mas a felicidade, argumenta Heidi, não pode ser medida pela fotografia que os outros enxergam. A proposta do livro não é negar diferenças sociais nem transformar filosofia em solução milagrosa. É recuperar uma ideia antiga e profundamente democrática: a sabedoria acumulada pela humanidade pertence a todos.
E talvez, em uma época em que milhares de conselhos sobre felicidade cabem em vídeos de poucos segundos, voltar a conversar com pessoas que pensaram durante toda uma vida sobre o significado de existir seja uma atitude surpreendentemente moderna.
Heidi Virta é economista, escritora e finlandesa com trajetória internacional. Viveu e trabalhou no Brasil, Estados Unidos, México e Peru e, ao longo de mais de duas décadas, atuou na aproximação entre empresas finlandesas e novos mercados e na construção de pontes entre a Finlândia e a América Latina.
SERVIÇO
Lançamento de Como ser mais feliz e se preocupar menos, de Heidi Virta:
Data: sexta-feira, 11 de setembro de 2026, a partir das 19h
Local: Restaurante Panapaná, SHIS QI 15, Bloco D, Área Especial, Lago Sul, Brasília-DF, próximo ao Hospital Brasília. Publicação da Tagore Editora. ISBN 978-65-5281-087-8.

