{"id":11805,"date":"2026-10-02T07:57:12","date_gmt":"2026-10-02T10:57:12","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11805"},"modified":"2026-10-02T08:16:41","modified_gmt":"2026-10-02T11:16:41","slug":"fator-externo-complica-vida-de-lula-para-oposicao-pode-ser-a-vantagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/fator-externo-complica-vida-de-lula-para-oposicao-pode-ser-a-vantagem\/","title":{"rendered":"Fator externo complica vida de Lula; para oposi\u00e7\u00e3o, pode ser a vantagem"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>O saldo da campanha eleitoral em ternos de propostas de governo \u00e9 muito negativo; pode ser que, no segundo turno, as duas vis\u00f5es de Brasil sirvam para discutir os problemas reais <br><\/em><\/strong><br>A elei\u00e7\u00e3o brasileira chega \u00e0 reta final sob press\u00e3o internacional, um cen\u00e1rio muito diferente daquele de 2022. H\u00e1 quatro anos, Joe Biden ocupava a Casa Branca. Embora n\u00e3o fosse aliado ideol\u00f3gico de Lula, seu governo trabalhou para desencorajar uma ruptura institucional e reconheceu rapidamente a vit\u00f3ria do petista. O diretor da CIA chegou a ser enviado ao Brasil, antes da elei\u00e7\u00e3o, para advertir Jair Bolsonaro contra a manipula\u00e7\u00e3o do processo eleitoral. Agora, o sinal emitido por Washington mudou: o governo americano mant\u00e9m afinidades pol\u00edticas com o bolsonarismo, e Lula enfrenta um ambiente regional cada vez mais hostil.<br><br>O Itamaraty passou a conviver com uma vari\u00e1vel que n\u00e3o controla: a milit\u00e2ncia internacional bolsonarista, que atravessa fronteiras e tenta transformar seus aliados externos em atores internos. Nessa quinta-feira, o presidente argentino Javier Milei, em entrevista ao jornal franc\u00eas Le Point, manifestou esperan\u00e7a de que seu &#8220;amigo Fl\u00e1vio Bolsonaro&#8221; ven\u00e7a e realize um programa liberal no Brasil. Voltou tamb\u00e9m a insultar Lula. S\u00e3o vizinhos politicamente advers\u00e1rios, mas seus governos precisam negociar com\u00e9rcio, fronteiras e integra\u00e7\u00e3o das cadeias de valor. Entretanto, Milei enxerga na derrota de Lula uma oportunidade. \u00c9 uma esp\u00e9cie de troco, porque Lula interferiu nas elei\u00e7\u00f5es argentinas contra ele.<br><br>A grande preocupa\u00e7\u00e3o do Itamaraty \u00e9 a Casa Branca. Nessa quinta-feira, o presidente Donald Trump declarou que est\u00e1 &#8220;acompanhando muito de perto as elei\u00e7\u00f5es brasileiras&#8221; e chamou o Brasil de &#8220;um pa\u00eds muito importante&#8221;. Lac\u00f4nico, acrescentou: &#8220;\u00c9 uma elei\u00e7\u00e3o muito importante&#8221;. Entretanto, mostrou cautela e n\u00e3o anunciou apoio a nenhum candidato. A tr\u00eas dias da vota\u00e7\u00e3o, manteve uma apar\u00eancia de dist\u00e2ncia. Mas n\u00e3o est\u00e1 neutro, a discri\u00e7\u00e3o verbal precisa ser confrontada com a atua\u00e7\u00e3o do governo americano e com os interesses que cercam a disputa, principalmente as a\u00e7\u00f5es do secret\u00e1rio de Estado, Marco Rubio, aliado do cl\u00e3 Bolsonaro.<br><br>Reportagem do New York Times, publicada na segunda-feira, mostrou essa diferen\u00e7a. Trump n\u00e3o endossou formalmente um candidato, mas sua administra\u00e7\u00e3o favoreceu Fl\u00e1vio por caminhos indiretos. Aponta o interesse de Washington numa aproxima\u00e7\u00e3o em seguran\u00e7a e minerais estrat\u00e9gicos. O Brasil seria o principal terreno ainda em disputa numa regi\u00e3o em que aliados da direita v\u00eam ampliando seu poder. O jornal descreve esfor\u00e7os brasileiros para monitorar lobby estrangeiro, combater desinforma\u00e7\u00e3o e buscar respaldo internacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em> <strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/10\/7512752-agu-pede-investigacao-sobre-possivel-verba-de-trump-para-grupos-no-brasil.html\">AGU pede investiga\u00e7\u00e3o sobre poss\u00edvel verba de Trump para grupos no Brasil<\/a><\/strong><br><br>Recursos americanos est\u00e3o sendo mobilizados supostamente para financiar a oposi\u00e7\u00e3o. Segundo o jornal brit\u00e2nico The Guardian, um programa de US$ 1 milh\u00e3o pretende financiar organiza\u00e7\u00f5es que contestam o que classificam como abusos judiciais e censura no Brasil. O alvo \u00e9 o Supremo Tribunal Federal, que virou um ponto fraco na arquitetura institucional da democracia brasileira. A iniciativa integra uma redistribui\u00e7\u00e3o mais ampla de verbas do Departamento de Estado para pautas conservadoras. Diante dessa informa\u00e7\u00e3o, a Advocacia-Geral da Uni\u00e3o pediu ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal que a Pol\u00edcia Federal investigue o caso.<br><br><strong>Valor intang\u00edvel<br><\/strong><br>Do ponto de vista da pol\u00edtica, as press\u00f5es da Casa Branca sobre o governo Lula s\u00e3o muito mais importantes do que o valor anunciado. Financiar atores que combatem uma institui\u00e7\u00e3o brasileira, durante uma elei\u00e7\u00e3o atravessada pela crise dessa mesma institui\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o nova. A vulnerabilidade do Supremo no caso Master oferece a Fl\u00e1vio Bolsonaro uma bandeira e dificulta a resposta \u00e0s a\u00e7\u00f5es norte-americanas. Lula \u00e9 obrigado a defender a soberania do pa\u00eds sem parecer defensor autom\u00e1tico dos ministros do Supremo.<br><br>Enquanto o Guardian associa uma eventual vit\u00f3ria de Fl\u00e1vio ao fortalecimento da &#8220;doutrina Monroe&#8221;, a revista The Economist, tamb\u00e9m brit\u00e2nica, concentra sua cr\u00edtica \u00e0 aus\u00eancia de respostas convincentes para o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o dos gastos p\u00fablicos. Seu diagn\u00f3stico \u00e9 de que o pa\u00eds tem enormes recursos e possibilidades, por\u00e9m, continua sem oferecer uma perspectiva segura de transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. At\u00e9 agora, o debate eleitoral passou ao largo dessas preocupa\u00e7\u00f5es, embora tenham alcance internacional.<br><br>Dentro do Brasil, por\u00e9m, a disputa chega ao eleitor misturada \u00e0 vida cotidiana e \u00e0 f\u00e9. A controv\u00e9rsia sobre Nossa Senhora Aparecida, os ataques \u00e0 CNBB e a proibi\u00e7\u00e3o das bets mobilizam as paix\u00f5es na reta final da campanha. Os n\u00fameros apresentados pela Quaest sugerem melhora de Lula, mas n\u00e3o permitem atribu\u00ed-la \u00e0 pol\u00eamica da padroeira. Renda, ra\u00e7a e regi\u00e3o atravessam essas escolhas.<br><br>A reelei\u00e7\u00e3o de Lula, esta \u00e9 a verdade, est\u00e1 no telhado. Enfrenta duas batalhas simult\u00e2neas: convencer os brasileiros insatisfeitos com seu governo de que merece uma nova chance e resistir a um ambiente externo favor\u00e1vel ao advers\u00e1rio. Fl\u00e1vio procura transformar suas rela\u00e7\u00f5es internacionais, principalmente com Rubio e Milei, num trunfo eleitoral. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, porque nenhum dos dois goza de muito prest\u00edgio no Brasil. Lula ainda tenta capitalizar politicamente as press\u00f5es externas. Do ponto de vista geopol\u00edtico, ao escolher seu presidente, o Brasil tamb\u00e9m decidir\u00e1 com que autonomia pretende ocupar seu lugar no mundo, em que pese a Casa Branca tratar a Am\u00e9rica Latina como seu quintal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia mais:<\/em> <strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/10\/7512900-associacoes-de-jornalismo-se-manifestam-sobre-cancelamento-do-debate.html\">Associa\u00e7\u00f5es de jornalismo se manifestam sobre cancelamento do debate<\/a><\/strong><br><br>O perigo \u00e9 que os eixos da elei\u00e7\u00e3o sejam reduzidos \u00e0s quest\u00f5es religiosa e geopol\u00edtica, enquanto seguran\u00e7a, renda e servi\u00e7os p\u00fablicos, os problemas da vida banal que afligem os brasileiros, permanecem subordinados ao confronto ideol\u00f3gico que divide o pa\u00eds. O saldo da campanha eleitoral em termos de propostas de governo \u00e9 muito negativo; pode ser que, no segundo turno, as duas vis\u00f5es de Brasil sirvam para discutir os problemas reais do pa\u00eds, que s\u00e3o de ordem objetiva e n\u00e3o ideol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Vale a pena ler de novo: <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/escudo-de-trump-mira-ponto-fraco-de-lula-e-cerca-as-fronteiras-do-brasil\/\">Escudo de Trump mira ponto fraco de Lula e cerca as fronteiras do Brasil<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/sobre-independencia-tradicao-diplomatica-e-nova-guerra-fria\/\">Sobre independ\u00eancia, tradi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica e nova Guerra Fria<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O saldo da campanha eleitoral em ternos de propostas de governo \u00e9 muito negativo; pode ser que, no segundo turno, as duas vis\u00f5es de Brasil sirvam para discutir os problemas reais A elei\u00e7\u00e3o brasileira chega \u00e0 reta final sob press\u00e3o internacional, um cen\u00e1rio muito diferente daquele de 2022. 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