{"id":11936,"date":"2026-11-08T09:17:27","date_gmt":"2026-11-08T12:17:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11936"},"modified":"2026-11-08T09:26:06","modified_gmt":"2026-11-08T12:26:06","slug":"sete-prisioneiros-informacoes-sobre-a-vitima-e-abusado-no-brasil-noir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/sete-prisioneiros-informacoes-sobre-a-vitima-e-abusado-no-brasil-noir\/","title":{"rendered":"Sete Prisioneiros, Informa\u00e7\u00f5es sobre a v\u00edtima e Abusado no Brasil noir"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>O SUSP oferece uma base para integrar institui\u00e7\u00f5es e, agora, foi constitucionalizado, o que aumenta a responsabilidade do governo federal no combate ao crime organizado<\/em><\/strong><br><br>Um investigador solit\u00e1rio, um traficante cercado pelas contradi\u00e7\u00f5es do morro e um jovem aprisionado pela explora\u00e7\u00e3o do trabalho revelam como viol\u00eancia, desigualdade e corrup\u00e7\u00e3o se articulam com a vida cotidiana e a economia. Dinheiro e agentes p\u00fablicos atravessam a fronteira sinuosa entre legalidade e crime de um Brasil noir.<br><br>Publicado em 2002 pela Companhia das Letras, Informa\u00e7\u00f5es sobre a v\u00edtima marca a estreia do ex-delegado Joaquim Nogueira no romance. Seu protagonista, Ven\u00edcio, est\u00e1 longe dos superdetetives: solit\u00e1rio, mora num apartamento modesto, dirige um Fusca e usa o telefone da vizinha. Investiga por conta pr\u00f3pria o assassinato de um amigo policial, movido pela lealdade e por um senso pessoal de justi\u00e7a.<br><br>Suas dilig\u00eancias percorrem o submundo da maior cidade do pa\u00eds, S\u00e3o Paulo (SP): um padrasto acusado de estupro, um traficante e sua m\u00e3e hipertensa, um bicheiro generoso com autoridades e funcion\u00e1rios da pr\u00f3pria delegacia. Ap\u00f3s o assassinato do colega, um personagem pergunta: \u201cOnde \u00e9 que n\u00f3s estamos? A bandidagem n\u00e3o respeita mais a pol\u00edcia?\u201d. A fala exp\u00f5e o abalo da autoridade pelas cumplicidades.<br><br>Ven\u00edcio gasta a sola do sapato, conversa com informantes e observa comportamentos. Nessa humanidade sem glamour, o investigador busca justi\u00e7a dentro de uma engrenagem que tamb\u00e9m produz arbitrariedade e impunidade. O sistema aparece pelo avesso, com seus conflitos e sua banda podre. Sem spoiler, o problema estava dentro da pol\u00edcia paulista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em><strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/brasil\/2026\/11\/7534939-reducao-da-maioridade-penal-reacende-debate-sobre-seguranca-publica.html\"> Redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal reacende debate sobre seguran\u00e7a p\u00fablica<\/a><\/strong><br><br>Em Abusado: o dono do morro Dona Marta, publicado em 2003, pela Record, Caco Barcellos muda o ponto de observa\u00e7\u00e3o. Reportagem de f\u00f4lego, acompanha Juliano VP, nome usado para retratar o traficante Marcinho VP, M\u00e1rcio Amaro de Oliveira, e reconstitui a vida no Santa Marta, em Botafogo, no Rio de Janeiro (RJ).. <br><br>Filho de uma fam\u00edlia nordestina pobre, Juliano cresce entre o trabalho na birosca do pai, a disciplina violenta em casa e a sedu\u00e7\u00e3o do dinheiro do tr\u00e1fico. Os pequenos servi\u00e7os abrem caminho para sua ascens\u00e3o. O interesse pelos livros, as inquieta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e o contato com intelectuais, entre eles o cineasta Jo\u00e3o Moreira Salles, exp\u00f5em as contradi\u00e7\u00f5es de sua inser\u00e7\u00e3o numa organiza\u00e7\u00e3o sustentada pelo com\u00e9rcio de drogas e pela viol\u00eancia.<br><br>O Comando Vermelho, suas disputas com fac\u00e7\u00f5es rivais e as rela\u00e7\u00f5es com a pol\u00edcia s\u00e3o o contexto da hist\u00f3ria. A grava\u00e7\u00e3o do clipe de Michael Jackson, dirigido por Spike Lee em 1996, explicitou esse poder: a seguran\u00e7a organizada pelo tr\u00e1fico projeta o chefe local para al\u00e9m do morro. Num confronto, a ordem de Doente Baubau abrindo caminho para Juliano ferido, ilustra o ambiente de terror: \u201cSai pra rua n\u00e3o. Sai n\u00e3o. O bicho vai peg\u00e1!\u201d. <br><br>Marcinho VP foi assassinado por asfixia em Bangu III, em 28 de julho de 2023, meses ap\u00f3s o lan\u00e7amento do livro. N\u00e3o confundir com M\u00e1rcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, chef\u00e3o do Comando Vermelho, transferido de Bangu III para o presidio de seguran\u00e7a m\u00e1xima de Campo Grande (MS) e suspeito de mandar mat\u00e1-lo. <br><br><strong>Vidas banais <\/strong><br><br>E o Sete Prisioneiros? O filme de Alexandre Moratto estreou no Festival de Veneza em 2021. Christian Malheiros interpreta Mateus, um dos quatro rapazes que saem do interior paulista para trabalhar num ferro-velho na capital. Luca, vivido por Rodrigo Santoro, transforma a promessa de emprego em cativeiro. Transporte, cama e alimenta\u00e7\u00e3o viram d\u00edvidas que o trabalho nunca consegue quitar.<br><br>A servid\u00e3o por d\u00edvida, as amea\u00e7as e a cumplicidade policial fecham as sa\u00eddas. O drama se aprofunda quando Mateus percebe que conquistar a confian\u00e7a do explorador pode melhorar sua pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o \u00e0 custa dos companheiros. A sobreviv\u00eancia torna-se instrumento de coopta\u00e7\u00e3o. O ferro-velho integra uma cadeia produtiva: a explora\u00e7\u00e3o alimenta neg\u00f3cios e conecta a clandestinidade \u00e0 economia formal no centro do capitalismo brasileiro. <br><br>\u00c9 que a economia informal que surge da \u201cvida banal\u201d nas cidades brasileiras, cujas pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e3o capturadas por grandes interesses privados, n\u00e3o existe desacoplada do mercado formal, lembrava o grande ge\u00f3grafo Milton Santos.. O melhor exemplo \u00e9 a reciclagem da latinha de alum\u00ednio: o Brasil reaproveita mais de 85% do alum\u00ednio que consome. Mas essa conex\u00e3o tamb\u00e9m vale para a m\u00e1fia do g\u00e1s, o vendedor de \u00e1gua mineral e o gatonet. O roubo de celulares s\u00f3 existe porque h\u00e1 um mercado paralelo que faz parte da sua cadeia de consumo.<br><br>S\u00e3o dimens\u00f5es complementares do mesmo problema. No Rio, a topografia, as redes locais e a receita das drogas favoreceram o controle armado de comunidades, ampliado para outras \u00e1reas e mercados, em disputa com mil\u00edcias. Em S\u00e3o Paulo, o PCC cresceu para al\u00e9m das pris\u00f5es e do tr\u00e1fico, diversificando neg\u00f3cios e conex\u00f5es. O epicentro da territorializa\u00e7\u00e3o e a transforma\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de drogas e das milicias em complexo mafioso est\u00e1 nesses dois estados. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia mais:<\/em><strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/11\/7288091-faccoes-se-espalham-pelo-interior-e-redesenham-o-mapa-da-violencia-no-brasil.html\"> Fac\u00e7\u00f5es se espalham pelo interior e redesenham o mapa da viol\u00eancia no Brasil<\/a><\/strong><br><br>\u00c9 a\u00ed o xis do problema da implanta\u00e7\u00e3o do Sistema \u00danico de Seguran\u00e7a P\u00fablica (SUSP) e da recria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio dedicado a coorden\u00e1-lo. Institu\u00eddo em 2018, na gest\u00e3o de Raul Jungmann, o SUSP oferece uma base para integrar institui\u00e7\u00f5es e agora foi constitucionalizado, o que aumenta a responsabilidade do governo federal no combate ao crime organizado. <br><br>Reeleito, o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva decidiu destinar R$ 1,5 bilh\u00e3o do Or\u00e7amento da Uni\u00e3o para implanta\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Seguran\u00e7a P\u00fablica.<br>Entretanto, mudar o desenho administrativo n\u00e3o desmancha redes criminosas nem garante a coopera\u00e7\u00e3o com governos que fazem oposi\u00e7\u00e3o, cujas pol\u00edcias s\u00e3o briosas de sua autonomia e, ao mesmo tempo, fracassam no combate \u00e0 criminalidade e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Houve, sim, redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de homic\u00eddios, mas a expans\u00e3o do crime organizado e sua infiltra\u00e7\u00e3o na economia formal, na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e na pol\u00edtica partid\u00e1ria \u00e9 fato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale a pena ler de novo: <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-conto-noir-o-detetive-durao-os-negocios-da-politica-e-o-caso-master\/\">O conto noir, o detetive dur\u00e3o, os neg\u00f3cios da pol\u00edtica e o caso Master<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/tragedia-na-vida-banal\/\">Trag\u00e9dia na vida banal<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O SUSP oferece uma base para integrar institui\u00e7\u00f5es e, agora, foi constitucionalizado, o que aumenta a responsabilidade do governo federal no combate ao crime organizado Um investigador solit\u00e1rio, um traficante cercado pelas contradi\u00e7\u00f5es do morro e um jovem aprisionado pela explora\u00e7\u00e3o do trabalho revelam como viol\u00eancia, desigualdade e corrup\u00e7\u00e3o se articulam com a vida cotidiana e a economia. Dinheiro e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":11944,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1223,4,7,3,9,115,323,80,68],"tags":[2058,2196,1115,2266,2253],"class_list":["post-11936","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasilia","category-governo","category-justica","category-politica","category-politica-2","category-rio-de-janeiro","category-sao-paulo","category-seguranca","category-violencia","tag-faccoes","tag-lula-2","tag-ministerio","tag-pcc","tag-seguranca-2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11936","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11936"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11936\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11942,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11936\/revisions\/11942"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11944"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11936"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11936"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11936"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}