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Que luz boa em Lisboa, Márcio Catunda lança livro em Brasília

Convite

Por Edmílson Caminha

Poucos povos cantaram tanto e tão belamente o país natal quanto o português: Viagens na minha terra, de Almeida Garrett, Viagem a Portugal, de José Saramago, Era Lisboa e chovia, de Dário Moreira de Castro Alves, são grandes livros a que se junta, agora, Que luz boa em Lisboa!, do escritor e diplomata cearense Márcio Catunda. Texto primoroso, que, pela substância histórica, pela agudeza das observações e pela elegância do estilo compara-se à prosa do Guia de Ouro Preto, de Manuel Bandeira, do Roteiro lírico e sentimental de Ouro Preto e do Amor a Roma, os dois de Afonso Arinos de Melo Franco.

Despretensiosamente, Catunda chama o que escreveu de “memórias literárias”, “uma quase história da literatura portuguesa”, sabedor de que é muito mais do que isso: trata-se de verdadeira aula de História antiga e contemporânea, que vem dos pinheirais de Leiria até a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em cujo secretariado executivo trabalhou como diplomata brasileiro. Considere-se, por exemplo, o trecho:

O olhar que se espraia, seguindo as velas, as gaivotas e as fragatas, vê em Lisboa um Éden, ao pé do Tejo azul. O marulhar do Tejo diz que a jangada de Ulisses aportou nos seu estuário. Camões reitera esse mito. Fernando Pessoa também o faz. Dom Sebastião é ainda esperado no nevoeiro transparente. Recordo-me de um dia, de brisa fresca e poucos transeuntes, em que me deitei no parapeito do Cais do Sodré, para o ritual de adoração da Natureza. As gaivotas se aproximaram, como que me expressando o seu beneplácito.

Volta o autor à personagem de Homero (que deu nome ao lugar, Ulisipona, cidade de Ulisses), recorda a lenda sebastianista, do rei morto na batalha de Alcácer-Quibir, alude à grandeza d’Os Lusíadas e evoca o gênio dos célebres heterônimos. Tudo envolto no sentimento lírico do talentoso poeta que Márcio Catunda também é.

Com cicerone de tamanho saber, caminhamos por ruas, praças, monumentos, livrarias e tabernas, em um privilegiado mergulho na história de Portugal. Experiência que vale por um curso intensivo de literatura lusitana, graças ao que aprendemos sobre Dom Dinis, Gil Vicente, Fernão Mendes Pinto, Camões, Vieira, Bocage, Garrett, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Aquilino Ribeiro, Fernando Pessoa, Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Miguel Torga, José Saramago e Agustina Bessa-Luís. Saber profundo, rico, mas sem o tom pedante da preleção acadêmica, insípida, inodora e incolor como a água que somos, muitas vezes, coagidos a tomar. Catunda escreve admiravelmente bem, com a cultura do diplomata, a clareza do bom professor, o refinamento do intelectual, a elegância do estilista, a sensibilidade do poeta:

O peregrino quer unir as coisas tangíveis às intangíveis. Para ele, toda viagem é um percurso dos nove arquétipos cósmicos. Ele busca a percepção existencial total, a iluminação onisciente. (…) Na minha fantasia, os sinos ressoam como as flautas dos pastores da Arcádia. Qualquer tempo é venturoso quando estamos em harmonia. Os passarinhos celebram os prodígios do dia luminoso.

Desfrutemos, pois, o inesquecível passeio com que o anfitrião nos encanta e enriquece. Alguém que nunca foi a Portugal poderá dizer, quando pela primeira vez contemplar o Tejo: “É a primeira vez que ponho os pés aqui, mas conheço a cidade como se fosse lisboeta. Lembrança de vidas passadas? Não: li o livro de Márcio Catunda, passaporte com que cruzei o oceano para deixar que me inundasse os olhos a luz boa de Lisboa…”.

Serviço:
Local: Foyer do Auditório Cyro dos Anjos, da ANE – SEPS Sul 707/970, Bloco F, Ed. Almeida Fischer, Brasília
Data: Quinta-feira, dia 12 de fevereiro de 2026 às 19h

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