{"id":11916,"date":"2026-11-01T08:51:36","date_gmt":"2026-11-01T11:51:36","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11916"},"modified":"2026-11-01T08:55:39","modified_gmt":"2026-11-01T11:55:39","slug":"duas-taticas-de-esquerda-hegemonismo-do-pt-ou-alianca-com-os-liberais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/duas-taticas-de-esquerda-hegemonismo-do-pt-ou-alianca-com-os-liberais\/","title":{"rendered":"Duas t\u00e1ticas de esquerda: hegemonismo do PT ou alian\u00e7a com os liberais"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>A mobiliza\u00e7\u00e3o popular do segundo turno compensou a fragilidade da aprova\u00e7\u00e3o governamental e devolveu centralidade \u00e0 defesa da democracia na reelei\u00e7\u00e3o de Lula <a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/lula-dobra-aposta-na-economia-do-afeto-e-na-alianca-com-alcolumbre-e-motta\/\"><br><\/a><\/em><\/strong><br>A discuss\u00e3o sobre a composi\u00e7\u00e3o do novo governo Lula e sua pol\u00edtica econ\u00f4mica remete-se a controv\u00e9rsias hist\u00f3ricas da esquerda: como combinar identidade pr\u00f3pria, mobiliza\u00e7\u00e3o popular e alian\u00e7as com for\u00e7as que n\u00e3o compartilham seu projeto? Vladimir L\u00eanin, o l\u00edder bolchevique, e Antonio Gramsci, o maior marxista ocidental, protagonizaram esse debate na R\u00fassia autocr\u00e1tica de 1905 e na It\u00e1lia fascista da d\u00e9cada de 1930. Entre ambos e a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, h\u00e1 uma dist\u00e2ncia intranspon\u00edvel.<br><br>Em Duas t\u00e1ticas da social-democracia na revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica (Boitempo), L\u00eanin sustentava que a burguesia liberal russa n\u00e3o levaria at\u00e9 o fim a luta contra o czarismo. Temia mais a iniciativa dos trabalhadores do que a sobreviv\u00eancia da autocracia. Caberia ao proletariado, aliado ao campesinato, dirigir a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. A quest\u00e3o era quem comandaria a transforma\u00e7\u00e3o, antes mesmo da passagem ao socialismo. Isso admitia converg\u00eancias circunstanciais com liberais, mas recusava a subordina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a eles. Essas teses permanecem vivas na esquerda brasileira.<br><br>Nos seus Cadernos do C\u00e1rcere (Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira), a partir da experi\u00eancia bolchevique, Gramsci percebeu que as sociedades ocidentais exigiam outra estrat\u00e9gia. O poder se sustentava tamb\u00e9m em partidos, igrejas, sindicatos, imprensa e associa\u00e7\u00f5es. A transforma\u00e7\u00e3o dependeria de uma prolongada disputa de dire\u00e7\u00e3o na sociedade civil, a \u201cguerra de posi\u00e7\u00e3o\u201d. Conquistar o governo seria insuficiente sem construir consentimento e ampliar alian\u00e7as. Sua reflex\u00e3o abriu caminhos para as esquerdas democr\u00e1ticas mundo afora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em> <strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2026\/10\/7531424-bolsonarismo-nao-esta-derrotado-esta-disseminado-basta-ver-os-patroes-demitindo-funcionarios-que-votaram-no-lula-diz-filosofo-renato-lessa.html\">&#8216;Bolsonarismo n\u00e3o est\u00e1 derrotado, est\u00e1 disseminado&#8217;, diz fil\u00f3sofo Renato Lessa<\/a><\/strong><br><br>A distin\u00e7\u00e3o decisiva, ainda hoje, est\u00e1 entre hegemonia e hegemonismo. A primeira exige capacidade de incorporar demandas dos aliados e formular um interesse comum. O segundo pretende subordin\u00e1-los \u00e0 conveni\u00eancia do partido dominante. H\u00e1 profundas diferen\u00e7as entre combater uma autocracia e governar uma democracia pluralista. Nesta, uma alian\u00e7a democr\u00e1tica pressup\u00f5e reconhecer a legitimidade, a autonomia e o revezamento de lideran\u00e7a entre os parceiros.<br><br>A hist\u00f3ria brasileira mostra que a coopera\u00e7\u00e3o entre esquerda, centro democr\u00e1tico e liberais pode produzir avan\u00e7os duradouros. No governo Juscelino Kubitschek, a alian\u00e7a PSD-PTB combinou desenvolvimento e competi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, com apoio comunista \u00e0 candidatura, embora o PCB permanecesse ilegal. Nos anos 1990, Fernando Henrique Cardoso reuniu uma coaliz\u00e3o de centro e centro-direita em torno da estabiliza\u00e7\u00e3o. A esquerda dividiu-se: enquanto setores participaram dessa constru\u00e7\u00e3o, o PT fez oposi\u00e7\u00e3o.<br><br>Essas experi\u00eancias foram distintas, mas mostram que o progresso pode resultar de compromissos entre for\u00e7as concorrentes. A estabiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria e a prote\u00e7\u00e3o social acabaram incorporadas a uma trajet\u00f3ria que atravessou diferentes governos. H\u00e1 tamb\u00e9m uma continuidade democr\u00e1tica entre a mobiliza\u00e7\u00e3o pelo impeachment de Fernando Collor, em 1992, e a converg\u00eancia que derrotou Jair Bolsonaro em 2022: advers\u00e1rios reconheceram uma tarefa comum. A presen\u00e7a de Geraldo Alckmin na chapa de Lula simbolizou essa possibilidade.<br><br><strong>Escolha estrat\u00e9gica<\/strong><br><br>Os fracassos tamb\u00e9m ensinam. Em 1964, setores da esquerda subestimaram a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, trataram compromissos como capitula\u00e7\u00f5es e contribu\u00edram para o isolamento de Jo\u00e3o Goulart. Obviamente, isso n\u00e3o diminui a responsabilidade dos golpistas pela destrui\u00e7\u00e3o da democracia. Em 2016, a crise econ\u00f4mica, os erros do governo Dilma Rousseff e a desagrega\u00e7\u00e3o de sua coaliz\u00e3o abriram caminho ao impeachment. O tra\u00e7o comum foi a perda de sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social.<br><br>Esse problema reaparece quando a esquerda rejeita alian\u00e7as program\u00e1ticas com democratas de outras correntes, mas aceita acordos de conveni\u00eancia para obter maioria parlamentar. No primeiro mandato de Lula, combinou intransig\u00eancia no discurso com depend\u00eancia do Centr\u00e3o na administra\u00e7\u00e3o cotidiana. Como a frente ampla de 2022 n\u00e3o se consolidou como um bloco program\u00e1tico, a estabilidade governamental ficou sujeita a negocia\u00e7\u00f5es fragmentadas por cargos, recursos e influ\u00eancia.<br><br>Agora, a mobiliza\u00e7\u00e3o popular do segundo turno, por meio das redes sociais e grandes manifesta\u00e7\u00f5es de rua, compensou a fragilidade da aprova\u00e7\u00e3o governamental e devolveu centralidade \u00e0 defesa da democracia na reelei\u00e7\u00e3o de Lula. Eleitores escolheram Lula para impedir o avan\u00e7o autorit\u00e1rio sem necessariamente aderir ao PT ou aprovar integralmente seu governo. Diante disso, a esquerda precisa evitar o exclusivismo e atravessar fronteiras pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia mais:<\/em> <strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/10\/7531580-governo-recebe-mais-de-4-mil-denuncias-de-assedio-eleitoral.html\">Governo recebe mais de 4 mil den\u00fancias de ass\u00e9dio eleitoral; Sudeste lidera<\/a><\/strong><br><br>O historiador Alberto Aggio, no seu livro A constru\u00e7\u00e3o da democracia no Brasil: 1985-2025 (FAP-Annablume), ajuda a compreender essa tens\u00e3o ao identificar na \u201ceconomia do afeto\u201d e na \u201ccultura do recha\u00e7o\u201d as principais caracter\u00edsticas do lulismo e do PT, respectivamente. O v\u00ednculo emocional com Lula amplia suas possibilidades de interlocu\u00e7\u00e3o; a identidade do PT constru\u00edda pela simples rejei\u00e7\u00e3o aos advers\u00e1rios pode estreit\u00e1-las. \u201cGovernar com o povo\u201d leva a duas orienta\u00e7\u00f5es distintas: privilegiar a rela\u00e7\u00e3o carism\u00e1tica entre presidente e eleitores ou fortalecer a participa\u00e7\u00e3o por meio de institui\u00e7\u00f5es, organiza\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas e representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u00c9 poss\u00edvel juntar as duas coisas? E como governar com redes sociais sob controle das big techs? <br><br>A diverg\u00eancia econ\u00f4mica tamb\u00e9m faz parte dessa escolha. Desenvolvimentistas enfatizam investimento p\u00fablico, cr\u00e9dito e transforma\u00e7\u00e3o produtiva, enquanto sociais-liberais ressaltam estabilidade, sustentabilidade fiscal e condi\u00e7\u00f5es para o investimento privado. Combater a desigualdade gera uma tens\u00e3o dial\u00e9tica entre distribui\u00e7\u00e3o de renda e capacidade de financiamento para obter crescimento. Equilibrar as contas implica em escolhas: quem paga e quais despesas preservar. Trocando em mi\u00fados, a nova composi\u00e7\u00e3o ministerial mostrar\u00e1 se Lula pretende compartilhar a constru\u00e7\u00e3o desse programa ou apenas acomodar apoios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Vale a pena ler de novo:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/trump-mantem-criticas-as-eleicoes-porem-anuncia-que-conversara-com-lula\/\">Trump mant\u00e9m cr\u00edticas \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, por\u00e9m anuncia que conversar\u00e1 com Lula<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/lula-dobra-aposta-na-economia-do-afeto-e-na-alianca-com-alcolumbre-e-motta\/\">Lula dobra aposta na economia do afeto e na alian\u00e7a com Alcolumbre e Motta<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o popular do segundo turno compensou a fragilidade da aprova\u00e7\u00e3o governamental e devolveu centralidade \u00e0 defesa da democracia na reelei\u00e7\u00e3o de Lula A discuss\u00e3o sobre a composi\u00e7\u00e3o do novo governo Lula e sua pol\u00edtica econ\u00f4mica remete-se a controv\u00e9rsias hist\u00f3ricas da esquerda: como combinar identidade pr\u00f3pria, mobiliza\u00e7\u00e3o popular e alian\u00e7as com for\u00e7as que n\u00e3o compartilham seu projeto? 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