{"id":11716,"date":"2026-09-10T10:30:27","date_gmt":"2026-09-10T13:30:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11716"},"modified":"2026-09-10T11:15:46","modified_gmt":"2026-09-10T14:15:46","slug":"alegoria-glauberiana-do-cinema-novo-descreve-stf-em-transe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/alegoria-glauberiana-do-cinema-novo-descreve-stf-em-transe\/","title":{"rendered":"Alegoria glauberiana do Cinema Novo descreve STF em transe"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>O Supremo \u00e9 um arquip\u00e9lago, cada ministro \u00e9 uma ilha fortificada, com artilharia e muni\u00e7\u00e3o pesadas. Fachin n\u00e3o tem autoridade hier\u00e1rquica sobre os ministros no exerc\u00edcio da jurisdi\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><br><br>Em Terra em Transe, obra-prima de Glauber Rocha lan\u00e7ada em 1967, a fict\u00edcia Rep\u00fablica de Eldorado mergulha numa crise pol\u00edtica que dissolve as fronteiras entre democracia, populismo, autoritarismo e ambi\u00e7\u00e3o pessoal. O poeta e jornalista Paulo Martins, interpretado por Jardel Filho, procura interferir nos destinos do pa\u00eds, mas oscila entre dois projetos de poder: o conservador Porf\u00edrio Diaz, vivido por Paulo Autran, e o l\u00edder populista Felipe Vieira, representado por Jos\u00e9 Lewgoy. Paulo rompe com Diaz e se aproxima de Vieira, na esperan\u00e7a de construir uma alternativa democr\u00e1tica.<br><br>Aos poucos, por\u00e9m, percebe que os dois campos se alimentam das mesmas pr\u00e1ticas: a manipula\u00e7\u00e3o das massas, os acordos de c\u00fapula, a ret\u00f3rica vazia e a transforma\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica num grande espet\u00e1culo. Dividido entre o idealismo e o desencanto, acaba tragado pelo sistema que pretendia modificar. Ao lado de Jardel Filho, Paulo Autran e Jos\u00e9 Lewgoy, participam do filme Glauce Rocha, no papel de Sara; Danuza Le\u00e3o, como S\u00edlvia; Paulo Gracindo, como J\u00falio Fuentes; al\u00e9m de Hugo Carvana, Francisco Milani, Jofre Soares e Fl\u00e1vio Migliaccio. A m\u00fasica \u00e9 de S\u00e9rgio Ricardo; a fotografia, de Luiz Carlos Barreto; e a montagem, de Eduardo Escorel.<br><br>Marco do Cinema Novo, Terra em Transe transformou o impasse brasileiro posterior ao golpe de 1964 numa alegoria sobre as estruturas de poder da Am\u00e9rica Latina. Com sua narrativa convulsiva, seus discursos teatrais e sua montagem fragmentada, Glauber n\u00e3o pretendia reproduzir os acontecimentos de forma documental. Procurava revelar o del\u00edrio de uma sociedade cujas institui\u00e7\u00f5es continuavam formalmente de p\u00e9, mas j\u00e1 n\u00e3o conseguiam ordenar os conflitos pol\u00edticos. O filme disputou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, onde recebeu os pr\u00eamios da cr\u00edtica internacional e de Luis Bu\u00f1uel.<br><br>Seis d\u00e9cadas depois, a alegoria glauberiana de Eldorado aparece na crise instalada no Supremo Tribunal Federal. A Corte vive um momento no qual pol\u00eamicas decis\u00f5es individuais, disputas de compet\u00eancia e suspeitas rec\u00edprocas amea\u00e7am produzir um estado de transe institucional. O caso do Banco Master ultrapassou os limites de uma investiga\u00e7\u00e3o financeira. As recentes decis\u00f5es de Alexandre de Moraes, Andr\u00e9 Mendon\u00e7a e Fl\u00e1vio Dino colocam em xeque a autoridade do STF, alcan\u00e7am a Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica e envolvem a c\u00fapula da Pol\u00edcia Federal. Quando um ministro desautoriza o outro, processos diferentes se cruzam e institui\u00e7\u00f5es encarregadas de investigar passam a integrar a pr\u00f3pria controv\u00e9rsia, o problema torna-se uma crise de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em> <strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/09\/7497278-cada-ministro-tem-um-tribunal-proprio-diz-especialista-sobre-stf.html\">Cada ministro tem um tribunal pr\u00f3prio, diz especialista sobre STF<\/a><\/strong><br><br>Mendon\u00e7a determinou o afastamento do diretor-geral da Pol\u00edcia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Intelig\u00eancia da institui\u00e7\u00e3o, Leandro Almada. Dino decidiu reintegr\u00e1-los. Moraes, por sua vez, encaminhou \u00e0 Presid\u00eancia do Supremo documentos da PF para sustentar um pedido de investiga\u00e7\u00e3o sobre a atua\u00e7\u00e3o de Mendon\u00e7a. A disputa virou um labirinto jur\u00eddico, formado por mensagens apreendidas, relat\u00f3rios policiais e vazamentos seletivos. Est\u00e3o perdidos todos os envolvidos, inclusive o procurador-geral da Rep\u00fablica, Paulo Gonet. O presidente do STF, Edson Fachin, ainda n\u00e3o encontrou o fio de Ariadne para sair dele. Quem \u00e9 o Minotauro nessa hist\u00f3ria? Moraes ou Mendon\u00e7a?<br><br><strong>E quem paga a conta?<\/strong><br><br>Fachin resolveu assumir a condu\u00e7\u00e3o institucional do conflito. Suspendeu as decis\u00f5es de Mendon\u00e7a e Dino sobre a dire\u00e7\u00e3o da PF, manteve Andrei no cargo, retirou de Moraes o controle do pedido de investiga\u00e7\u00e3o relacionado \u00e0 controv\u00e9rsia e estabeleceu que novas medidas contra integrantes da Corte depender\u00e3o de sua autoriza\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m decidiu levar o conjunto das quest\u00f5es ao Plen\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia mais:<\/em> <strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/denise\/fachin-joga-pela-colegialidade\/\">Fachin joga pela \u201ccolegialidade\u201d<\/a><\/strong><br><br>O presidente do STF tenta interromper o transe e devolver \u00e0 institui\u00e7\u00e3o a unidade de comando, colegialidade e previsibilidade. N\u00e3o lhe cabe proteger ministros nem antecipar julgamentos. Sua responsabilidade \u00e9 garantir o devido processo legal, preservar a compet\u00eancia do Plen\u00e1rio e impedir que o Supremo se transforme simultaneamente em investigador, parte interessada e juiz de seus pr\u00f3prios conflitos. Parece f\u00e1cil, mas n\u00e3o \u00e9, porque a Corte est\u00e1 muito dividida e a disputa entre seus integrantes virou uma briga de rua, ou seja, n\u00e3o tem regra.<br><br>O Supremo \u00e9 um arquip\u00e9lago, cada ministro \u00e9 uma ilha fortificada, com artilharia e muni\u00e7\u00e3o pesadas. Fachin n\u00e3o tem autoridade hier\u00e1rquica sobre os ministros no exerc\u00edcio da jurisdi\u00e7\u00e3o, mas responde pela preserva\u00e7\u00e3o institucional da Corte. Diante de decis\u00f5es contradit\u00f3rias, cabe-lhe organizar os processos, definir os caminhos regimentais e convocar o colegiado. Quando o Plen\u00e1rio se re\u00fane, por\u00e9m, a autoridade n\u00e3o pertence aos gabinetes isolados nem \u00e0 capacidade de cada ministro de impor sua interpreta\u00e7\u00e3o por meio de uma liminar. A maioria dos ministros decide pelo voto.<br><br>\u00c9 a\u00ed que mora o perigo. Um armist\u00edcio entre os integrantes da Corte n\u00e3o \u00e9 suficiente. A sa\u00edda depende da apura\u00e7\u00e3o transparente dos fatos, da preserva\u00e7\u00e3o das provas, da defini\u00e7\u00e3o das compet\u00eancias e da submiss\u00e3o de todos \u00e0s mesmas regras. Qualquer solu\u00e7\u00e3o destinada somente a salvar as apar\u00eancias ampliar\u00e1 a desconfian\u00e7a da sociedade e projetar\u00e1 a crise sobre as elei\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e0 toa, o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva defendeu a quebra integral do sigilo do caso Master, &#8220;doa a quem doer&#8221;. Foi arrastado para a crise pelas conex\u00f5es e pelos vazamentos que alcan\u00e7am personagens ligados ao governo.<br><br>At\u00e9 agora, a conta est\u00e1 no seu colo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Vale a pena ler de novo: <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/crime-castigo-e-relacoes-perigosas-de-ministros-do-stf-no-caso-master\/\">Crime, castigo e rela\u00e7\u00f5es perigosas de ministros do STF no caso Master<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/stf-entrou-na-eleicao-e-pode-sair-dela-com-menos-poderes\/\">STF entrou na elei\u00e7\u00e3o e pode sair dela com menos poderes<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Supremo \u00e9 um arquip\u00e9lago, cada ministro \u00e9 uma ilha fortificada, com artilharia e muni\u00e7\u00e3o pesadas. 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