{"id":11877,"date":"2026-10-21T07:38:40","date_gmt":"2026-10-21T10:38:40","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11877"},"modified":"2026-10-21T07:40:12","modified_gmt":"2026-10-21T10:40:12","slug":"o-nosso-iberismo-numa-encruzilhada-da-historia-que-pauta-lula-e-flavio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-nosso-iberismo-numa-encruzilhada-da-historia-que-pauta-lula-e-flavio\/","title":{"rendered":"O nosso iberismo numa encruzilhada da hist\u00f3ria que pauta Lula e Fl\u00e1vio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Sim, os resultados das nossa democracia s\u00e3o insuficientes diante da desigualdade brasileira, mas n\u00e3o autorizam tratar a redemocratiza\u00e7\u00e3o como um grande fracasso<\/em><\/strong><br><br>A elei\u00e7\u00e3o presidencial brasileira \u00e9 a mais importante fora dos Estados Unidos em 2026, avalia Daron Acemoglu, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), laureado com o Nobel de Economia. Em entrevista \u00e0 BBC News Brasil, o economista compara uma eventual volta da fam\u00edlia Bolsonaro ao poder \u00e0 decis\u00e3o dos norte-americanos de reconduzir Donald Trump \u00e0 Casa Branca. Seu alerta ultrapassa a disputa entre o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e Fl\u00e1vio Bolsonaro, hoje favorito. Segundo ele, est\u00e1 em jogo o lugar do Brasil na crise das democracias e na reorganiza\u00e7\u00e3o do poder mundial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia tamb\u00e9m<\/em>: <strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/10\/7523881-real-time-big-data-flavio-tem-52-dos-votos-validos-e-lula-48.html\">Fl\u00e1vio tem 52% dos votos v\u00e1lidos e Lula 48% na pesquisa Real Time Big Data<\/a><br><\/strong><br>Mais uma vez, o pa\u00eds chega a uma encruzilhada hist\u00f3rica, na qual suas contradi\u00e7\u00f5es internas se encontram com as grandes transforma\u00e7\u00f5es internacionais. Desde a expans\u00e3o mar\u00edtima portuguesa, participamos das conex\u00f5es entre Ocidente e Oriente. A chegada de Cabral ocorreu numa expedi\u00e7\u00e3o destinada \u00e0 \u00cdndia. Mais tarde, sobretudo a partir da segunda metade do s\u00e9culo XVII, Salvador se consolidou como escala da Carreira da \u00cdndia, integrando circuitos que ligavam Europa, \u00c1frica, Am\u00e9rica e \u00c1sia. Antes de existir como na\u00e7\u00e3o, o Brasil j\u00e1 participava de uma economia mundial<br><br>Essa inser\u00e7\u00e3o deixou marcas. A coloniza\u00e7\u00e3o nos vinculou \u00e0 circula\u00e7\u00e3o internacional de mercadorias, pessoas e conhecimentos, mas organizou a sociedade pela escravid\u00e3o, pelo monop\u00f3lio e pela concentra\u00e7\u00e3o da propriedade. A conex\u00e3o com o mundo conviveu com o fechamento das oportunidades dentro de casa. A riqueza atravessava os oceanos, a cidadania encontrava barreiras na estrutura social.<br><br>\u00c9 nesse sentido que o velho iberismo continua sendo uma chave para compreens\u00e3o do presente. N\u00e3o como destino cultural inevit\u00e1vel, embora sua presen\u00e7a seja uma vertente de nossa identidade nacional, nem como explica\u00e7\u00e3o para todos os nossos males, como fazem aqueles que veem no povo o grande problema. Mas como uma heran\u00e7a de centraliza\u00e7\u00e3o do poder, hierarquias sociais e depend\u00eancia da sociedade em rela\u00e7\u00e3o ao Estado.<br><br>Nossa moderniza\u00e7\u00e3o frequentemente avan\u00e7ou por decis\u00f5es tomadas de cima, mediante acordos entre elites que incorporavam demandas populares sem distribuir o poder na mesma propor\u00e7\u00e3o e, muito menos, o conhecimento e a renda. Nosso populismo \u00e9 parte desse processo. Como destaca Alberto Aggio, em seu livro Um Lugar no Mundo (Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira), n\u00e3o cabe reduzi-lo a simples demagogias. Sua emerg\u00eancia correspondeu \u00e0 crise da ordem liberal olig\u00e1rquica e \u00e0 tentativa de construir sociedades industriais com protagonismo estatal. A nossa revolu\u00e7\u00e3o burguesa foi passiva, incorporou trabalhadores pela legisla\u00e7\u00e3o social, mas submeteu sua organiza\u00e7\u00e3o \u00e0 tutela do Estado. Ampliou direitos e restringiu autonomia.<br><br>A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 procurou superar essa cidadania tutelada ao combinar direitos sociais, liberdades individuais e participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Sim, seus resultados s\u00e3o insuficientes diante da desigualdade brasileira, mas n\u00e3o autorizam tratar a redemocratiza\u00e7\u00e3o como um grande fracasso. O impasse est\u00e1 na dificuldade de converter direitos reconhecidos em servi\u00e7os de qualidade, oportunidades e seguran\u00e7a, enquanto grupos organizados, velhas oligarquias e corpora\u00e7\u00f5es do poder instalado capturam recursos e institui\u00e7\u00f5es.<br><strong><br>Entre dois mundos<\/strong><br><br>\u00c9 aqui que o economista norte-americano volta a essa hist\u00f3ria. Em seu novo livro, What Happened to Liberal Democracy?, Acemoglu relaciona a vitalidade da democracia liberal \u00e0 prosperidade compartilhada, ao governo democr\u00e1tico e \u00e0 liberdade de produzir conhecimento. Sua reconstru\u00e7\u00e3o exige, pois recuperar as condi\u00e7\u00f5es sociais que tornam a liberdade efetiva para a maioria.<br><br>Resguardadas as mudan\u00e7as na estrutura e na composi\u00e7\u00e3o das classes sociais no Brasil, o velho dilema da &#8220;classe em si&#8221; ou &#8220;classe para si&#8221; pode ser traduzido pela seguinte pergunta: como assegurar que o trabalhador seja um cidad\u00e3o aut\u00f4nomo, com voz e perspectivas de ascens\u00e3o? Essa \u00e9 a tarefa inconclusa para social-democratas e liberais, no poder ou fora dele. As raz\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o uma boa discuss\u00e3o para depois das elei\u00e7\u00f5es.<br><br>Nossa rela\u00e7\u00e3o com o exterior tem tem a ver com isso. A tradi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica brasileira construiu instrumentos para ampliar a margem de decis\u00e3o nacional diante das pot\u00eancias. Em diferentes governos e regimes, houve esfor\u00e7os para negociar vantagens, diversificar parceiros e evitar compromissos que subordinassem o desenvolvimento brasileiro \u00e0s prioridades alheias. Essa tradi\u00e7\u00e3o produziu um patrim\u00f4nio de Estado, que est\u00e1 em risco nessas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia mais:<\/em> <strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/10\/7524407-itamaraty-reage-a-milei-e-o-acusa-de-tentar-interferir-nas-eleicoes-brasileiras.html\">Itamaraty reage a Milei e o acusa de tentar interferir nas elei\u00e7\u00f5es brasileiras<\/a><\/strong><br><br>Agora, a rivalidade entre Estados Unidos e China recoloca o Brasil entre dois grandes centros de poder. Entretanto, \u00e9 um erro transformar essa circunst\u00e2ncia numa escolha simplista. A aproxima\u00e7\u00e3o com Washington n\u00e3o constitui, por si, uma garantia democr\u00e1tica, assim como o com\u00e9rcio com Pequim n\u00e3o determina nosso regime pol\u00edtico. O crit\u00e9rio deve ser o interesse nacional, submetido ao debate p\u00fablico e aos limites constitucionais.<br><br>Rela\u00e7\u00f5es com os EUA, a China, a Uni\u00e3o Europeia e o Brics precisam ser avaliadas por seus efeitos sobre emprego, tecnologia, produtividade e capacidade de decis\u00e3o. Nossa soberania perder\u00e1 subst\u00e2ncia se depender excessivamente de qualquer parceiro ou com uma corrente pol\u00edtica estrangeira como refer\u00eancia de autoridade para lideran\u00e7as nacionais. Isso tamb\u00e9m coloca em xeque nossa democracia representativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Vale a pena ler de novo:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-velho-populismo-e-o-novo-iliberalismo-na-disputa-entre-lula-e-flavio\/\">O velho populismo e o novo iliberalismo na disputa entre Lula e Fl\u00e1vio<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/favoritismo-de-flavio-obriga-lula-a-adotar-uma-estrategia-de-resistencia\/\">Favoritismo de Fl\u00e1vio obriga Lula a adotar uma estrat\u00e9gia de resist\u00eancia<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>&nbsp;<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim, os resultados das nossa democracia s\u00e3o insuficientes diante da desigualdade brasileira, mas n\u00e3o autorizam tratar a redemocratiza\u00e7\u00e3o como um grande fracasso A elei\u00e7\u00e3o presidencial brasileira \u00e9 a mais importante fora dos Estados Unidos em 2026, avalia Daron Acemoglu, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), laureado com o Nobel de Economia. 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