{"id":11763,"date":"2026-09-23T08:24:45","date_gmt":"2026-09-23T11:24:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11763"},"modified":"2026-09-23T08:28:09","modified_gmt":"2026-09-23T11:28:09","slug":"o-tempo-o-espaco-a-memoria-e-o-pecado-capital-em-zuenir-ventura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-tempo-o-espaco-a-memoria-e-o-pecado-capital-em-zuenir-ventura\/","title":{"rendered":"O tempo, o espa\u00e7o, a mem\u00f3ria e o pecado capital em Zuenir Ventura"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Mestre Zu, como era chamado por seus alunos, trabalhou nas reda\u00e7\u00f5es mais importantes do Rio. Durante a ditadura militar, ocupou lugar destacado da resist\u00eancia na imprensa carioca<\/em><\/strong><br><br>Zuenir Ventura morreu nesta ter\u00e7a-feira (22\/9), aos 95 anos, no Rio de Janeiro. Mineiro de Al\u00e9m Para\u00edba, fez da imprensa carioca seu posto de observa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Foi rep\u00f3rter, editor, cronista, professor e escritor. Em cada fun\u00e7\u00e3o, preservou a disposi\u00e7\u00e3o de ouvir as pessoas, desconfiar das vers\u00f5es f\u00e1ceis e procurar, por tr\u00e1s dos acontecimentos, as for\u00e7as que moldam a vida brasileira. Integrante da Academia Brasileira de Letras desde 2015, deixa uma obra jornal\u00edstica de alta qualidade liter\u00e1ria e rigor da apura\u00e7\u00e3o.<br><br>Mestre Zu, como era chamado por seus alunos, trabalhou nas reda\u00e7\u00f5es mais importantes do Rio, entre as quais as de O Cruzeiro, Vis\u00e3o, Jornal do Brasil e O Globo. Durante a ditadura militar, ocupou um lugar destacado ponto de refer\u00eancia de resist\u00eancia na imprensa carioca. Sob censura e repress\u00e3o, Zuenir ajudou a manter abertas as possibilidades de cr\u00edtica social, den\u00fancia pol\u00edtica e reflex\u00e3o cultural. N\u00e3o separava a defesa das liberdades da aten\u00e7\u00e3o aos direitos elementares do cidad\u00e3o comum. Sua contribui\u00e7\u00e3o ao jornalismo combinava integridade pol\u00edtica, curiosidade intelectual e sensibilidade diante do outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em> <strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/diversao-e-arte\/2026\/09\/7505740-velorio-de-zuenir-ventura-sera-na-sede-da-abl-nesta-quarta-no-rio.html\">Vel\u00f3rio de Zuenir Ventura ser\u00e1 na sede da ABL, nesta quarta, no Rio<\/a><\/strong><br><br>Enquanto 1968 encontrou a medida do tempo, Cidade Partida (Companhia das Letras) desnudou a dimens\u00e3o do \u201cespa\u00e7o\u201d na vida carioca. Ao acompanhar o cotidiano de Vig\u00e1rio Geral depois da chacina de 1993, Zuenir exp\u00f4s as fronteiras sociais do Rio de Janeiro. A cidade que se reconhecia nas praias, no samba e na celebra\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m erguia barreiras entre a favela e o asfalto. Seu olhar recusava a redu\u00e7\u00e3o dos moradores das comunidades \u00e0 viol\u00eancia que sofriam. Via na segrega\u00e7\u00e3o, no preconceito e na aus\u00eancia de direitos parte essencial do problema. Por isso, sua esperan\u00e7a de integra\u00e7\u00e3o nascia da conviv\u00eancia e da escuta, pr\u00e1ticas que o medo costuma destruir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Cronista <\/strong><br><br>A \u201cmem\u00f3ria\u201d mostra sua for\u00e7a em Chico Mendes: Crime e Castigo (Companhia das Letras). Nas reportagens sobre o assassinato do l\u00edder seringueiro e no retorno ao Acre anos depois, Zuenir acompanhou o crime, o julgamento e suas consequ\u00eancias. A morte de Chico Mendes n\u00e3o se encerrava na identifica\u00e7\u00e3o dos assassinos. Revelava o conflito pela terra, a viol\u00eancia contra quem defendia a floresta e a fragilidade da Justi\u00e7a diante dos poderosos. Ao voltar \u00e0 hist\u00f3ria, o rep\u00f3rter recusou o esquecimento. Chico Mendes permanece viv\u00edssimo na hist\u00f3ria. Suas reportagens sobre seu assassinato receberam os pr\u00eamios Esso e Vladimir Herzog.<br><br>Zuenir foi um grande cronista. Era um observador arguto dos gestos cotidianos, das mudan\u00e7as de costumes, da pol\u00edtica e da vida urbana A cr\u00f4nica de corpo presente lhe permitia aproximar o grande acontecimento da experi\u00eancia comum, com humor e leveza, sem perder a convic\u00e7\u00e3o de que os detalhes ajudam a revelar as contradi\u00e7\u00f5es de uma \u00e9poca. O rep\u00f3rter interessado nos traumas nacionais sabia tecer a reconstitui\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria na conversa, no medo, no afeto e nas pequenas altera\u00e7\u00f5es da vida di\u00e1ria.<br><br>E o pecado capital? Inveja: Mal Secreto (Editora Objetiva) \u00e9 um livra\u00e7o. Investigou um sentimento dif\u00edcil de confessar e capaz de corroer rela\u00e7\u00f5es. O tema parece distante da ditadura, da Amaz\u00f4nia ou das divis\u00f5es do Rio.  Mas n\u00e3o est\u00e1. Entretanto, pertence aos universos da filosofia e da psicologia: por que algu\u00e9m deseja apagar a liberdade, a felicidade ou o lugar do outro? &#8220;O \u00f3dio espuma. A pregui\u00e7a se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A lux\u00faria se oferece. O orgulho brilha. S\u00f3 a inveja se esconde\u201d, mostrou Zuenir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leia mais: <strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/diversao-e-arte\/2026\/09\/7505782-zuenir-ventura-falou-sobre-velhice-e-crises-do-brasil-em-entrevista-ao-correio.html\">Zuenir Ventura falou sobre velhice e crises do Brasil em entrevista ao Correio<\/a><\/strong><br><br>Durante quase dois anos, Zuenir se debru\u00e7ou sobre este pecado. Mal Secreto \u00e9 o primeiro volume da cole\u00e7\u00e3o Plenos Pecados, da Editora Objetiva. \u00c9 um mergulho no universo daquele que foi apontado, numa pesquisa exclusiva, entre os brasileiros, como o mais conhecido dos pecados capitais. Zuenir mostra porque a inveja \u00e9 o pior dos sentimentos e se prolonga no tempo em raz\u00e3o das suas consequ\u00eancias individuais e coletivas. A inveja difere da ambi\u00e7\u00e3o e da cobi\u00e7a, \u00e9 o desejo de que o outro n\u00e3o seja aquele que o invejoso n\u00e3o consegue ser.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mestre Zu, como era chamado por seus alunos, trabalhou nas reda\u00e7\u00f5es mais importantes do Rio. 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